As incógnitas de 2010: a hora da verdade para Massa

É inegável que Massa foi uma das grandes decepções de 2010. Em sua 5ª temporada na Ferrari, depois de mostrar uma franca evolução, especialmente em 2008 e 2009, e tendo, no mínimo, andado de igual para igual com Raikkonen, era de se esperar que desse trabalho a um Fernando Alonso que lidaria com toda a pressão do mundo para voltar a vencer depois de dois anos “na geladeira” ao mesmo tempo em que buscava conquistar o coração dos italianos o mais rápido possível, vide sua última experiência em “time grande”. Seria essa a grande chance de Massa entrar definitivamente no hall dos melhores do grid.

Entretanto, o brasileiro teria que, primeiramente, passar pela desconfiança dos que duvidavam – e ainda duvidam – de que ele voltaria a pilotar no mesmo nível depois de um acidente que quase lhe tirou a vida.

Depois, tanto ele quanto Alonso teriam que lidar com a dificuldade em aquecer os pneus, inerente ao projeto da Ferrari, que valorizou o ritmo de corrida em detrimento da classificação. De fato, foi o carro que melhor cuidou dos pneus durante as corridas, mas aos sábados, especialmente quando eram utilizados os pneus macios ao invés dos supermacios, que se aquece mais facilmente, sofriam.

Provas Pneu utilizado no Q3 Diferença Massa/Alonso Diferença p/ a pole*
Bahrein supermacio +0.366 0.141
Austrália macio -0.726 0.192
Malásia macio -0.239** 1.158
China macio -0.267 0.355
Espanha macio -0.648 0.942
Mônaco supermacio 0.457
Turquia macio +0.412 0.787
Canadá supermacio -0.253 0.330
Europa supermacio -0.052 0.488
Inglaterra macio -0.746 0.881
Alemanha supermacio -0.497 0.002
Hungria supermacio -0.344 1.214
Bélgica macio +1.127** 0.536
Itália macio -0.331 0
Cingapura supermacio 0
Japão macio -0.502 0.567
Coréia macio -0.805 0.191
Brasil supermacio -1.112 1.519
Abu Dhabi supermacio -0.410 0.398

*Em relação ao ferrarista mais bem classificado.

**Classificação em chuva.

Todas as vezes que Massa levou mais de 0.5s na classificação, calçava pneus duros, à exceção de Interlagos, ocasião em que a diferença é explicada pela baixa temperatura da pista, ainda úmida. Da mesma forma, a classificação ao cair da noite de Abu Dhabi pouco ajudou Felipe. Há duas anomalias dignas de nota aqui: os quase 0.5s da Alemanha e o bom desempenho da Turquia, numa classificação com temperatura de pista moderada, entre 30 e 40ºC.

Se tirarmos uma média, descontando os treinos sob chuva, temos uma perda de 0.329 para Massa nas classificações com pneus supermacios e de 0.451 com os macios. Claro que há outros fatores a serem observados, como temperatura de pista, tráfego, erros de pilotagem, etc. Os dados sugerem que a dificuldade de aquecer o pneu fez mais diferença para Felipe, inclusive em relação às outras equipes, mas não explica todo o abismo entre dois pilotos que deveriam ser distanciados por algo perto de 0.2s no máximo.

De pneu supermacio, no fortíssimo calor de Valência, antes do jogo de equipe da Alemanha e com um carro melhor que Alonso – que não tinha a caixa de câmbio que se adaptava ao difusor escapamento – ainda ficou atrás:

Mas é claro que o problema com o pneu é flagrante, como mostra este vídeo que já postei por aqui do GP da Alemanha, logo que Felipe calça os pneus duros.

Politicagem

E ainda tinha Alonso pela frente, que se mostrou rapidamente adaptado e determinado a demarcar terreno, algo com o que Felipe demonstrou não saber lidar. Ficou perdido entre ser um bom funcionário e endurecer o jogo, e perdeu uma briga moral difícil de recuperar dentro da equipe.

Longe do companheiro aos sábados, apático aos domingos, tem praticamente as mesmas posições de largada e chegada em média (7.8 e 7.1), enquanto o companheiro conseguiu melhores resultados (5.8 e 4.5), especialmente na fase final do campeonato.

