Por que os pilotos não têm treinadores?

Quando pensamos que até o golfista Tiger Woods e o tenista Roger Federer, dois homens considerados os melhores na história em suas modalidades, têm treinadores, fica difícil responder a pergunta: por que pilotos acham que não precisam de ajuda?

Cada piloto tem ao seu redor diversas pessoas, mas nenhum que o diga como ou os treine para fazer seu trabalho. Eles são cercados por fisioterapeutas, fisiologistas, massagistas e empresários. Todos, de uma forma ou de outra, seus funcionários, e nenhum especialista em pilotagem em si. Algum deles se atreveria a criticar o patrão?

Geralmente vemos os fisios carregando o material dos pilotos e as pitboards. Estes são Jenson Button e Mike Collier

O ex-diretor de engenharia da Renault, Pat Symonds, abordou o tema numa recente entrevista para a revista Motorsport. “Os empresários só estão lá para carregar as malas deles e nunca os criticam, até porque estão ganhando 15% de seu salário. Eles precisam de treinadores de verdade para dizer quando estão sendo idiotas, porque todos eles são idiotas de tempos em tempos. O mais próximo que se tem disso é o engenheiro de pista.”

Não é coincidência que, vira e mexe, ouvimos alguns engenheiros de pista levando algum puxão de orelha desde o cockpit. Eles são o mais próximo que há de um treinador, e os pilotos não costumam gostar nada disso.

Por outro lado, relações como a de Felipe Massa e Rob Smedley geram desconfiança no meio. Quantas vezes já ouvimos o inglês dar dicas ao brasileiro de como contornar tal curva ou encontrar uma forma de ultrapassagem? O engenheiro ferrarista é, na prática, o treinador do piloto, mas isso é visto de uma maneira distorcida: “ele não deveria precisar que alguém de fora ensinasse como pilotar”. Como se fosse uma fraqueza.

mais próximo de um treinador que o piloto tem é seu engenheiro de pista. Vide a relação entre Rob Smedley e Felipe Massa

Mas não seria essa uma ajuda válida, como para qualquer esportista? Afinal, o engenheiro tem acesso a diversos parâmetros que o piloto desconhece. “É um esporte que tem essa imagem de ‘macho’, tem essa tradição. Mas, assim como o Michael introduziu a importância do treinamento físico, alguém um dia vai perceber que pode se beneficiar disso e todos vão se perguntar ‘por que não pensamos nisso antes?’”, acredita Symonds.

Há treinadores de pilotagem antes da F1. Pessoas como Rob Wilson ou John Stevens fazem esse trabalho em programas de desenvolvimento e até a McLaren já contou com seus serviços, entre o final dos anos 1990 e o início dos 2000. Mas por que isso não continua na F1, sendo que vemos atletas olímpicos, no pico de sua forma, ainda cercados de profissionais?

os pilotos costumam fazer anotações sobre as pistas, para melhorar seu approach, mas nada muito científico

Parte do problema seria encontrar alguém capacitado. O engenheiro, claro, é um funcionário da equipe, assim como o piloto, o que pode comprometê-lo em momentos chave. E ele, é claro, sabe da teoria, não da prática – embora muitos grandes treinadores nunca tenham sido atletas.

Uma saída poderia ser buscar ex-pilotos. Contudo, eles teriam que ser constantemente atualizados, já que os carros mudam rapidamente – que o diga Schumacher, muito embora, voltando ao exemplo de Massa, coincidentemente ou não, os melhores dias da carreira do brasileiro foram vividos com o alemão por perto, mesmo depois do heptacampeão ter pendurado o capacete.

Em um final de semana de corrida, por exemplo, se seu companheiro consegue tirar mais do carro que você nos treinos, os engenheiros lhe darão os dados e mostrarão onde está a diferença. Mas como tirá-la é um problema exclusivamente seu – e você tem tempo de pista reduzido e uma pressão enorme para resolvê-lo. Talvez por isso, pilotos precisem confiar mais em seu talento natural que os demais esportistas. Por outro lado, fica a pergunta de quão melhor eles poderiam ser caso houvesse uma ajuda externa. E quem deixar o ego de lado e apostar nisso tem tudo para mudar essa história.

12 comentários sobre “Por que os pilotos não têm treinadores?

  1. Excelente post. A diferença é que Woods e Federer usam seus técnicos apenas durante os treinos, nunca durante uma partida. Como na F1 atual não existem muitos treinos então não faria muito sentido a figura de um treinador.

    Além disso com tantos parâmetros sendo constantemente avaliados pelos engenheiros, acho que seria redundante e burocrático que certas informações fossem passadas por um técnico.

    No caso de Felipe Massa( já vi várias vezes Martin Brundle fazer comentários maldosos sobre o seu relacionamento com Smedley) sinceramente não vejo muito problema nisso.

    Já vi Alonso, durante uma corrida fazer mil perguntas para seu engenheiro e nem por isso disseram que isso era sinal de fraqueza.

    O fato é que já há pessoas demais trabalhando em volta dos pilotos e seus carros.

    O piloto pela telemetria sabe em que setor está perdendo tempo e sabe também o que precisa que fazer pra resolver isso. Um bom piloto, com boa técnica sabe quando precisa tocar no freio com um pouco mais de suavidade ou ser mais agressivo numa retomada, nenhum treinador poderá fazer isso por ele. Se ele não aprendeu nas categorias de base não é pra estar na F1.

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    1. É uma pergunta para se discutir mesmo, não tenho opinião formada. Seguindo o exemplo de Woods e Federer, até por não haver treinos, esse “treinador” durante as corridas seria até mais importante.
      Ele poderia ajudar a traduzir a telemetria em pilotagem, auxuliar o piloto, que tem milhares de compromissos e decisões a tomar durante o final de semana.
      Esses comentários maldosos a respeito do Massa só evidenciam essa tradição de machão. Qual o problema em achar que alguém de fora pode ajudar? A questão para mim é: até alguém tentar, ninguém pode simplesmente descartar a ideia.

