Monza – transmissão: Dureza inglesa, Bafta alemão e deleite espanhol

E não é que Galvão Bueno se segurou? Tudo bem que toda aquela história de que “Button revolucionou a forma de acertar o carro em Monza”, esquecendo que isso só foi possível graças ao duto o qual, por sinal, será banido em 2011, encheu; a torcida meio exagerada continuou, mas os níveis de implicância com os candidatos de sempre estava curiosamente mais baixo, mesmo dias depois da decisão de livrar a Ferrari de maiores punições pelo GP da Alemanha – assunto, aliás, sumariamente ignorado.

Carlos Gil, inclusive, começou a transmissão com uma pergunta a Massa que surpreendeu pelo realismo, não muito comum na Globo quando se trata das possibilidades dos pilotos brasileiros. “O objetivo é atacar Button e garantir uma dobradinha para a Ferrari?”

Mas parece tarde demais: o vírus contaminou Antonio Lobato, da espanhola La Sexta, que dedicou parte da transmissão a diminuir qualquer esforço de Massa. Na largada, achou que o brasileiro correu riscos desnecessários, ou melhor, fez Alonso correr riscos desnecessários. “Que agressivo foi o Massa!”, gritou por 3 vezes, enquanto seu colega brasileiro via justamente o contrário. “Alonso joga pesado, joga PESADO”, também repete, caso não tenhamos entendido.

Depois, culpou o espanhol pelo acidente de Hamilton! “Foi o Alonso que espremeu o Massa”. Martin Brundle, na BBC inglesa, que explicou muito bem a largada de Button – “ele usou seu downforce devido à asa maior para tracionar melhor nos primeiros metros, mas continuo achando muito corajoso por parte dele usar isso aqui” – também pega pesado, mas com seu conterrâneo. “Ele devia ter saído dali muito antes. Era inevitável, Lewis”, diz o ex-piloto, com ares de professor. “Ele já sentou no carro hoje muito desapontado com sua classificação. Quando vir o acidente e procurar culpados, terá que olhar para o espelho.” É latente a preferência da emissora por Button. “Não sei por que ele não deu mais espaço para o Massa, não entendo”, Marc Gené, na La Sexta, vai no mesmo tom.

Falhas de uns, sorte do campeonato, como bem salientou Reginaldo Leme. As atenções se viram a quem pode virar o jogo na tabela. “Jenson vai ter uma tarde daquelas. É claro que as Ferrari rendem mais”, observa Brundle, que chega a ver uma degradação nos pneus dos italianos, que não existe. “A última pessoa que você quer ter no seu retrovisor é Alonso, principalmente numa Ferrari, em Monza.” O comentarista não vê saída para o inglês se manter na frente. “Não sei o que eles podem fazer. A Ferrari provavelmente vai tentar ficar mais tempo na pista.”

Gené também tenta imaginar qual a melhor estratégia e chega ao absurdo de propor que a Ferrari faça Massa parar primeiro para “aquecer” os mecânicos…

Outro ponto de discussão foi a ultrapassagem de Webber em Vettel, após o alemão ter um suposto problema de motor, que durou um setor. Na Globo, Galvão nutria uma esperança de confusão à vista – “da última vez que esses dois se encontraram…” – e deve ter ficado decepcionado. E, como ordens de equipe parecem assunto proibido na emissora, não foi tão longe quanto Eddie Jordan na BBC. “Não quero acusar ninguém, mas foi estranho. Ele até parecia desesperado no rádio, será que quer ganhar um Bafta?”, referindo-se ao “Oscar” britânico. “Vettel não cederia”, Brundle não entra na teoria da conspiração. “Ordens de equipe?”, pergunta o comentarista da La Sexta, Jacobo Vega, para também ser cortado pela ironia de Lobato. “Isso não existe. Só na Ferrari, só para beneficiar Fernando”.

Voltas depois, Gené volta a tocar no assunto, ainda curioso em relação ao motor “autocurável” de Vettel. “Anos atrás, era possível por meio da telemetria direcional, mexer em algo dos boxes, mas agora não é mais. Nunca vi um motor ter um problema e voltar ao normal… não sei”. “Se foi, foi muito bem feito”, Lobato se rende, ainda desconfiado.

Incorrigível, Schumacher perguntou se poderia espremer alguém no muro

Todos ficam de olho na tabela de tempos. Quando Gené destaca a melhora de Massa em relação às últimas provas, ainda que garantindo, do alto do cargo de piloto de testes ferrarista, que “o normal é que Felipe não ataque, deixe Fernando concentrado em atacar Button”, Lobato reage. “É que o carro está bem mais fácil de guiar.” O comentarista Vega tenta alertar por três vezes o narrador sobre o mecânico da Hispania caído no pit lane que, em dia de Galvão, não dá importância.

