Por que as mãos são importantes para um piloto?

As informações da Renault dão conta de que Kubica tem melhorado a cada dia e já está “pronto para lutar por sua volta”. E ninguém duvida disso. Se há alguém que não viveria sem as corridas, seria ele. Todos torcemos para que seja uma questão de tempo, mas é claro que a extensão de suas lesões na mão preocupam.

Há quem diga que se pilota com a cabeça, mas é um conjunto de sensações e reações que constroem um grande piloto. As mãos têm um papel fundamental nisso tudo. Elas, juntamente do antebraço, precisam se fortes em certos momentos, delicadas em outros. Além disso, é importante ter mobilidade nos dedos, cada vez mais solicitados para trocar marchas, acionar a embreagem, o rádio, a bebida, o diferencial, o KERS, a asa traseira móvel e modificar demais configurações por meio do volante.

A força é necessária principalmente nas curvas de alta. Com o restante do corpo preso ao cockpit, não há muito espaço para usar outros músculos como uma espécie de alavanca para fazer a curva. É isso que fazemos quando manejamos um objetivo muito pesado: quem nunca se viu retorcendo-se todo/a para abrir uma compota, por exemplo? Buscamos força das costas, até contraímos o abdome inconscientemente.

Um piloto não tem espaço para fazer isso e depende exclusivamente de seu antebraço para enfrentar uma Puhon em Spa ou uma curva 8 na Turquia. Nas curvas de alta, o normal é virar o volante de uma vez e segurá-lo até o final na mesma posição, sendo as correções feitas mais no pedal – há pilotos que apoiam os cotovelos no cockpit, para ter mais força. E isso por repetidas vezes. Então é fácil entender por que força (de músculos e tendões) e resistência são essenciais.

Rodada à parte, aqui dá para ver bem como o braço tem que segurar toda a força G, que o empurra para o lado contrário da curva:

Ao passo que, em curvas de média e baixa velocidades, é a delicadeza que faz a diferença. Para isso, é importante estar com a sensibilidade em dia (e esta vem dos nervos). O volante tende a ficar mais “leve” quanto menos aderência houver na pista. Essa é a dica para, mesmo antes do carro começar a sair de frente ou de traseira, o piloto fazer a correção.

São basicamente destas valências que Kubica precisa para voltar em alto nível, uma vez que as demais lesões são apenas fraturas, relativamente mais fáceis de curar – lembrando que uma contusão na perna direita, como a dele, é bem menos prejudicial para um piloto que na esquerda, que controla o freio e precisa ter uma força explosiva muito grande.

E, é claro, recuperação é sempre muito individual. Quem é mais forte mentalmente tende a se sobressair. Há alguns meses aqui no Faster, publiquei num post sobre a importância do treinamento mental para os pilotos algumas declarações de seu médico, Ricardo Ceccarelli, que inclusive estava na cirurgia do polonês. O profissional comentava sobre o fato de Kubica, acertar as 100 tentativas em 1min num exercício em que aparece uma palavra colorida e você tem que checar se palavra e cor coincidem – para piorar, os botões de “verdadeiro” e “falso” trocam de lugar. O polonês é capaz de acertar 300 sem errar uma sequer, é o recordista da Formula Medicine, empresa especializada em treinamento de pilotos, que presta serviço, inclusive, vários dos que estão no atual grid da F1. “Isso indica não apenas uma imensa concentração, como também um cérebro muito veloz para processar informação. É possível treinar o piloto, por meio de exercícios como esses, a usar menos energia para ter essa mesma velocidade de raciocínio, por meio da repetição.” Definitivamente, não estamos falando de qualquer um.

18 comentários sobre “Por que as mãos são importantes para um piloto?

  1. Cara Julianne,

    Quem vê sua descrição sobre a biodinâmica dos movimentos do piloto no carro pensa que você já esteve no cockpit.
    Sim, isso é um elogio. 🙂

    Abs,
    Sérgio.

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  2. Pois é, longe de mim ser pessimista quanto à recuperação de Kubica, espero sinceramente que ele volte a pilotar.

    Pilotos não são seres humanos normais.

    Essa turma é treinada desde moleques pra ter uma atitude absolutamente positiva, são competitivos por natureza, além de ter ao seu dispor toda tecnologia possível pra corrigir ou sanar qualquer limitação.

