Cingapura por ingleses e espanhóis: erros de cálculo e uma dose de tortura

Enquanto Galvão Bueno, sem pilotos para torcer, centra-se em informações relevantes como “não há cidadão de Cingapura com menos de 45 anos”, Jonathan Legard, na BBC, e Antonio Lobato – que à medida que Alonso avança no campeonato, vai mostrando suas garras -, na La Sexta, focam em seus concorrentes ao título.

O espanhol, pole “de presente”, segundo Galvão, força para cima de Vettel na largada e seus compatriotas acreditam em “revanche” da Alemanha, enquanto o comentarista Martin Brundle vê a manobra de “intimidação” como ponto chave da corrida. Mas seu narrador está mais preocupado com Hamitlon, que não larga bem (os ingleses esperavam que ele ultrapassasse pelo menos Vettel), enquanto Galvão vê um começo “cauteloso” de Barrichello, que perde duas posições.

As atenções se voltam ao que Massa pode fazer largando em último. “Ele vai parar agora e esperar que não haja Safety Car em 10 voltas”, informa Marc Gené, piloto de testes da Ferrari, que traz informações preciosas à transmissão espanhola. “Agora, do fundo do pelotão, ele pode andar rápido e depois lucrar com as outras paradas”, completa Brundle.

Os espanhóis se interessaram mais pela corrida de Massa que a Globo

Mas o SC aparece na volta 3 e atrapalha o brasileiro (o que Brundle identifica imediatamente: “agora ele está na mesma estratégia dos outros”), embora Galvão insista no contrário. No afã de contar vantagem, acaba chamando Alonso de Prost, dando uma dica de como as relações funcionam em sua cabeça. Referia-se à estratégia do espanhol em Mônaco. Reginaldo Leme ignora o narrador e prefere lembrar de Cingapura-2008. Na Espanha, também lembram. “Massa vai tentar fazer o que Fernando fez aqui há dois anos”, Lobato só dá metade da informação. Jura? Quem vai bater?

Todos concordam que é muito cedo para algum dos ponteiros parar. Legard inclusive informa que, conversando com engenheiros, ficou claro que, houvesse um Safety Car até a volta 10, ninguém pararia. Deve ter esquecido de falar com a Red Bull, que para Webber. “Ele já deve estar pensando só em marcar pontos”, define Reginaldo. Gené classifica a parada de “arriscada” e Brundle, de “corajosa”. Logo em seguida, o repórter Ted Kravitz confirma que, para o plano funcionar, o australiano precisa passar Kobayashi, Schumacher e Barrichello. Ultrapassou os dois primeiros mas, Kravitz interfere novamente, aproveitou que o ritmo de Rubinho não era tão lento para economizar pneu, frios e combustível, e não atacou o brasileiro. Não é o que Galvão vê. “Ele vinha abrindo caminho, mas quando chegou no Rubinho, parou na experiência e na competência.”

Outro que chama a atenção é Hulkenberg. O “menino”, como diz Galvão, que tinha “levado bronca de Jackie Stewart” por jogar o capacete no chão na classificação, “é fera”. Vendo que a fera havia espalhado para cima de Glock para passá-lo, o narrador recua. “Ele é abusado, sempre faz isso.” Não percebe a grande atuação de Glock, que segurou a fila de pilotos que pararam no 1º Safety Car. “Ele arruinou a corrida de todos eles”, afirma Ted Kravitz.

Depois de dar 'bronca' no Hulk, Sir Jackie cumprimenta Alonso, a 2 vitórias de alcançá-lo como o 5º maior vencedor da história. E Lobato (à direita) observa

Enquanto isso, Lobato aproveita para amaldiçoar Peter Sauber, que demitiu De la Rosa. “Aí está o iluminado. Seu novo contratado levou 1s na classificação e está em 18º. É uma falta de respeito porque ele se beneficiou da experiência técnica de Pedro.”

Nas voltas seguintes, o sentimento é que a estratégia da Red Bull é equivocada. No Brasil, Reginaldo nem arrisca calcular o tempo que o australiano precisa para voltar à frente de Hamilton; na Espanha, falam em 24s e se agitam com a possibilidade de outro Safety Car colocá-lo na liderança; na Inglaterra, em um pouco mais. Todos erram: o inglês precisa de 31s.

Os erros nos cálculos e o ritmo a princípio pobre de Webber intrigam Brundle. “Mark vai chegar na garagem hoje perguntando: por que eu? Por que no meu carro?” A desconfiança entre os ingleses de que a equipe privilegia constantemente Vettel é grande. “Ele deve lutar no máximo com Button”, se precipita.