Na Globo, somando-se todo o tempo que Massa parecia tirar a cada volta, é estranho que não tenha ganho a corrida, um contraste com a atenção dispensada aos demais brasileiros, à exceção de Bruno Senna, citado quando abandonou – “não é com esse carro que queremos ver o sobrenome Senna de volta”, diz Galvão. Até a volta 27, nem Barrichello, o queridinho de 2 semanas antes, ou Di Grassi, haviam sido citados. Enquanto isso, Brundle conta uma boa história da reunião dos pilotos antes da prova. “Schumacher perguntou se podia empurrar alguém para depois da linha branca na reta, já que há bastante espaço, o que causou algumas risadas.”

Chega a hora da decisão da corrida. Luciano Burti destaca o fato dos mecânicos da Ferrari estarem a postos no pit durante a parada de Button. “Faz parte do jogo, mas fazendo isso eles obrigam Button a desviar.” Brundle destaca as duas voltas de Alonso anteriores ao pit, salientando que o inglês pode ter problemas com o toque na largada, que quebrou parte do difusor.

Os espanhóis, talvez os mais interessados no pitstop, estavam no intervalo! Pelo menos, era um comercial do Santander, estrelado pelo próprio Alonso e com direito a uma “ponta” de Massa. “Achávamos que a diferença não seria suficiente, mas com um trabalho fantástico da equipe e a atuação perfeita de Fernando na entrada e saída do box garantiram a ponta”, Lobato soa um pouco envergonhado, mas logo que recompõe. “É a 3ª vitória na Ferrari. Não sei se na coletiva de imprensa alguém vai chiar dessa vez. Agora ele calou muitos”. A bronca é com os jornalistas ingleses.

Nas andanças pelo meio das chicanes de Hulkenberg garante assunto para a parte final da corrida, ainda que Galvão ensaia uma torcida para que Massa vá para cima de Button. A opinião é unânime: o alemão exagerou e deveria ser punido. “Ele não ganhou vantagem, nem posição, mas é a 3ª vez que passa reto e os comissários vão ficar de olho”, explica Burti. “Esse alemão abusado está desafiando os limites do aceitável”, Brundle é duro. O repórter Ted Kravitz, na BBC, vai à Williams, que afirma ter argumentado com a FIA que Webber não estava em posição de ultrapassagem. Deu certo.

Brundle, que viu um “tipo de ordem de equipe” na estratégia da Red Bull para Vettel chegar à frente de Webber, elege Button e Alonso como os grandes nomes da prova. “Essa vitória vai estar entre as três mais importante da carreira dele, com certeza. Não teve uma boa largada, mas nunca se rendeu. Não saiu do espelho de Jenson um segundo sequer. Os jornalistas italianos dizem que ele é o ferrarista mais querido pelos tifosi desde Villeneuve. Não sei, são eles que dizem…” Até Galvão se rende, em termos. “Alonso brilhante, com trabalho de equipe brilhante”, enquanto Lobato ecoa as palavras do comentarista da BBC, enfatizando que alguns torcedores repetem o gesto dos “passaritos”, que Alonso repete a cada vitória. “É algo que ele faz desde menino, tirou de um programa de TV quando era criança, e hoje os torcedores da Ferrari repetem. É Fernando Alonso fazendo história”, se esbalda. Haja coração, sr. Lobato.

11 comentários sobre “Monza – transmissão: Dureza inglesa, Bafta alemão e deleite espanhol

  1. maravilhoso post. nunca tinha visto uma comparação de transmissões em momentos chaves de corrida.

    a TV inglesa geralmente é a melhor mesmo. BBC style.

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  2. Que bom que gostou. Faço em todas as provas, apesar de dar um trabalhão! hehe Uma das propostas do blog é mostrar que a experiência da F1 pode ser melhor do que o que temos aqui.
    E o Brundle estava meio amargo no domingo, mas não erra uma, é impressionante! Ninguém segura a transmissão da BBC mesmo, mais de 3h ao vivo no domingo.

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  3. disso eu não sei, mas uma coisa que eu gosto é que dá para escolher o áudio da transmissão da TV ou do rádio e os motores ficam sincronizados. Na rádio, quem comenta é o Anthony Davidson, que também é sensacional.

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  4. Muito boa a comparação entre as transmissões. Sigo a da La Sexta. A da BBC também é bem legal. A parte que eu mais gosto dessas transmissões são as reportagens que antecedem os GPs. A transmissão brasileira eu não acompanho há um bom tempo. Não tenho mais tolerância. O único razoável, na minha opinião é o Luciano Burti.

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  5. Eles dão um show realmente nessas matérias antes do GP. Sempre falo: até a Espanha tem uma transmissão melhor que a nossa, mesmo tendo começado em 2003!
    Para falar a verdade, escrever esse post e mostrar um pouco da vergonha do produto que é entregue a nós é o único motivo de eu ainda assistir a Globo.

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