Por que 2010? As respostas dadas via rádio

Ouvir as conversas de rádio de todas as equipes é um luxo que só tivemos nas últimas 2 temporadas e em 2010 elas ajudaram como nunca a entender a dinâmica de uma corrida. Mais do que isso, descobrimos por que os times que lutavam pelo campeonato antes escondiam sua comunicação: ela traz à superfície uma verdade que o discurso cuidadosamente controlado pelo marketing tenta encobrir.

Pelo rádio, ficamos sabendo que Massa, ainda na 2ª corrida do ano, já ouvia do engenheiro que Alonso era mais rápido que ele, mas só “compreendeu” a mensagem 9 provas depois. Fomos levados a crer que, na McLaren, “economize combustível” pode significar “mantenha a posição” para um e “vá para cima” para outro. Soubemos que a diferença de performance entre companheiros pode ser fruto de um “use seu botão de ultrapassagem na reta” para um e um “abaixe a mistura do motor” para o outro, nos moldes da Red Bull.

Vimos também como alguns pilotos lideram seus times desde dentro do cockpit e como outros são pegos de surpresa. Vettel perguntou “how the fuck” Webber estava na sua frente na Hungria, enquanto Hamilton questionava “por que Vettel está tão longe?” em Abu Dhabi ou “quem decidiu essa estratégia? Era claramente errada” na Austrália. Por outro lado, ainda em Melbourne, Button avisou “estou entrando” mesmo quando a equipe lhe dizia que era muito cedo para colocar pneus slick, e Alonso decidiu sozinho arriscar uma volta lançada em Cingapura mesmo com o motor fazendo barulhos estranhos – que ele mesmo tinha notado antes da telemetria.

Mas nem tudo é tensão. Houve momentos em que o desespero se tornou até cômico para nós, do outro lado da tela. Hamilton falava no rádio quando sua roda estourou na Espanha e o que se seguiu não dá para traduzir. Na Coreia, enquanto Button reclamava que não conseguia nem ver sua própria asa dianteira, o campeão de 2008 dizia que “dá até para colocar intermediários” – para perder a posição logo na 1ª volta. Porém, nesse quesito, Alonso é o rei. Sua revolta na Inglattera, a ponto de pedir para o engenheiro não falar mais com ele ou seu berro de “não quero saber” quando o inglês se aproximava na Austrália mostram a entrega de quem se importa com a vitória acima de tudo. Isso sem contar no “isso é ridículo”, que já se tornou um clássico.

Falando em clássico, e as comemorações? A final, no choro incontido de Vettel, nos lembrou da juventude daquele que foi perfeito no momento decisivo do campeonato. A gargalhada de Alonso na Coreia deu a medida do quão improvável era o piloto da Ferrari liderar a tabela faltando 2 corridas para o final. A vingança de Webber e seu “nada mal para um 2º piloto” não serão esquecidos por um bom tempo.

O rádio acrescenta porque dá uma dimensão humana, mas também tem sua função política. Não se pode esquecer que quem controla a transmissão é a FOM, em outras palavras, Ecclestone. Já que os rádios que ouvimos não são ao vivo, fica a pergunta: quem escolhe? Com qual interesse? Será que, se não tivéssemos ouvido as conversas da Ferrari na Alemanha, a reação seria tão intensa? Como pano de fundo, a disputa por poder e dinheiro que cerca as negociações do novo Pacto da Concórdia são a prova de que, por mais que os rádios vendam transparência, sua seleção mais intriga que aclara.

E fica o sonho de termos à disposição, ao vivo, como o live timing, acesso a todas as comunicações.

15 comentários sobre “Por que 2010? As respostas dadas via rádio

  1. Eu achei que a McLaren transcreveria todas as suas conversas de rádio na sua cobertura on-line, mas muitos rádios não são colocados lá. Na verdade, bem poucos.

    Seria realmente ótimo se pudéssemos ouvir todas as conversas.
    Mas, por enquanto, o que temos já dá uma bela animada nas transmissões.

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  2. Eu lembro que quando liberaram a transmissão da tv digital(já extinta) do bernie, no GP EUA 2002, fiquei impressionado com a quantidade de informaçoes que apareceram…essa transmissão de hoje(que esta unificada desde 2004) não tem tantas informaçoes quanto aquela, por incrivel que pareça!!!!

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  3. além de guia para os pilotos, sem dúvida alguma, os rádios escondem muito mais do que é mostrado! são 60 anos de f1, e apenas 2 anos de rádios abertos! imaginemos quantos faster than you já passaram por estas pistas!!! este é o motivo pelo qual acho uma hipocrisia fora do comun, quando falam que foi a ferrari, apartir de 2002, que inventou o jogo de equipe! eu não colocaria minha mão no fogo por nenhuma equipe ou piloto em todos estes anos! não estou defendendo a ferrari, porque é óbvio que errou, mas esta história de mocinho e bandido não convence! em 1994, quando aconteceu a morte de senna, dizia-se que não tinha imagens, logo depois, apareceram imagens que terminavam poucos segundos antes da batida na tamburello, ou seja, a verdade foi omitida! áudio ou imagem, sempre foi algo sonegado na f1! me parece que esta abertura atual, possui uma função mais de entretenimento do que informação, vide a filtragem e a falta de tempo real! vemos pelas transmissões, que nem sempre a interpretação das palavras, é o habitual! há no meio do caminho muitas traduções! sem dúvida alguma, fica interessante e emocionante a corrida com o áudio aberto, como não se lembrar da vibração de senna em sua primeira vitória no brasil em 1991! (se não me engano, este áudio foi passado pela globo, por ser no brasil, e por influência de senna). a abertura dos rádios, com certeza expõe uma pequena parte das entranhas da f1, com seus jogos e interesses! o espectador mais ligado e menos pacional sabe que no caso da f1, entre uma reta, há muitas curvas! seria ideal a abertura total, Ju, mas com certeza, o segredo, motivado para não se entregar o ouro ao bandido, dificulta o processo! se mantivermos a atenção, as entrelinhas nos falarão muito!

