Há algo além da imagem de Massa em jogo – opinião da imprensa britânica

Muito foi escrito e dito nos últimos dias sobre a polêmica da inversão de posições no GP da Alemanha. Em geral, os brasileiros não perderam tempo em evocar a prova da Áustria, em 2002, e decretar o  suicídio de Massa. Quem não o fez, como Felipe Motta, viu seu blog inundado de indignação.

Na Espanha e na Itália, o tom é de que a Ferrari finalmente concretizou em pontos o bom rendimento que vinha ensaiando. Os italianos, que cobrem a Ferrari, e não seus pilotos, vibraram com a dobradinha. Para os espanhóis, a palavra de ordem é hipocrisia. Alguns inclusive suspeitam de que a maneira como se comportaram Rob Smedley e Massa tenha sido pensada para prejudicar a equipe.

Separei os comentários de alguns experientes jornalistas britânicos, que analisaram o caso de maneira menos parcial. Não foi esse o tom de toda a mídia inglesa, longe disso, mas, em seus blogs, eles puderam falar na linguagem dos iniciados.

Para Joe Saward, o problema são as diferentes filosofias de quem faz o esporte e de quem o assiste. A Ferrari não vê nada de errado em ferir princípios da competição porque enxerga a Fórmula 1 como ferramenta para uma causa: vender carros. Já o torcedor não quer resultados frios, ele quer histórias, boas histórias. “Alguns acreditam que a F1 está lá para gerar o máximo de lucro para eles. Isso funciona à medida que eles conseguem se safar com isso, mas não funciona para o esporte em si.”

Na visão pragmática da Ferrari, fizeram o que tinham que fazer

Andrew Benson, da BBC, é um dos que estranham o rebuliço em torno de algo que nunca deixou de acontecer. Ele é da mesma opinião de David Coulthard e Bernie Ecclestone, de que as equipes deveriam ter liberdade para defender seus interesses. Benson discorda, ainda, de quem compara o episódio ao de 2002. “Ali não havia motivo algum para tirar a vitória de Barrichello”, aponta. “Essa também não é a mesma situação da Red Bull, em que dois pilotos igualados estão na disputa e a equipe toma uma decisão que prejudica um deles. Massa simplesmente não foi forte o suficiente para bater Alonso na temporada toda (…) Alonso teve 2 corridas duras, nas quais sofreu terrivelmente nas mãos dos comissários, e precisa de quantos pontos forem possíveis para voltar à luta pelo título.”

Martin Brundle e James Allen bateram forte na tecla da regra que proíbe ordens de equipe que, para o ex-piloto, nem deveria existir, o que nos livraria do teatro de domingo. Assim como Benson, não vê motivos para punir a Ferrari só porque esse teatro foi mais mal executado que outros. Para Brundle, era óbvio que a Ferrari queria que Alonso ganhasse a corrida para tentar salvar alguma coisa na temporada. No entanto, ele acredita que Massa deveria ter-se negado a cooperar ou encenado com mais convicção. Esse meio termo não ajudou em nada, nem sua imagem, nem a da equipe.

A imprensa malhou a dupla da Ferrari à exaustão

Sobre as críticas ao caráter de Alonso, Brundle sempre fala que, se quiser alguém para amar ou companhia para sair de férias, não procure na F1. “Fiz o papel de bom e equilibrado esportista por toda minha carreira porque sou assim, como Massa, e fiquei bem abaixo do meu potencial.”

Mas é Allen quem toca na palavra exata: “overreaction”, ou exagero. Para ele, o episódio é diferente de 2002 e a crença de que Smedley e Massa pareceram lidar mal com o fato de propósito é fundada. Mas, mais importante, o jornalista defende uma mudança nas regras. Relembrando fatos passados, em que houve ordens claras e ninguém reclamou, ele pergunta se não seria o caso de proibir este tipo de manobra até certa parte do campeonato, digamos, dois terços. “É muito fácil para Christian Horner dizer que eles deveriam liberar a disputa, mas e se Vettel chegar lutando com Hamilton em Interlagos ou Abu Dhabi, e Webber estiver na frente, ele não vai fazer o mesmo?” Allen acha que as demais equipes deveriam ajudar, e não julgar, a Ferrari. “Gostaria de ver a FOTA apresentando propostas para mudar essa regra, de modo que ela trabalhe mais a favor da F1. Apenas reiterar que jogo de equipe está banido cria artificialidades, o que seria ainda mais prejudicial à imagem do esporte.”

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