Algumas palavras sobre duas fotos

Esqueça a comparação inócua de talento. Senna, Prost, Mansell e Piquet eram os melhores para dirigir aqueles carros, Hamilton, Alonso, Webber, Button e Vettel são os melhores para guiar esses. Lewis oscila entre dias de Senna e dias de Mansell; Fernando tem momentos de Prost e de Piquet, e por aí vai. As fotos dos concorrentes ao título de 1986 e de 2010 escondem outras verdades.

A mais marcante, para nós, é a ausência de brasileiros. E não é uma coincidência. O automobilismo tem passado, de uns 20, 15 anos para cá, por uma revolução na busca por novos talentos. Quem chega para ficar na F1 hoje, ou teve a carreira cuidadosamente planejada por uma grande montadora – Vettel e Hamilton são exemplos de sucesso – ou traz dinheiro. E essa não é a realidade dos brasileiros. Histórias como as de Button, Webber e Alonso, que chegaram sem muito apoio, pelo mérito de títulos nas categorias de base, estão no passado.

Como um piloto brasileiro, portanto, chegaria na idade certa e com a maturidade devida à F1, com chances de progredir, se não temos sequer uma base decente por aqui? Nelsinho Piquet teve essa chance, era apoiado pelo programa de desenvolvimento da Renault, assim como Di Grassi também foi, mas ninguém teve o trabalho como o de Lewis, que veio desde o kart. E é difícil esperar que isso venha de alguma empresa brasileira.

Falando em empresas, é interessante perceber como o perfil dos patrocinadores mudou. De empresas ligadas aos carros, como Mobil, Shell, hoje vemos uma profusão de companhias de telecomunicações – a Vodafone inclusive renovou com a McLaren, no que é um dos contratos mais rentáveis da F1, até 2013 – companhias aéreas, roupas e bebidas. Os bancos continuam lá, firmes e fortes…

Mas não há constraste maior que o cenário. De uma lotada e frenética Adelaide, a uma pálida e inóspita Yeongam. De um circuito de rua, para um Tilke. Mudança de foco fundamental para a sobrevivência econômica da categoria, a renovação tirou um pouco da graça da disputa. Se começarmos com a velha legenda: Senna, que odiava Prost, que odiava Mansell… paramos logo nos dois primeiros da foto. Hoje é crime marqueteiro até ter inimigos na F1.

8 comentários sobre “Algumas palavras sobre duas fotos

  1. Gostei da comparação, embora fique com a impressão que a foto de hoje não foi mais do que uma tentativa de desviar as atenções das noticias vinda da Coreia sobre as condições do circuito e das acomodações em que boa parte da imprensa se encontra…

    E outra coisa: a foto foi tirada no Estoril e não em Adelaide. De facto, há uma nessa pista australiana, mas o Senna não estava no retrato. Mas a comparação também é boa: de uma pista de rua passamos aos tilkódromos, que nos fazem lembrar os inumeros parques temáticos que existem por aí, como Abu Dhabi…

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    1. Se queriam esconder alguma coisa, não avisaram o Vettel, que reclamou disso na coletiva logo após a foto.
      Tive que confiar no google para descobrir de onde era a foto: tinha 2 anos na época! Então fica a correção. De qualquer forma, nem Estoril, nem Adelaide têm lugar nesse negócio.
      Vamos ver se essa pista compensa o fuso. No papel, sim.

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  2. Gostei mt das comparações, todas refletem a plena realidade da categoria atualmente, que está mais para uma competição financeira do que uma verdadeira disputa entre talentos. Quem me garante que um piloto que esteja em uma equipe menor não está no mesmo nível desses 5 que lutam pelo campeonato e têm os melhores carros do grid?!

    Outra coisa que gostaria de comentar é essa atual “polêmica” envolvendo a renovação de contrato de Nico Hulkenberg pela Williams. Confesso que é por Nico que torço atualmente na categoria, pois já o acompanho há alguns anos em outras categorias e sei que o menino possui talento. Porém, a Williams, que passa por uma crise financeira pelo fato de que irá perder seus principais patrocinadores, está prestes a descartar Nico para trazer um piloto pagante. Gostaria de saber a sua opinião sobre esse assunto. Sei que isso sempre existiu na categoria, mas vc não acha que as coisas estão saindo pouco fora do controle? A Williams, uma equipe tão tradicional, deve mesmo deixar de apostar em Nico (que, na minha opinião, está aprendendo rápido e têm melhorado constantemente)? Será que talento não conta mais na categoria que deveria contar com o melhor grupo de pilotos e equipes?

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    1. Concordo com sua primeira colocação. Alonso e Webber guiaram Minardi e já andaram bastante no fundo do pelotão. A diferença que vejo é que esses da foto deram conta do recado pilotando sob grande pressão – mais Hamilton e Alonso; Vettel está no meio do caminho e Button e Webber num nível um pouco abaixo. Por isso, também, não incluo o Kubica. Ainda.

      Sobre o Hulk, escrevi no post logo abaixo. É difícil a gente falar sem saber as condições do orçamento e quanto o Maldonado traria. Sabemos que só o talento não paga a conta da equipe. Mas o Nico está em franca ascensão e, logicamente, merece ficar.

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      1. Me desculpe, eu realmente só fui perceber o post depois. E concordo tbm com td o que foi dito. Sinceramente, não quero perder as minhas esperanças e, mesmo sabendo que talento não paga conta, quero acreditar que as coisas vão se acertar e que pilotos como ele terão oportunidades… Eu realmente torço por isso! Assim como torço p/ que a F1 se torne um pouco menos capitalista e volte a valorizar pistas mais tradicionais e supostamente menos rentáveis (se bem que eu duvido mt que estes GPs não venham a dar lucros…).

        Eu gostaria de tbm te parabenizar por esse blog, que conheci há pouquíssimo tempo e achei muuuito interessante e diferente, cheio de tabelas comparativas e análises bem feitas. Agradeço a você por representar tão bem as mulheres, me sinto feliz por saber que estamos SIM conquistando o nosso espaço, expondo a nossa opinião, e conquistando o nosso respeito. Como vc, sou fanática por F1 desde pequena, e já sofri muito preconceito por isso… Ver esse blog me prova que não devo desistir jamais!

        Parabéns!

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  3. É isso que o corte de custos promete fazer. Mas acho que o principal problema é a falta de testes. Assim, os pilotos podem chegar com o currículo que for – que o diga o Nico! – que são fritados logo no 1º ano.
    Muito obrigada pelo que escreveu sobre o blog. Vamos dominar tudo, você vai ver… rsrs. Volte sempre pra gente trocar ideia e, se tiver alguma coisa que você quiser ver/ler, é só falar!

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