Red Bull e o jogo de equipe politicamente correto

E eis que Max Mosley reapareceu das cinzas semana passada para questionar um possível título de Fernando Alonso por menos de 7 pontos. O advogado que se tornou o rei das decisões mais políticas que jurídicas enquanto esteve no comando da FIA não perdeu a chance de ganhar algumas manchetes.

Por que será que ele, como então presidente da FIA, nada fez quando houve claras ordens na McLaren entre Montoya e Raikkonen e hamilton e Kovalainen, na Renault entre Fisichella e Alonso e na Ferrari entre Raikkonen e Massa, além de disputas mais abaixo no pelotão? Não foi ele quem abriu o procedente que permitiu que a Scuderia escapasse de um julgamento mais duro?

Deve ser difícil gerir esportes em geral. Por um lado, eles são o entretenimento de milhões de pessoas. Por outro, são a profissão de outras tantas. E, numa 3ª via, como explicitamente no caso da Red Bull, são ferramenta de marketing.

Todos os grandes campeões brincaram com os limites do aceitável para ganhar. O grande ídolo da categoria já avisou: “Vencer é o mais importante. Todo o resto é consequência”. Em outras palavras, os fins justificam os meios para quem dedicou sua vida inteira para vencer.

Também é verdade que ninguém conquista um campeonato de F1 somente por ter o apoio da equipe ou se beneficiar de manobras questionáveis. O campeão é aquele que melhor lidou com 9 meses de disputa por desertos, tempestades tropicais, calor, corridas táticas ou confusas, pressões internas e externas. E não é um episódio isolado que vai definir isso. Que o digam os mais de 150 pontos que a Red Bull perdeu por falhas mecânicas e de seus pilotos nesta temporada.

Isso é uma regra geral, mas no caso específico de Alonso, se ele for campeão com menos de 7 pontos, há duas maneiras de se ver: ou a Ferrari acertou em apoiá-lo num momento chave, evitando que tivesse perdas desnecessárias, ou decidiu o campeonato de maneira obscura. Da mesma forma, se a diferença for maior que 7 pontos: prova da competência do asturiano ou de que todo o desgaste da Alemanha não era necessário?

Essa será – caso o espanhol ganhe o título, algo ainda difícil tendo em vista a disparidade técnica em relação à Red Bull – uma daquelas discussões intermináveis em que não haverá certo ou errado, mas visões distintas.

“Não somos como a Ferrari”

Aí aparece a Red Bull com o discurso de que atuará de acordo com o bem do esporte. Se assim fosse, seu piloto que está à frente na classificação não estaria tão infeliz com o tratamento que tem na equipe.

É dificil acreditar que este não seja mais um discurso marqueteiro, algo que comandou toda a trajetória da empresa de energéticos na F1 e fora dela. É igualmente complicado crer que não se trate de uma manobra para dar chances a Sebastian Vettel, piloto em quem a equipe colocou muito dinheiro.

A Red Bull inovou no quesito usar o esporte para vender

E, tendo isso em vista, é uma postura que vem bem a calhar para quem sempre se propagandeou como uma empresa que faz o diferente, por isso o apoio a esportes nada convencionais. Seria a prova de que eles estão na F1 para vender latinhas. Para se ter uma ideia, a Red Bull tem apenas uma fábrica, na Áustria, e praticamente um produto (existem as versões sem acúçar e a Red Bull Cola em alguns países). Não se investe em expansão de fábricas, mas sim com marketing, com que gastam 35% da receita, um número altíssimo, sendo apenas 10% desse total empregado em mídia convencional, como propagandas. Eles apostam em marketing espontâneo, ou seja, resultado dos eventos que patrocinam.

Dentro disso, a estratégia de adotar o discurso de não aceitar as ordens de equipe é inteligente e parece funcionar com quem apenas assiste as corridas aos domingos e lê um ou outro site de notícia. As pessoas geralmente dão crédito a discursos politicamente corretos e essa é a melhor maneira do ponto de vista da imagem da empresa de fazer jogo de equipe: agindo subliminarmente e jurando que não o fez. E, caso Vettel abra para Webber em Abu Dhabi, todos vão destacar a opção do piloto, um gesto de grandeza e maturidade pelo bem da equipe. Alguém aposta o contrário?

12 comentários sobre “Red Bull e o jogo de equipe politicamente correto

  1. Excelente análise Julianne, também acredito que o discurso de Mateschitz seja mais uma ação de marketing do que uma demonstração de caráter e correção.

    É obvio que Vettel deixará Weber passar se as circunstâncias exigirem.

    Gostaria que Weber fosse campeão mas acho que vai dar Alonso mesmo.

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  2. lisura esportiva para a rbr significa mark 2°, vettel 1°! em 60 anos de f1, sempre houve jogo de equipe, o resto é hipocrisia! jogo de equipe com ultrapassagem na pista, e favorecimento, como no caso da rbr, dá na mesma!!! espero que alonso seja tri! passou da hora da f1 premiar o melhor piloto, e não o melhor carro! 2009 ganhou o melhor carro, 2010 será diferente!

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    1. Também acho que não faz diferença alguma para nós, que acompanhamos o esporte de perto e vemos como funciona.
      Sobre melhor carro x piloto, amanhã farei um post sobre o assunto, sobre quem conseguiu o título de pilotos no ano em que sua equipe não venceu o mundial de construtores.

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    1. Seria a cereja no bolo de um campeonato espetacular: uma cria da própria equipe permitindo que um piloto de outro time ganhe só porque ele não tem mais condições, numa época em que até personalidade de piloto está à venda. Mas é difícil.

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  3. Se combinássemos talvez não conseguiríamos falar da mesma coisa no mesmo dia, hehe.

    Mas é por aí que penso também. Acho que evitar o jogo de equipe pode ser sim apenas uma atitude esportivamente honesta por parte da Red Bull, mas também há margem para pensar no marketing positivo que uma atitude dessas geraria.

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    1. Na verdade, não acho que eles evitam o jogo de equipe pois, para mim, trata-se de algo bem mais amplo que inverter posições na cara dura. E eles têm feito isso.
      Agora, se eu fosse chefe de equipe, agiria da mesma forma que eles. Não importa o que aconteça dentro do time; para consumo externo, juraria que estamos mudando a história da categoria.

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  4. Bom, eu acho bonito essa atitude da Red Bull, de evitar jogo de equipe. Porém, equipes tradicionais, que já existiram e ainda exitem na Fórmula 1 sabem que jogo de equipe existe desde que existem corridas no mundo. A Red Bull esta dando uma lição de vida, mas em um certo momento o jogo de equipe é valido, mas dependendo de como se fazer, por exemplo, uma troca de posições no boxes, uma ‘má largada’, por ai. Mas vamos ver, tenho quase certeza que vai acontecer algum jogo de equipe na ultima corrida, dependendo da situação que estiver acontecendo na corrida.

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  5. O título do Kimi Raikkonen não foi definido pela manobra no último GP, tampouco o GP de Cingapura foi o culpado pela “não-conquista” do Massa, mas esses fatores ajudaram.
    Acredito nisso, não define, mas ajuda.
    §
    “Não somos como a Ferrari”
    – E o Oscar vai para… RBR! Venceu no quesito cinismo. Parabéns!

    Gn’R

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  6. Li e adorei! Permitam-me reproduzir aqui: “Alonso…is…faster…than…you”.
    Melhor a Ferrari dizer ao seu piloto: “We…are…the…great…loseres”.

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