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  4. Excelente o post, Julianne! Muito bom ter esses diálogos já organizados e pesquisados no you tube!

    E você tocou no ponto que nem todo mundo se lembra: por mais que os diálogos liberados sejam tão informativos e divertidos, a gente fica realmente imaginando o que não foi liberado, e os interesses envolvidos.

    Acho muito difícil um dia termos uma transmissão com todos os áudios de todas as equipes liberados em tempo real. Tecnologia de tv digital com múltiplos canais já temos, mas informação é uma mercadoria muito valiosa. Ninguém quer divulgar o que realmente explica o que está por trás das notícias oficiais.

    Está aí a última confusão que o Wikileaks desencadeou para nos lembrar.

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    1. Concordo inteiramente com o Pedro: informação é valiosa (até como mercadoria), é difícil não imaginar o que fica censurado a cada corrida e… o post está excelente!

      Foi só acidentalmente que descobri, semanas atrás, que essas comunicações não eram ao vivo, e isso muda muitíssimo o entendimento da informação que ouvimos na transmissão. Quem (e por que) escolhe o quê? Acho que em termos de “estratégias” há muito mais a se explorar em F1 que as já complexas relações entre pilotos, entre equipes, entre mudanças de regulamentos… Já estou esperando pelo próximo, Julianne!!

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  5. A justificativa para não abrir todos os rádios seria a de evitar palavrões, mas acho que, pensando numa transmissão tipo live timing, um aviso de que o conteúdo pode conter linguagem pesada, como alguns cds, já resolve.
    o problema, como vocês disseram, é que não querem que a gente ouça. Afinal, com o pouquinho que foi liberado, muitos já se chocaram!

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  6. amamos por instinto, gostamos pela adrenalina! f1 é um caso difícil de se explicar! apesar das intrigas e da guerra psicológica, sabemos que vários interesses correm pelo submundo da velocidade. em meio a quebra de recordes e disputas sensacionais, haverá sempre a dúvida, foi ou não foi… os rádios são uma boa sacada do tio bernie, mas sabemos por experiência que: -na “guerra” da f1, a primeira vítima é a verdade!

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  7. Se a comunicação entre pilotos e equipe fosse totalmente liberada, em tempo real, seria como jogar dominó mostrando as pedras. Não acho interessante para a competição que as equipes saibam o que as outras estão maquinando nem como está a disposição de cada piloto. E não tem como liberar para a TV sem liberar para as equipes adversárias…

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    1. Quem consegue construir um carro de F1 consegue “roubar” um sinal do rádio do vizinho, não? Eles ouvem os rádios uns dos outros, por isso as equipes usam códigos, do tipo, “use G1” ao invés de falar, por exemplo, “use a mistura 1 de combustível”

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  8. a fonte é inesgotável! há um tempo atrás, Ju, falamos sobre a capacidade de acerto! neste assunto sobre os rádios, falamos sobre o poder do pit, ok, tudo está relacionado. andei pensando sobre aquela teoria do feeling, sobre acerto, dependência,…. vê se você concorda: – como você mesma lembrou, é espantosa a adaptação dos jovens pilotos! tudo bem, o talento conta muito, pois, para chegarem até aí, tiveram que passar pela peneirada. o fato é, que a entrada cada vez mais cedo, somando-se a dependência quase que intransponível dos engenheiros, durante o início e no decorrer da carreira, não poderia influenciar negativamente na capacidade de “leitura precisa”, como assim dizer, ” o time resolve”! talvez seja esta a vantagem de pilotos mais antigos como shumacher, barrichello, alonso, webber( que teoricamente, considerado segundo na rbr, se saiu tão bem, devido ao fator quilometragem, mesmo com mais idade?). nã seria demérito, mas penso que é um ponto negativo pois, a equipe assume um papel “muito importante” que ao meu ver, deveria ser dividido com o piloto! neste caso, você não acha que estaria se criando uma safra de pilotos muito voltada para a velocidade e menos técnica? poderíamos somar a esse drama, devido a incapacidade de testes e a importância fundamental dos simuladores, visto que vale mais a informação da máquina do que do ser humano! existe as excessões, como você mesma frisou, sobre a leitura de alonso, antes mesmo da telemetria sobre o motor.

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    1. Curiosamente, estou fazendo um post sobre uma entrevista que ouvi do Pat Symonds em que ele compara os 3 melhores pilotos com quem trabalhou: Senna, Schumacher e Alonso. E ele fala justamente disso, devo postar em breve.
      Acho que os pilotos vão mudando em relação ao que lhes é pedido. Há 20 anos, ninguém falava em preparação física, por exemplo. Em cada época, é solicitado um conjunto de habilidades ao piloto, e os que se sobressaem são os que melhor respondem àquele conjunto. O feeling tem cada vez menos espaço à medida que a tecnologia aumenta, então faz sentido que os pilotos mais novos tenham esse fator menos desenvolvido. Por outro lado, têm outras qualidades mais desenvolvidas.

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