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  2. é uma mudança de mentalidade! talvez no caso do ego, pelo fato das conversas via rádio serem abertas hoje, os pilotos ficam com o pé atrás, em relação à ajuda, mas é como aquele velho ditado: -quem está de fora enxerga melhor a situação. como as mudanças são contínuas, esta adaptação, poderia somar décimos importantes à disputa, contanto que o técnico não tagarelásse mais que o necessário! (como no caso de alonso na inglaterra, hehe!! até mesmo no caso de dennis/hamilton, em monza, dizendo: -o que você estava fazendo ali entre os caras? (ferraris) hehe!!) mas fica a dúvida, se essa função, sendo exercida por um ex piloto, não causaria choque de decisão perante o engenheiro de pista.

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  3. É difícil dizer se um treinador poderia ajudar mesmo.

    Eu penso que só piloto é quem sabe o nível de aderência da pista ou dos pneus na hora de fazer uma curva.

    Só ele, ali dentro do cockpit pode realmente dizer se dá pra ganhar mais um décimo ou não.

    Depois eu penso que quando um piloto chega na F1 ele está no auge da sua técnica.

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  4. é um tema divisor! se olharmos o argumento da Ju em relação à falta de testes, poderia ajudar, mas concordando com sua opinião também, Dé, até se chegar à f1, são tantos testes, tanta quilometragem, que mesmo o carro de f1 sendo tão superior, o piloto terá que ser acima do normal para ter chegado, portanto, pode haver um meio termo, um ajuste, ou quem sabe até um retrocesso, com a volta de alguns testes, quando em 2013, com a possível entrada de novos motores, para uma melhor adaptação de equipes e fabricantes. as pedras vão rolar!

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  5. este tema tem uma causa ainda mais profunda! em vista de algumas mudanças que “dizem” ser par cortar custos e ser ecologicamente aceitáveis, que no final das contas, inibem soluções técnicas dos engenheiros, e também jogam contra o espetáculo, pois os pilotos ficam impossibilitados de exercer sua função com maestria, pois, como progredir sem testar? temos a impossibilidade de se mexer no acerto dos carros, uma imbecilidade instituida! o teto seria importante, mas sabemos que a natureza da f1 é cara. essa limitação de motores, serve para um panorama “global”, mas a mentalidade da f1, não reflete a postura do mundo, é apenas diversão! é fato, que os avanços de engenharia, podem muito contribuir para a indústria automobilística, mas cá entre nós, qual seria a graça da f1, correndo com “motores elétricos”, sem o berro ensurdecedor? alguns discursos politicamente corretos, cheiram à propaganda de quinta categoria! em relação a ser laboratório de pesquisas ecológicas, as fábricas normais possuem know how para tanto, o que ocorre, é a falta de interesse em substituir a matriz energética ($$$$$$$$, petróleo)! poderiam manter o âmago competitivo da f1, em vista deste discurso falso, que cria falhas na disputa, como pilotos que são jogados na pista sem direito de praticar!

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  6. Nao sabia que o engenheiro do Felipe massa ficava lhe dando dicas de como fazer a curva..Isso parece ser realmente verdade. Pois o Felipe de todos esses anos de ferrari ainda nao aprendeu a ser um piloto rapido e constante, O massa me parece ter so ‘velocidade’, mas inteligencia, mentalidade, e estrategia quem tem é o espanhol Fernando Alonso que até dá ordens para os engenheiros de dentro do cookpit.. é fodaa hein… Ta me lembrando o fora de série ayrton senna, ou seja, pilotos que fazem a diferença, e alem de tudo sao lideranças e icones a serem seguidos nos seus trabalhos

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    1. Não sei, a imagem estava no site do James Allen, mas não explicava de quem era. Sei que alguns pilotos têm uma espécie de caderneta, em que anotam suas sensações sobre o circuito ano a ano.

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  7. as idéias vem e vão. andei pensando um pouco mais sobre o tema, e me parece bem real esta possibilidade, em vista do que falamos a um tempo sobre adaptação à realidade. parece que o assunto é a ponta do iceberg, pois pode suprir a falta de práticas em pista. seria uma tentativa de correção da brecha deixada pela visão torta de mosley, quando aboliu os testes. não sei se a culpa é só de Max, eclestone, de outros, ou de todos, ocorre, que a tentativa de tornar a f1 ecologicamente correta, desvirtuando sua real vocação, que é competição/inovação, gera distorções. soa artificial o projeto de atrair investidores pela propaganda verde. talvez a liberdade aos engenheiros, fosse mais salutar para novas tecnologias, do que a imposição de limites pura e simplesmente. a f1 atual, encontra-se travada pela artificialidade! acredito que a volta da disputa aberta, poderia atrair mais espectadores e patrocínio. não se pode transferir para a f1, a culpa de toda poluição do mundo, dos engarrafamentos, da falta de boa vontade dos governantes. se os chefões separarem pista e cotidiano, o esporte agradecerá. não é carta branca ao gasto desmedido, mas como sabemos que f1 é competição/entretenimento, não podemos cair no erro de colocar um rótulo verde apenas. sem conservadorismo, mas o ideal, seria a volta dos testes. p.s: – o problema não é existir tecnologia 100% limpa, pois existe! o caso, como sempre, é as montadoras u$arem! a pista não necessariamente, tem que ser campo de provas para as montadoras. quando mudarem o foco, tornando as novidades naturais à competição, o sucesso voltará!

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