Como lidar com o piloto “preferido”?

Uma equipe dá preferência por diversos motivos. Na Red Bull, por exemplo, a imagem jovial de Vettel combina mais com o padrão da marca que o sisudo Webber. Na McLaren, dar a possibilidade do piloto que teve a carreira inteira moldada pela equipe ganhar é uma baita auto-promoção. E, acima de qualquer interesse, se um piloto tiver melhor rendimento, automaticamente se torna a aposta.

É até inevitável que uma empresa que gasta centenas de milhões de dólares mova suas peças para garantir seus objetivos. Mas e o piloto que “sobra”? Como reagir? Será possível vencer num ambiente inóspito?

Essa é uma questão que sempre deu o que falar na F1. Houve segundos pilotos declarados e eventuais. Nos últimos anos, não faltaram exemplos. Exemplos de quem soube – ou não – lidar com isso.

 

Eles não ligam pra gente: 3 pilotos, 3 reações

 

Alonso na McLaren: Chutando o balde

Após o GP de Mônaco de 2007, a imprensa inglesa espalhou o rumor – provalvemente vindo da própria McLaren – de que Hamilton estaria com o equivalente a 6 voltas a mais de combustível que Alonso, mas o time não haveria permitido que a vantagem se concretizasse em ultrapassagem, chamando-o antes para a parada para mantê-lo atrás do espanhol. Começou uma batalha interna mal gerenciada por Ron Dennis e externa, na mídia, que culminou com a até hoje mal explicada confusão do treino do GP da Hungria.

Hamilton teria discutido com Dennis e desrespeitado o combinado de deixar o companheiro passar no Q3 e permitir que ele tentasse a pole com uma volta a menos de combustível (na época, classificava-se com a gasolina com que se largaria). Como represália, Alonso teria segurado-o para que o inglês não tivesse tempo de fazer sua volta rápida. O espanhol nega, disse que apenas respeitou a contagem de tempo de seu engenheiro e, sentindo-se acuado dentro do time, chantageou o patrão, afirmando que tinha provas que incriminavam a McLaren no caso de espionagem. Em outras palavras, chutou o balde.

Nem precisa falar que sua situação ficou insustentável. Alonso já não podia contar com o apoio da equipe e ainda tinha que lidar com o ódio da imprensa inglesa – que dura até hoje. Sua postura arredia e agressiva minou suas possibilidades de título. Ambos os pilotos saíram perdendo e a McLaren levou uma multa de R$ 100 milhões pela espionagem, o que muito provavelmente não teria acontecido caso o asturiano tivesse mantido a boca fechada.

Webber na Red Bull: Bate e corre

Apesar de Christian Horner insistentemente garantir que não há interferência da equipe na luta entre Vettel e Webber, o australiano disse ao final da prova do Japão que não pressionou o companheiro “porque sabe quais são as regras”. Essa é sua tática. Ao mesmo tempo que deixa clara a preferência pelo alemão, responde na pista e faz questão de puxar o moral de seu lado da garagem para que trabalhem para ele.

Quando sente que as coisas estão saindo do controle (o exemplo mais claro foi o GP da Inglaterra, quando viu a equipe retirar a asa dianteira nova de seu carro para substituir a de seu companheiro, quebrada), coloca pressão. O “nada mal para um 2º piloto” já se tornou um dos melhores momentos do ano.

Tem funcionado, mas Webber tem a seu lado dois fatores importantes: dá conta do recado na pista e tem o apoio da mídia britânica.

Button na McLaren: O bom moço

Só Button achou que era uma boa ideia entrar no feudo de Hamilton na McLaren. Contrariando as previsões, não está levando o banho anunciado: os 11 x 5 na classificação são apenas 3 pontos na tabela. E, politicamente dentro da equipe, adotou um tom agregador que vai lhe garantir um carro vencedor pelo menos por mais 2 temporadas, algo raro na carreira.

Seu momento é semelhante ao de Webber: depois de perder seus melhores anos em carros de meio de pelotão, finalmente está no lugar certo, na hora certa, e fará de tudo para não desperdiçar a chance. Button pode ser ainda menos agressivo que o australiano, pois já conquistou um campeonato. O que vier é lucro.

No entanto, os torcedores ingleses – que em sua maioria apoia Button – estão com a pulga atrás da orelha principalmente depois das 2 últimas provas. Acham que Jenson deixou Lewis passar em Cingapura e que a McLaren o colocou de pneus duros só para que o companheiro, que largara em 8º, terminasse à frente no Japão. De uma maneira mais lenta e menos traumática que em 2007, temem que tudo se caminhe para seu devido lugar em Woking.

Massa na Ferrari: Terreno perdido

Já dá para dizer que Massa subestimou o fator Alonso e superestimou seu prestígio dentro da Ferrari. Adotou o discurso de “quem vai ter que se adaptar é ele” e levou um duro golpe já na 1ª volta do 1º GP. O espaço que deu ao companheiro para que o ultrapassasse no Bahrein nunca seria retribuído ou recuperado. (Mal) acostumado com o jeitão distante de Kimi, teve que encarar o osso mais duro de roer da F1: um piloto que quer tudo para si, que cobra muito a equipe, que foi muito motivado para a Ferrari e, pior, que correspondia na pista. E Felipe, complicando-se com os pneus, foi perdendo o brilho.

Já na Austrália Alonso pressionava para que a equipe ordenasse a troca de posições. Como isso não aconteceu, resolveu ele mesmo tomar a iniciativa, num ippon na entrada dos boxes da China. O GP da Alemanha foi apenas consequência.