Com o tempo, fica claro que a McLaren não tem ritmo, mesmo com os pneus macios. Legard pergunta ao vento, por 3 ou 4 vezes: “o que está acontecendo? Eles são 1s por volta mais lentos!” “Não entendo por que ele não para. Hamilton tem muitos problemas de degradação”, vê Gené. “Parece que o pneu abriu o bico”, simplifica Galvão. Só na volta 26, Brundle admite a derrota. “Acho que o Webber efetivamente já passou. As McLaren estão muito lentas.”

E agora, McLaren?

Uma corrida à parte

Tranquilos na frente, Alonso e Vettel travavam uma batalha de nervos, com direito até a blefes no rádio. Perguntado por Legard se estávamos assistindo a uma virada da Ferrari no campeonato, já que o próprio Vettel havia advertido antes da corrida que as ruas de Cingapura mostrariam a verdade da performance dos carros – em oposição a Spa e Monza – Brundle definiu. “Não é a Ferrari que está na frente, é Alonso.” Para o inglês, o asturiano “já havia mostrado nos treinos livres que era muito consistente com o tanque cheio. Se tem alguém que sabe administrar uma situação com essa, é ele.” Não foi o que Reginaldo viu. “Alonso está sendo mais consistente agora do que em todo o final de semana.”

Na La Sexta, a tensão era grande, mesmo que Gené garantisse que a previsão da Ferrari era de que uma distância de mais de 1,5s era segura, mesmo com Vettel parando uma volta antes ou depois – e Alonso tinha 3s. “Os engenheiros acreditam que essa é a última prova em que a Red Bull não é dominante. Por isso, precisamos de muitos pontos. Nas outras, a luta será dura, mas esperamos que eles estejam um pouco à frente”, revela o comentarista.

Com Brundle estranhamente atrapalhado nos comentários – ele que sempre acerta na mosca! – coube ao espanhol apontar o momento decisivo para os líderes: a parada de Hamilton. “É o desempenho dele que vai determinar se é a hora de ir para os boxes.” E era. Vettel e Alonso aproveitam a oportunidade. Na Globo, não entendem. “Jogaram tudo no lixo”, diz Burti, que algumas voltas depois se redime e segue o pensamento de Gené. “Achei que o Vettel permaneceria na pista umas 2 ou 3 voltas, mas parece que eles ficaram com medo de perder rendimento com os pneus usados”, Brundle raciocina.

O Safety Car, logo após as paradas, dá uma chance de ouro para Hamilton, que já perdia 5s para Webber. Ninguém pode dizer que o inglês não tentou. “Tem crianças que não aprendem nunca”, o torcedor-comentarista espanhol Jacobo Vega se precipita. “Ele forçou para cima do Webber assim como fez com o Massa. O que ele espera?” Galvão (torcedor-narrador?) vai na mesma toada. Os demais pegam mais leve. “Ele não teve culpa. É acidente de corrida. Ele fez a curva como se Webber não estivesse ali. Se desse mais espaço, teria passado, porque já estava à frente”, avalia Gené. “Lewis sabia que Mark não ia vender barato. Mas não quero criticar esses caras, porque eles vão para cima e é isso que queremos. Quando não funciona, temos que descontar”, opina Brundle. Ninguém vê motivos para penalização. “Não queremos ganhar campeonatos assim, mesmo que Fernando e Vettel tenham sofrido punições estranhas este ano”, diz Lobato.

Faltou espaço. Faltou sorte. E Hamilton sobrou, mas não está morto

A fila que Kubica fez após trocar os pneus animou as últimas voltas. “Ele já entrou no nível de Hamilton, Button, Vettel e companhia. Só precisa de um carro”, diz Brundle. “Ferrari?”, pergunta Legard. “Só se Massa decidir que não aguenta andar atrás de Alonso.”

Depois de criticar o “estilo Hamilton de ser” e aprovar a agressividade do polonês, Galvão, Reginaldo e Burti entram numa conversa sobre como os pilotos têm que ser famintos ao ultrapassar. Burti cita Senna e Mansell e é cortado por Galvão, que quer colocar os pingos nos is, como sempre. “O mais esfomeado da história era Senna. A fome do Mansell não cabia no prato.” E o Lewis? Tem que fazer dieta?