Um dos argumentos que explica por que Massa, por exemplo, marcou 108 pontos a menos que Alonso, ou 57% do que conseguiu o companheiro, é a falta de motivação após ter sido escancarada a política da equipe logo na 11ª etapa da temporada. O GP da Alemanha também marca a melhora do rendimento do F10, algo já vinha como tendência desde Valência mas, devido a condições de corrida que puniram ambos os pilotos, o efeito só foi sentido na tabela a partir de Hockenheim.

Massa mostrou no passado que a equipe também pode confiar nele

Se compararmos os números de Massa antes e depois daquele 25 de julho, suas médias melhoraram. Contudo, as posições em classificação e em corrida de Alonso tiveram um salto muito maior. Pode-se imaginar, portanto, que Massa melhorou menos do que o equipamento permitia devido à falta de motivação. Por outro lado, os números de Alonso na 1ª metade do campeonato escondem problemas/erros que não se repetiram na 2ª: por 4 vezes nas 6 primeiras provas do ano, espanhol se viu no final do pelotão tendo que correr atrás do prejuízo, o que só aconteceu com Massa no mesmo período na Malásia e, depois, no Canadá.

Pré-Alemanha Pós-Alemanha Total
MAS ALO MAS ALO MAS ALO
Vitórias 0 2 0 3 0 5
Pódios 3 4 2 6 5 10
Poles 0 0 0 2 0 2
Diferença média na classificação 0.347 -0.347 0.253 -0.253 0.3 -0.3
Pos. média largada 7.1 5.7* 6.57* 3.75 7.8 5.8
Pos. média chegada 7.3 5.8 6.7 2.5 7.1 4.5

*Se computarmos as 24ª colocações de Alonso em Mônaco e de Massa em Cingapura, as médias sobem para 7.6 e 8.75, respectivamente.

É por essas e outras que o 2011 de Massa começa com um grande ponto de interrogação. Na visão da Ferrari, e Domenicali não cansa de repeti-la, o brasileiro foi bem em 2008 a partir do momento em que deixou de ser questionado. É de se estranhar, portanto, as declarações da cúpula italiana ao final de 2010, fazendo questão de enfatizar o descontentamento com o piloto.

A promessa de igualdade de Montezemolo lhe dá pouco tempo para reagir. “Certamente, na 2ª metade da temporada temos que estar preparados para agir de uma maneira bem aberta, mas na 1ª parte é do interesse da equipe dar a ambos os pilotos as melhores condições possíveis”. Nada diferente, portanto, do que foi feito em 2010, agora com o respaldo do regulamento.

Hoje, a imprensa espanhola cravou que Alonso faz os 2 primeiros dias de teste com o novo carro. Felipe faz o 3º – ano passado ocorreu justamente o inverso. Pode não querer dizer nada, mas este 2ª ano com o asturiano já começa, pelo menos, com um 1 x 0 a favor do espanhol, que fez a lição de casa exemplarmente para conquistar a equipe e levou a Ferrari a disputar um título que não merecia.

O fato é que, com Alonso já completamente entrosado na equipe, não há como recuperar o ambiente favorável que Massa tinha em 2008/09. Para bater o companheiro, além de se dar bem com os pneus, terá que aprender a tirar forças de um ambiente desfavorável.

19 comentários sobre “As incógnitas de 2010: a hora da verdade para Massa

  1. Sinceramente, a questão é maior que o desempenho dele em 2011. Além de ser derrotado facilmente nas pistas ano passado, Massa perdeu respaldo e pretígio com a chegada do Alonso. E a maneira como ele se comportou no episódio das ordens da equipe na Alemanha mostram que ele está longe de ser o companheiro ideal para o espanhol, se é que existe algum piloto que realmente seja um companheiro ideal para alguém de ego tão inflado e tão carente de mimos. Já podemos imaginar que, recuperando seu desempenho, Massa não aceitará ser um coajuvante subalterno e submisso na equipe.

    O que resta é fazer um excelente 2011 pensando em sua vida pós-Ferrari. Podemos imaginar que, num futuro não muito distante, vagas se abrirão em todas as equipes de ponta, à exceção da McLaren. Webber, Kubica, Schumacher; muitos entrarão na dança das cadeiras. É ali que Massa tem que mirar para ver quais as maiores esperenças de sua carreira.

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  2. Custo a crer na hipótese de Felipe ter feito “corpo mole” após o GP da Alemanha.
    Afinal, ninguém mais do que ele sairia prejudicado com tal atitude. Se o fez merece demissão.

