Enzo Ferrari fez do pós-guerra uma oportunidade

Qualquer um que já tenha assistido a uma corrida de F1 percebeu que a Ferrari não é uma equipe como as outras. Não é por acaso. Ao contrário das grandes montadoras ou dos independentes, a Scuderia é uma equipe de corridas que se tornou fabricante de carros. Apesar de ser um gigante, são as corridas que estão em seu DNA. Continuando a parceria com o Café com F1, que já mostrou as trajetórias de Bernie Ecclestone, Ron Dennis, Frank Williams e Colin Chapman, além das histórias dos 30 anos do 1º título de Nelson Piquet na F1 (dá para acessar tudo isso aqui), o nome da semana é Enzo Ferrari.

E pensar que toda essa história começou mais por força das circunstâncias que por qualquer outro motivo. Enzo Ferrari nasceu em 1898, em Modena, no coração da Itália. Viu o pai e o irmão morrerem em decorrência de uma epidemia de gripe e os negócios familiares ruírem durante a 1º Guerra Mundial. Após ele mesmo ter contraído a doença e ficado com a saúde bastante debilitada, foi dispensado do exército italiano, o qual chegou a servir.

Tendo que começar do zero, decidiu apostar no sonho de infância de ser piloto de corridas. Seu pai, Alfredo, levou-o à primeira corrida quando o menino ainda tinha 10 anos, e ensinou a paixão pelo automobilismo. Sem formação, Enzo tentou uma vaga na Fiat, mas não foi aceito. Foi trabalhar, então, na CMN, uma pequena montadora italiana, em que tinha a possibilidade de testar carros e participar de corridas.

Correndo contra Tazio Nuvolari com sua Alfa Romeo

Por intermédio de um amigo, conseguiu ir para a Alfa Romeo, em 1920. Corajoso e arrojado, seguiu competindo e teve alguns bons resultados, culminando com a vitória na Coppa Acerbo, em 1924. O sucesso fez com que Ferrari se tornasse o piloto principal da fábrica. Com o novo título, poderia ter largado no já prestigioso GP da França, mas aparentemente uma crise de confiança fez com que o italiano desistisse daquela que seria sua maior corrida até então – ao invés de correr com carros de segunda mão em eventos locais, agora eram os últimos modelos da Alfa que estavam sob seu comando. Enzo ainda disputou algumas provas, tendo até sucesso, mas o acontecido serviu para mostrar que pilotar não era com ele.

Nessa época, Ferrari já era dono de uma revendedora da Alfa em Modena. Fundou sua própria companhia em 1929, a Scuderia Ferrari. Como a Alfa parou de disputar corridas na época, a função da Ferrari era prover suporte mecânico e outros serviços para que os abonados clientes da marca pudessem alinhar seus carros no grid. Em troca, Enzo trazia conhecimento técnico para sua empresa, acordo similar ao que firmou com Bosch, Pirelli e Shell.

Com as parcerias, conseguiu atrair dois grandes pilotos italianos da época, Giuseppe Campari e Tazio Nuvolari, quem Enzo considerava o melhor de todos os tempos. É claro que, com 50 pilotos – Enzo mesmo correu até 1932, até que seu primeiro filho, Dino, nasceu –, a Scuderia Ferrari colecionou títulos logo em seu primeiro ano. Nenhum deles era assalariado, apenas recebia parte da premiação pelas vitórias.

O nascimento do filho Dino fez Enzo parar de vez com a carreira de piloto

Um desses pilotos era Rene Dreyfus. Recém-chegado da Bugatti, o francês teve uma primeira impressão bastante distinta da imagem que a Scuderia tenta vender hoje. “Com Ferrari, aprendi o negócio da corrida, porque sem dúvida ele era um homem de negócios. Enzo era amigável e agradável, mas não muito afetivo. Não era como pertencer a uma família, a exemplo do que acontecia com os irmãos Maseratti, nem dava intimidade que tinha com Meo Constantini (Bugatti). Enzo Ferrari amava as corridas, sem dúvida, mas era mais do que o amor de um entusiasta: ele tinha a visão prática de que aquilo poderia resultar num império rentável.”

Na década de 1930, a Alfa Romeo queria sair de vez do mundo das corridas, mas a Pirelli convenceu a empresa de que a Ferrari poderia ser o braço esportivo da montadora. Mesmo contando com uma boa estrutura e ótimos pilotos, foram anos difíceis para os italianos, que não conseguiam superar a força dos alemães da Mercedes.

Em 1937, a Alfa Romeu decidiu retomar o controle de seu departamento de corridas e Enzo não admitiu ser relegado novamente ao posto de funcionário. A Scuderia, então, rompeu com a montadora e passou a andar com as próprias pernas.

Como, por contrato, eles não podiam competir contra a Alfa por 4 anos, Enzo criou a Auto-Avio Costruzioni e passou a construir seus próprios carros. A 2ª Guerra Mundial interrompeu a disputa e inclusive, devido aos bombardeios, fez a Scuderia mudar-se de Modena para a pequena Maranello. Ao invés de carros, produzia artigos bélicos. Apenas em 1947, quando a poeira baixou, Enzo Ferrari fundou a Ferrari S.p.A, empresa que se tornaria um império de sonhos e paixões.

2 comentários sobre “Enzo Ferrari fez do pós-guerra uma oportunidade

  1. A ojeriza que o nome Ferrari causa nos brasileiros, tem mt a ver com a atualidade, mas não podemos fingir desconhecer o poder dessa marca, onde fica claro o orgulho italiano estampado na máquina 100% nacional, chassi, motor e caixa. As palavras de Rene Dreyfus, são marcantes “…ele tinha a visão prática de que aquilo poderia resultar num império rentável”, algo mt pertinente ao mundo da f1, onde os meios justificam o fim, pois os bastidores escondem mt mais que corridas.

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