A atitude do brasileiro frente a uma situação que talvez não esperava – pelo menos tão cedo – acabou por prejudicá-lo ainda mais. Deixar clara a situação ao praticamente parar o carro para o companheiro passar expôs a equipe e certamente não foi uma manobra popular em Maranello. O discurso de “deixo de correr quando for 2º piloto” não convenceu e o fez perder credibilidade, também, em casa.

O problema de Masssa é que a melhor resposta a dar é na pista, e, visivelmente abalado, ele não tem conseguido – ou, suspeitam alguns, tem feito corpo mole, o que não seria nada inteligente, a não ser que queira perder o emprego. Acaba sem direito de cobrar, como faz Webber, e parece não conseguir manter as aparências como Button. Mas, para o ano que vem, não terá escolha. Ou anda, ou aceita, ou sai da Ferrari.

12 comentários sobre “Como lidar com o piloto “preferido”?

  1. Ju, ótima análise! Não tenho nada a acrescentar. Há tempos não leio um texto tão bom sobre essa temática.

    Também creio que Button irá levar numa boa esta parceria com Hamilton (por ter uma personalidade e maneira de agir totalmente diferentes de Alonso). Jenson irá aproveitar muito bem suas chances com um carro competitivo e você chamou a atenção para um ponto crucial: Hamilton é mais agressivo e se classifica melhor, mas na tabela são só três pontos de diferença… E creio que se Vettel estivesse na frente do campeonato e não Webber a proteção ao número 1 da equipe seria muito mais escancarada. Sorte do Aussie que está a frente. E para o Massa é isso mesmo: ou anda, ou aceita ou sai porque Alonso não é um ator do tipo que divide o papel principal com alguém.

    Beijos.

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  2. Concordo com a Carolina. Ótima análise! Eu sou mais Vettel e Alonso, mas entre Hamilton e Button… não gostaria de estar no lugar de Martin Whitmarsh e cia pra decidir.

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  3. No caso do Button que é um “nice guy” é que ele tem um ótimo estrategista. Se der condição chuvosa em qualquer pista ele passa a ser candidato a vencedor.

    A sorte do Aussie é que o staff da Red Bull é muito incompetente.

    E por último, Massa é caso perdido.

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  4. Aquele episódio da “asa” foi muito ridículo… Mas isso é bom, mostra que nem sempre o preferido anda na frente, o negócio é pilotar e parar com desculpas. (Tem gente que bota a culpa até em “Banco Santander”)

    Segundo Jenson Button, ele será agressivo nessa reta final, mas sinceramente, não acredito em tal agressividade, é tipo… “Jenson x Agressivo = Água x Óleo”

    Felipe Massa…
    Eis um assunto que me deixa bastante irritado.
    É somente eu que percebo que em 2007 e 2010, ele perdeu para “estreantes”?!
    Pegando a diferença entre os pilotos da RBR, o Massa deveria estar a 13 pontos do Alonso, mas está a 64 (Massa vencedor GP Alemanha, Alonso em 2º). O cara não serve nem pra ajudar a equipe. Lamentável!

    Sempre fui da opinião: “O Felipe JAMAIS irá sair da Ferrari em 2011”, mas pensando bem, se ele continuar nessa de bater na 1ª volta e culpar o Rosberg; Chegar atrás dos aspirantes ao título, acabando por não ajudar o Alonso;… Sei não, hein! As coisas podem mudar.

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    1. Eu achava isso do Button até ver aquela corrida de Interlagos ano passado… ele foi sensacional!
      Acho justamente que a realidade do Webber acaba com todos os argumentos pró-Massa. Mesmo se o Alonso for o preferido por questões “extra campo” (o que eu também não acredito), não é desculpa pra não andar na frente.
      Você tá certíssimo em relação ao Felipe. Ele pegou um Villeneuve decadente, um Schumacher decadente e um Raikkonen decadente. Acho que 2008 foi o pior ano do Hamilton em termos de pilotagem e ele, com um carro melhor por grande parte do campeonato, conseguiu perder. E não digam que foi culpa da Ferrari. Austrália, Malásia, Inglaterra e Japão não teve nada a ver com o carro.

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      1. Aliás, foi você o Rafael que escreveu um comentário sobre o Massa no site do James Allen? Se não foi, dê uma olhada, acho que vai concordar. Eu não mudaria uma palavra sequer!

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  5. É, mas temos que levar em conta que ele já era campeão, ou seja, não se importava em perder pontos… Hoje, cada ponto vale uma mina de ouro, e talvez isso seja um fator negativo para o Button.

    E até que enfim! Até que enfim alguém viu o que foi o campeonato de 2008.
    Sempre usam o GP de Cingapura (2008) como motivo do Massa não ter sido campeão. Não conseguem perceber que o campeonato não é feito de uma única corrida.

    É esse?! >>> /2010/10/why-would-massa-help-alonso/

    Não fui eu.

    Tirando aquele “RafaelMassete”, também concordo.
    Ele (October 20th, 2010 @ 3:24 pm) é dos meus. Gosto de ver comentários desse tipo, assim percebo cada vez mais que não sou um “chato perseguidor” do Felipe Massa… “Chato”, talvez, mas não “perseguidor”, apenas um realista.

    Só quero ver a desculpa de 2011. A do pneu não irá mais valer, hein!

    TESTE: (Será que deu certo agora?!)

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    1. Precisamos trazer esse outro Rafael pra cá também… rsrs

      Não é questão de perseguição. Por que tiveram que procurar, por 2 vezes, um líder para a equipe quando o Schumacher e o Raikkonen saíram? Ele não é bom o bastante para isso, mas isso não é um crime… muitas vezes, as pessoas criticam nosso narrador oficial, mas repetem tudo o que ele diz…

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