    Por outro lado, se a sua performance foi normal e, ainda assim ele toma esse tempo todo de seu companheiro, seria justo dizer que ele não merece estar numa equipe de ponta.

    Dificuldade na adaptação aos pneus? Pode ser, Schumacher disse que teve esse mesmo problema, mas levar meio segundo é um pouco demais, não?

    Sequela pós traumática? Possível, é comum um piloto desenvolver algum tipo de trauma após um acidente grave e isso lhe custar alguns décimos. Mas muito improvável no caso de Felipe.

    O fato é que, ou Massa tem um começo de temporada arrasador ou terá um campeonato pra esquecer.

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    1. Não acredito em corpo mole, a única possibilidade seria uma falta de motivação. Com esses dados que eu coletei não dá para cravar se o desempenho dele foi o mesmo do começo do ano. Os números melhoraram, mas o carro também.
      Comparando com o Schumacher, o desempenho dele foi inferior, mas daí temos que comparar Alonso x Rosberg e ficamos na mesma.
      Por essas e outras acho que ele terá um ano muito difícil. Tenho lido o que sai na imprensa italiana e estão pegando pesado com ele (e com o Domenicali, diga-se de passagem). Ele precisa de um bom começo.

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      1. Ju, a conta bancária de Massa recebe milhões de motivações a cada mês.

        Não é possível um piloto profissional, correndo pela Ferrari dizer que está desmotivado e fazer um campeonato medíocre como fez ano passado.

        Não precisamos de muita análise técnica, em 2010 Felipe simplesmente não fez o que sabe.

        Se eu fosse chefe da equipe já teria tido um papo muito direto e franco com ele.
        Faça uma temporada decente ou o campeonato termina antes pra você.

        Kimi se tornou campeão do mundo na Ferrari, e mesmo assim foi posto na rua porque estava desmotivado.

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      2. não vi um kimi desmotivado, só um piloto com dificuldade de tirar o máximo de um carro no qual ele não se sentia confortável. Essa imagem pegou de tanto a Ferrari repetir. Será que vão fazer o mesmo com o Massa?

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  3. Julianne,

    Vejo que a Ferrari não espera mais que Massa supere Alonso, mas que o brasileiro colabore mais no campeonato de construtores. Acho impossível outro piloto ser campeão na na equipe Rossa com Fernando Alonso no time. Assim como nenhum outro piloto teve a mesma atenção com Schumacher lá.

    Par mim o recado de Alonso para o Vettel foi claro: “Não enquanto eu estiver aqui” Ou seja, Vettel na Ferrari, só depois que o Alonso sair.

    Abraço.

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    1. A Ferrari só ganhou nos últimos 30 anos agindo dessa maneira, é difícil eles mudarem essa atitude de cultuar um “reizinho”.
      Sobre Vettel, Alonso disse que não teria problemas, não foi? Achei interessante uma resposta que ele deu à imprensa espanhola sobre Hamilton. Algo como “vindo pra onde estou, tudo bem”. Ou seja, em meu território, pode vir qualquer um. Pobre Massa, que teve suas terras arrasadas.

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      1. Pois é,

        Só um louco para querer invadir o feudo do Alonso, agora. Mas, acredito que o Vettel entendeu o recado, mesmo com o espanhol soltando palavras simpáticas via imprensa!

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  4. Em 2008 pela a minha percepção o que era mais marcante em Felipe era a capacidade de fazer uma excelente classificação, lembro de Cingapura em 2008, achei aquilo fantástico, acredito que existindo a adaptação aos compostos da Pirelli e o Massa conseguindo extrair o máximo em classificação, a tendência é que ele consigua realizar uma temporada boa( aí vem a pergunta, o que seria essa boa? a) melhor que Alonso b) melhor que todo mundo c) andando próximo ao companheiro d) não tomando ordem de saia que tem alguém mais rápido que você )

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    1. Acho que esse é o ponto mais forte dele, mesmo que em 2008 fosse o Kimi que tinha problemas de aquecimento de pneus (ou passou a ter durante o ano, com a evolução do carro mais ao gosto de Felipe). Como vemos pouquíssimas ultrapassagens nas primeiras posições, se ele conseguir fazer esses pneus funcionarem já será meio caminho andado!