Enquanto isso, os espanhóis sofriam. E como. Temiam que Vettel se afobasse. “Mark, não estou gostando nada disso”, Lobato se desespera. “Ele é igual ao Hamilton, não pensa muito adiante da corrida em que está”, Gene diz a última coisa que o narrador queria ouvir. “Que demorada esta corrida! Que suplício!”

Vettel espera por um erro que não vem, assim como na Hungria

Em nenhum momento a transmissão da Globo citou a importância dos retardatários, que poderiam decidir a briga entre os líderes. Inclusive, quando um dos ponteiros fazia uma volta ruim, ou era pela supremacia a Red Bull, ou por algum erro de Vettel. Aliás, numa briga de dois desafetos do narrador brasileiro, pior para o alemão. Alonso passou, em questão de 2 corridas, de diabo a Prost (será que para o Galvão tem diferença?), e de Prost a piloto excepcional. “Ele sempre tem um coelho na cartola. Mostrou por que foi bi em cima do Schumacher”, exagera Galvão (já que só o título de 2006 foi em cima de Schumi), que não esquece de alfinetar. “Vence a 4ª no ano, mas seriam 3, não fosse a Alemanha”…

Alonso também não é dos mais queridos entre os ingleses devido a seus problemas na McLaren e sua postura arredia com a imprensa do país. E também ganha elogios um pouco tortos de Brundle. “Ele não é a pessoa mais fácil de se gostar, mas é muito fácil de admirar. Ele não cometeu nenhum erro, não havia nada que Vettel pudesse fazer”.

Pediam pelo rádio para Alonso usar tudo do carro para permanecer à frente. Não havia nada mais que a equipe pudesse fazer

Mesmo nas últimas duas voltas, quando o espanhol quase parou no último setor ao passar pela bandeira amarela provocada pelo fogo de Kovalainen – “sai logo daí que isso vai virar um churrasco tremendo!”, berrava Lobato – Brundle o via “no controle”. Os espanhóis recomendavam uma visitia ao médico para as últimas etapas. “Eu tinha achado a vitória de Monza sofrida”, suspira Gené. Mas o “suplício” havia terminado. “Hat trick com Vettel sempre atrás, sempre tentando o induzir ao erro, mas sem conseguir. Duas horas de tortura. Que grande corrida, Magic. Só 5 pilotos ganharam mais provas que Fernando Alonso.” Há um sentimento de história sendo feita na La Sexta. Afinal, o GP de Cingapura se tornou o mais assistido na Espanha em todos os tempos. A audiência acumulada bateu os 10.343.000 – isso, num país de pouco mais de 40 milhões de habitantes. No momento da chegada, 6.866.000 espanhóis, ou 47,2 de share, estavam ligados na emissora para este ‘thriller’.

Além de reconhecer que o bicampeão chegou de vez, todos destacam a sorte e o lucro que Webber levou num final de semana em que tinha tudo para perder pontos valiosos. “Numa batida de suspensão traseira com dianteira, geralmente é a dianteira que cede. Lewis teve azar”, recapitula Brundle. Um azar que pode lhe custar o título. Ou não, diria Cléber Machado. “Com 5 pilotos muito próximos e 4 corridas para terminar. O que esperar? Nesta temporada, não dá para adivinhar, tem que continuar assistindo”, define Legard com perfeição. E que venha Suzuka.

17 comentários sobre “Cingapura por ingleses e espanhóis: erros de cálculo e uma dose de tortura

  1. olha, excelente post! imagino o trabalhão que deve dar para fazer isso. acho que foi o melhor texto sobre F1 nesta temporada que eu li.

    ah, e esse vídeo é muito legal. corrida noturna tem um charme mesmo. mas ela podia ser um pouco mais curta. no final, até eu estava cansado, imagina os pilotos.

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  2. Obrigado pelos comentários. Dá um trabalhão mesmo, mas acho que vale a pena.
    O Alonso disse que em todos os briefings dos pilotos eles pedem pra essa corrida ser igual Mônaco, de 250km. Realmente é muito longa. Imagine o Hamilton, que estava sem água!

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  3. Ju, chorei de rir com os seus comentários. Adoro esse post das transmissões. No GP de Cingapura não consegui nenhum link para acompanhar a La Sexta e, por isso, fui de Globo mesmo. “Prost Alonso” atormentou Galvão e cia a corrida inteira. Torceram contra até o último minuto. O Lobato as vezes é difícil de tolerar. Mas, pelo conjunto ainda acho a transmissão espanhola muito superior. A da BBC é show. Gosto muito.

