Ultrapassagens, KERS, e como foi trabalhar com Senna, Schumi e Alonso

Um dos grandes engenheiros da F1 das últimas 3 décadas, Pat Symonds esteve no podcast da revista Motorsport nessa semana e tocou em diversos pontos interessantes. De maneira inteligente, os jornalistas decidiram seguir em frente e não citar “aquele” assunto. Há muito mais para se falar com ele. Quem quiser ouvir a entrevista inteira, clique aqui.

Ultrapassagens

Symonds é um dos 3 engenheiros que fizeram parte do Overtaking Working Group (junto de Paddy Lowe, da McLaren, e Rory Byrne, então na Ferrari), que criaram o pacote de mudanças aerodinâmicas que mudaram drasticamente os carros de 2008 a 2009. A ideia era aumentar as ultrapassagens, o que não acabou acontecendo na velocidade que se imaginava. “Nossa conclusão foi de que todo apetrecho aerodinâmico vindo do corpo do carro era ruim para a ultrapassagem e todo o vindo das asas era bom.” Por isso a má vontade com o difusor duplo. “Era completamente o oposto a tudo pelo que trabalhamos. Quando você coloca água em algo, ela escorre e você diz ‘isso não é um buraco’, acho um pouco difícil de entender.”

Do fundo do baú 1: Symonds com Senna nos tempos de Toleman

Mas o engenheiro diz que não considera o nível de ultrapassagem que tivemos em 2010 ruim. “Queremos que a ultrapassagem seja valiosa. Tem que ser como um gol no futebol, não como uma cesta no basquete.”

Symonds, porém, reconhece que o trabalho do OWG foi atrapalhado pelo fato de poder mexer apenas em regras aerodinâmicas, por determinação da FIA. “É uma pena, porque, ao olhar as estatísticas entre as diferentes pistas, vimos que elas influem muito.”

O inglês é contra mudanças técnicas radicais para melhorar o número de ultrapassagens, por crer que um carro de F1 tem que ser o mais rápido e sofisticado que existe – “isso é parte do DNA do esporte” –, e defende a adoção de um teto orçamentário. “Assim, poderiam liberar mais as regras e fazer os engenheiros pensarem”.

KERS

Sobre o KERS, Symonds admitiu que era contra no início, mas que percebeu que o sistema de recuperação de energia poderia ser muito efetivo para a performance quando usado em curvas lentas e saídas de curva. “Nosso sistema atual de energia, com a combustão, é ótimo para grandes velocidades e altas revoluções, mas péssimo para as baixas, por isso usamos marchas. Com a energia cinética, é possível ter muito mais torque. Por isso, um carro híbrido será o grande passo no futuro até para os supercarros”, opina.

O ex-diretor de engenharia da Renault, no entanto, se mostra um pouco pessimista em relação à forma como o sistema voltará à F1 em 2011. “É uma pena a maneira como ele foi introduzido. Acho que se tornou um elemento neutro de performance. Já que não teremos mais o limite de peso de 2009 (em 2011, será de 640kg, contra os 605kg daquele ano), o que faz como que seja mais atraente agora, mas acho que, se permitissem um pouco mais de potência ou de energia – ele defende cerca de 100hp ao invés dos 75 usados – se tornaria algo essencial para todos os times”, opina o inglês, que acredita que os custos tenham impedido que isso acontecesse agora. “Na Renault, gastamos 7 milhões de euros só com isso no final do programa. Eles não quiseram colocar ainda mais dinheiro. Mas quando mudarmos os motores, em 2013, devem repensar isso para compensar um motor menos potente”.

Senna x Schumacher x Alonso

Do fundo do baú 2: já na Benetton, em meio a Senna e Schumacher

Symonds teve o privilégio de trabalhar com 3 dos nomes que dominaram o esporte nas últimas décadas. “É difícil compará-los porque as exigências são diferentes em cada época. Nos tempos de Senna, se quiséssemos saber qual a temperatura da água, tínhamos que perguntar ao piloto o que ele via no visor. Por isso, não dá para compará-los tecnicamente, mas é possível ver aspectos humanos em comum. A grande semelhança entre eles, e isso é fundamental para um grande piloto, é a inteligência fora do comum e uma capacidade enorme de pensar enquanto estão fazendo outra coisa (ele usa a expressão multitask) – e me lembro de Alonso, no Canadá, em 2005, fazendo a volta mais rápida da prova enquanto conversava conosco sobre a situação da corrida.”

Contudo, como pessoas, há diferenças. “Schumacher é um grande team player. Trabalha muito duro, tem uma apego incrível aos detalhes, conhecia todos na equipe, sabia sobre a vida de cada um. Senna e Alonso são pessoas extremamente focadas, muito egocêntricos e não prestam muita atenção ao todo. A diferença dos três para os outros é que eles pensam durante as corridas. E o piloto que pensa sempre será o melhor”, garante o engenheiro, que esteve na F1 por quase 30 anos, conquistando 4 títulos.

6 comentários sobre “Ultrapassagens, KERS, e como foi trabalhar com Senna, Schumi e Alonso

  1. Gostei da percepção que ele passou do Schumacher, ele é a idéia de líder moderno, inspira pelo o exemplo e pelo o respeito aos outros, isso é legal.

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    1. É a impressão que tinha: ele trabalha todos os detalhes para fazer o time trabalhar para ele. E hoje o Vettel tenta o mesmo que seu ídolo. Ele levou a relação piloto-equipe a outro nível.
      Outra ideia que fica é que ser egocêntrico é bom na F1. Fiquei pensando, se o Nelsinho tivesse só pensado nele (ou não aceitando a proposta, ou guardando isso para si o resto da vida), nada teria acontecido…

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  2. o olhar certeiro e racional de um fera! olhando mais calmamente sobre o tema ultrapassagem, vemos que o excesso, não seria tão impactante, seria banalizado! a disputa apertada, a troca de décimos, a tentativa de indução ao erro, são tão valorosos quanto o ato em si. era normal nas épocas antigas, dosar o começo, com o ápice das ultrapassagens, acontecendo no terço final das provas. e que disputas!!! ultrapassar por ultrapassar cai no comum! Ju, os detalhes, as comparações, analisando-se calmamente, são traiçoeiros! já caí nesta armadilha, mas como Pat mesmo disse, exigências diferentes! sobre o egocêntrismo, o fato de termos 200 pessoas trabalhando para um objetivo, com uma pessoa com toda essa respondabilidade nas mãos, é difícil não se achar e fazer os outros acharem isso, é normal! o mais interessante, sem dúvida, é a qualidade comum, inerente aos foras de série, acertar o futuro focado no presente.

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  3. Interessante que o Symonds falou que foi o Schumacher que foi o pioneiro de fitness, mas pelo que eu me lembro foi o Senna. Uma das fotos mais iconicas dele e ele correndo na praia com um heart monitor amarrado no peito.

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    1. Também percebi isso. Há quem considere o pioneiro o Senna, há quem considere o Schumacher. Mas eu vi um documentário do Senna fazendo barra fixa em pleno sol das 13h dizendo que treinava nesse horário e ao ar livre porque era a mesma hora da corrida.

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