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  5. Fala-se muito em motivação do Massa!Mas existem “n” motivos que podem diminui-la e para mim o maior de todos é justamente o que o amigo Luis Antonio falou: Classificação!
    Para mim a maior qualidade do Massa é tirar tudo do carro na volta voadora! E quando ele se viu amargando os péssimos resultados na classificação, as coisas foram indo de mal a pior! Sabemos que os pneus foram a causa…mas dentro do contexto de um fim de semana, um piloto bom de classificação como ele, se ver em posições intermediárias e atrás de Alonso foi a gota que faltava para o desânimo!

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  6. o caso massa na ferrari, assim como barrichello, parece o “outro lado da moeda”, afinal, para nós torcedores brasileiros, acostumados com shows de piquet e senna, ver pilotos nacionais comendo poeira, gera desconforto. no caso da ferrari, equipe que sempre teve 1º e 2º muito bem delimitados em sua história, nosso sofrimento vem por sermos “os excluídos”. após shumacher, a ferrari procurava o messias, por isso isolou kimi, e trouxe alonso, cabendo a massa, somar pontos. talvez a fúria italiana, seja mais por não ter brigado pelos construtores, e aí, massa fez falta. quanto ao ego, todo vencedor da f1 moderna, quer tudo para si. basta ver a cara de hamilton (no podium, mesmo vencendo!) quando button o ultrapassou na turquia; a ira de vettel na batida com webber; shumi “paz e amor”, exigindo da mercedes, um carro a sua feição, portanto, não é novidade o egoísmo na f1. P.S: as vezes, a gente fica tão preso ao passado, que se esquece, que o presente reserva “obras de arte”: essa disputa de massa/kubica, em 2007, pode ser sitada “entre” uma das disputas mais belas e empolgantes de todos os tempos!

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  7. Não sei se foge um pouco do assunto, mas só queria entender como a Ferrari espera ter um segundo piloto que seja bom, que marque o maior número de pontos possível, mas que não incomode o primeiro, se possível ajudando-o.

    Quando um piloto sabe que é bom o bastante para brigar pelas primeiras posições da tabela, ou pelo título, é muito difícil que ele aceite sujeitar-se a ser o segundo na equipe.

    Ou a Ferrari traz um piloto um degrau abaixo do Alonso, que aceite essa posição de segundo na equipe, ou continua com o Massa ou outro piloto de ponta, mas dando igualdade de condições a ambos, mais ou menos do modo como faz a McLaren.

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  8. Julianne,

    Realmente, a performance do Felipe em 2010 foi medíocre, uma temporada para se esquecer. Creio que o fator psicológico foi o que mais pesou – ele sentiu isso na pele ao perder espaço para o Fernando. Além do mais, sabemos que inocência não existe no vocabulário da categoria, e com isso todos sabem, inclusive o próprio Felipe,o estilo de trabalho do Fernando.
    É como se transferisse essa situação vivida por Felipe para uma hipotética em uma empresa: você está há cinco anos trabalhando no mesmo departamento, sonhando com uma promoção, quando se depara com a chegada de um novato, que em oito meses, com determinação e ideias inovadoras, muda a cara não só do departamento quanto a da empresa inteira, levando-a ao aumento no faturamento e também do prestígio. E o pior, quando o fim do ano chega, esse novato consegue a tão sonhada promoção que você, durante cinco anos, não conseguiu.
    Enfim, para reverter esse quadro, Felipe precisará de uma temporada mais do que perfeita para recuperar o prestígio, para que ao final dela, uma outra equipe possa contratá-lo. Agora, se repetir o desempenho pífio de 2010, sinto muito, mas nem equipes do nível de Lotus irá se interessar por ele.
    Abs
    Juliana

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    1. Acho que vc definiu mto bem. O que me estranhou foi que todas as vezes que ele foi questionado na carreira, deu a volta por cima. Neste ano não conseguiu. Por isso 2011 se tornou tão capital.
      Estava lendo comentários num blog inglês ontem e várias pessoas citavam o GP da Malásia de Alonso como a grande performance do ano, certamente vc vai lembrar pq. Aquele GP mostra a diferença de atitude entre os companheiros da Ferrari e é isso que pega para os italianos: quando Alonso teve problemas, ele se virou e continuou sendo rápido, enquanto Massa reclamou. Ele precisa de uma atitude mais positiva – e voltar a se classificar bem ajudaria bastante também!

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