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    1. Também colocaria nesta ordem. Tirando o Lobato e o Jacobo Vega, a transmissão espanhola é ótima. Agora, no Brasil, a gente precisa tirar, mexer, aumentar muita coisa pra chegar lá…
      A BBC tem um narrador fraquinho, esse Legard. Se deixassem o Brundle falando seria ótimo. Há a chance de substituir o áudio pelo da radio 5, que tb transmite e tem o Anthony Davidson comentando, que é ótimo.
      Um dia eu mudo pra lá… hehe

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  4. E eu “berrando” aqui em casa: “O SC não ajudou o MASSA”. Do outro lado, o Galvão, com suas pérolas: “Bom para o Felipe!” (?!?!?)

    hahaha… É dose, viu!
    E é mais hilário ainda, que ele se vangloria, conversando com o R. Leme: “Tenho tantos anos de F1!”

    O R. Leme está ficando “gagá” perto do Galvão, que dó. O outro que começou é o L. Burti, aff! Ninguém merece.
    Já me cansei de ver eles se desculparem por errarem as “predestinações”, como fez o Burti, no último GP.

    Gostei de você ter postado as frases épicas do Galvão e companhia, achava que era somente eu que via isso. 🙂

    Nossa, e como o KUBICA precisa de um carro. Um piloto do nível dele, não merece estar acelerando uma Renault.
    (Claro, com todo o respeito à equipe que consagrou Fernando ALONSO (ou “Dick”, para alguns) na F1.

    Olha, admiro muito o HAMILTON, mas assim não dá, em duas curvas, dois abandonos. Tem que ser agressivo, mas com uma certa cautela.
    (Estou dando uma de Galvão agora?! Hehe)

    E o BI do ALONSO em cima do SCHUMI, haha…

    Parabéns pelo texto. É extenso, mas não cansativo. Gostoso de ler.

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    1. Não adianta ter 300 anos de F1 se você passar a transmissão inteira julgando os outros – e não deixando seus companheiros de trabalho sequer se expressar! Basicamente, é o que eu acho do Galvão “soberba” Bueno.
      A comparação para os outros é para mostrar que há como ser melhor. E como!
      Sim, o Kubica precisa de um carro. E me diga, quem não está fazendo um trabalho à altura com o carro que tem?
      Na hora fiquei com muita raiva do Hamilton, mas depois vi que foi falta de sorte. Além disso, concordo com o Brundle quando ele diz que não podemos ficar julgando os caras quando eles fazem o que queremos que façam: arriscam.

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  5. E olha só…

    Carolina… faster F1…

    As mulheres no mundo da F1.

    Só conheço as duas. Juro! É difícil encontrar mulheres com bom gosto para esporte.
    (Ah, sim, tirando a Mariana Becker. “Galvão?!”

    Att.

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  6. Bom, o HAMILTON disse que não viu o WEBBER…
    Tudo bem, se ele está dizendo… Mas eu não concordo com a “desculpa”.

    Como você disse, é maravilhoso ver um piloto arriscando… Concordo plenamente, corrida de trem na F1 é revoltante.

    Só que eu vejo o seguinte:
    Um ALONSO agressivo, mas inteligente na pista.
    Um HAMILTON agressivo, mas meio tonto na pista.

    Quando vejo o ALONSO querendo ultrapassagem, já penso, vai conseguir.
    Quando vejo o HAMILTON querendo ultrapassagem, já penso, vai bater.

    Att.

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  7. As ultrapassagens do Alonso dão errado também. Em Silverstone, errou umas 2 ou 3 vezes. A diferença é que ele raramente bate.
    O Hamilton tem um estilo Senna de passar: ele enfia o carro e deixa para o rival decidir se eles batem ou não.

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  8. Desculpe, mas eu não consigo comparar os erros do Alonso, com os erros infantis do Hamilton e Vettel. Não vejo por onde.

    Para mim, o espanhol é muito mais piloto. Erra BEM menos.

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      1. Não estou comparando, só falando que errar não é só com Hamilton e Vettel. Talvez os dois errem mais quando mais se espera deles, enquanto o Alonso erra justamente quando ninguém acredita nele – e, quando o faz, parece menos “ridículo”, para usar um termo que ele gosta (rsrs). Com o espanhol, são coisas que “acontecem”, com os outros dois, são coisas que não deveriam acontecer. Riscos necessários x desnecessários.

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