    Quando Weber teve o acidente de bicicleta Martin Brundle fez uma matéria sobre o seu processo de recuperação e até câmara frigorífica o cara usou!

    Mas na F1 de hoje é preciso estar no auge da capacidade física e mental.

    Lauda voltou a correr depois de ser queimado vivo e ainda foi campeão. Mas a F1 naquela época era bem diferente, além do mais não sofreu fraturas ou trauma parecido.
    Seu maior limite era mental, precisou domar seu medo pra correr em alto nível novamente.

    Kubica tem um longo e doloroso caminho pela frente. Se voltar a disputar um GP novamente será um feito sobre humano.

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  3. Não me lembro do autor e nem da época, acredito que seja de Fangio ou Peterson,é o seguinte: ” Não me preocupo com o volante, afinal tenho o carro nos pés.” (algo mais ou menos assim) Podemos ver o quanto a f1 mudou nesses 60 anos, e quantas habilidades foram somadas ao repertório desses caras. Épocas diferentes, exigências diferentes.

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    1. Certamente os pés continuam tendo importância, mas as mãos também têm um trabalhão! Por outro lado, a coragem que eles tinham no passado ficou num segundo plano. Realmente são exigências diferentes.

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  4. Wagner, se estiver enganado a frase é do Peterson, e ele se referia a pilotar na chuva.

    E Julianne, logo que fiquei sabendo do acidente do Kubica lembrei do seu post e da incrível capacidade mental do polonês, sabendo disso acredito muito que o mesmo irá voltar em mais alto nível, e que sua condução não irá mudar.

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  5. Olá Julianne, como vai? Eu sou o Felipe Motta. Você me podia passar um email (acho que você tem o acesso do que deixei no cadastro)? Gostaria de fazer uma reportagem e preciso de sua ajuda.

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  6. O que eu não entendo é os pilotos de F1 há anos lutarem por melhores condições de segurança nos autódromos, criarem um associação pra cuidar especificamente desses interesses e, ao mesmo tempo, esses mesmos pilotos toparem participar de provas de rali ou qualquer outra categoria, geralmente com um nível de segurança infinitamente inferior.
    É um contra senso ou eu estou falando besteira?

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    1. Há pilotos e pilotos, não é? O Kubica é daqueles que, quando chega num Montreal, Spa, é o primeiro a falar que gosta da proximidade dos muros e da adrenalina de não poder errar – chega nesses lugares e anda muito. Essa sensação de lidar com o perigo parece ser fundamental para alguns.

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      1. É Jú, mas ele chega em Spa ou Montreal sabendo que lá existe todo um aparato de segurança, equipes treinadas, médicos, paramédicos, ambulâncias, helicóptero hospital…enfim, tudo pro caso de um acidente grave ocorrer.

        Passar um fim de semana arrastando-se pelos muros de Spa é muito mais seguro do que na prova na qual ele se acidentou.

        Tudo bem que pilotos são pessoas viciadas em adrenalina mas arriscar a vida num rali de meia tigela é muita inconsequencia.

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      2. Me referi mais ao fato de que os erros custam mais caro em Montreal que em Abu Dhabi, não necessariamente ao risco de uma lesão. Parece ser isso que motiva caras como ele. Quanto mais caro custar o erro (e aí no rali o perigo é infinitamente maior), mais valoroso é o acerto. Concordo com vc que não faz sentido arriscar a vida numa prova dessas, mas isso funciona para mim, para você. A cabeça deles funciona de outra forma, é muita auto-confiança.
        O interessante é que ele “culpou” a falta de testes pela decisão de fazer cada vez mais ralis. Estou escrevendo sobre isso.

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  7. A imagem é terrível, impressionante.
    Poderia ter arrancado a cabeça dele, poderia ter cortado ele ao meio.
    O Kubica teve muita, mas muita sorte. Saiu barato.

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  8. Nada acontece por acaso! Quem sabe depois do ocorrido, o pessoal da FIA, resolva reforçar o cockpit do rally, como dos f1? É estarrecedor! Só consigo pensar em uma coisa: – Ainda dizem que milagres não acontecem!

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