O que a F1 está esperando?

A Federação Internacional prefere um silêncio lacônico, Bernie Ecclestone tenta convencer a todos que a situação no Bahrein está melhorando e a associação das equipes (FOTA) chega à conclusão de que o melhor é seguir a recomendação das autoridades – do automobilismo, não do país. Todos esperam que a decisão de cancelar o primeiro grande prêmio de 2011, que hoje parece inevitável, não tenha que ser tomada.

O fato é que a F1 está cheia de conexões com monarquias árabes “amigas” do Ocidente. Parte da equipe de GP2 do filho de Jean Todt, presidente da FIA, é de investidores do próprio Bahrein. A Williams tem negócios no Qatar, a Ferrari tem um grande patrocinador e um parque temático com seu nome nos Emirados Árabes Unidos e a McLaren – cujo chefe também é presidente da FOTA – tem 41% de suas ações nas mãos justamente do governo que anda sendo questionado por sua própria população, que protesta diariamente em busca de voz ativa e mais igualdade social. Isso sem contar o contrato que, especula-se, gira em torno dos 60 milhões de euros para que os barenitas garantam seu enfadonho circuito como palco da abertura da temporada.

Bernie e o Príncipe do Bahrein

Ninguém, é claro, quer correr o risco de sair no prejuízo. Preferem esperar a situação se acalmar – ou “tudo explodir de vez”, como disse Ecclestone – para respirar aliviados e embarcar o restante do equipamento ao Bahrein, como se nada tivesse acontecido. Já vimos um esforço parecido, mesmo que a incerteza naquele momento fosse causada por outros motivos, na Coreia no ano passado. Falando em equipamentos, boa parte já foi enviada ao Bahrein, o restante iria nesta semana para os testes, de 3 a 6 de março – datas, inclusive, já devidamente reservadas também no circuito de Barcelona. Mais um motivo para estranhar a lentidão em se tomar uma decisão.

Seria difícil imaginar que o governo barenita conseguisse garantir a segurança de todos os envolvidos na F1 se continuasse a responder com o uso da força. Estamos falando de algumas centenas de pessoas, dentre elas muita gente importante no mundo dos negócios, muita gente com seguros que possivelmente não permitirão que corram tal risco, muita gente que seria um alvo preferencial. Isso sem contar na recente recomendação de países como Reino Unido e Estados Unidos, de que seus cidadãos cancelem qualquer viagem “não essencial” ao país. É lógico que explodir tudo de vez não seria muito inteligente, mesmo a curto prazo. Não coincidentemente, o príncipe do Bahrein vem tentando uma saída política para a crise.

Assim, deixariam de perder o dinheiro negociado com Ecclestone e teriam uma chance e tanto de propagandear sobre como são fundamentais para a saúde financeira e a ordem do país, como merecem ficar no poder. E não há dúvidas de que a F1 aceitaria se prestar ao papel de palco para o desfile dessa ditadura bem disfarçada, pelo menos aos olhos do Ocidente.

Como Ecclestone já declarou que a decisão está nas mãos do príncipe, se a prova não acontecer, são os barenitas que arcarão com o prejuízo. E o velho Bernie pode lavar as mãos.

Por mais que todos neguem que queiram se associar com um país de liberdades restritas, por mais que digam que só aparecem por lá uma vez por ano para correr, a F1 está envolvida até o pescoço com essa gente. A rápida dissipação dos protestos e a vitória do governo barenita é tudo por que FIA, Ecclestone e FOTA estão esperando.

8 comentários sobre “O que a F1 está esperando?

  1. É uma mancha no esporte. Vc citou a Coréia do Sul em 2010, mas houve tbm o risco de enfrentamento militar (Coréia do Norte), além da pista. Tudo bem que a grana manda, mas o que me deixa mais curioso, e sabemos o porque ($$$$$$$ e clausulas contratuais), é a letargia da FOTA, que diga-se de passagem, nunca foi unida, mesmo sendo o ator principal. Guardando-se as devidas proporções, me lembro de 1994, quando após o acidente fatal de Ratzenberger, Senna, líder da GPDA, gostaria de anular a prova, pois segundo as leis italianas, morte em pista, anularia o evento, mas sabemos o fim da história……

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    1. A GPDA também não costuma decidir nada, todo mundo com rabo preso. A questão é que as equipes são obrigadas, por contrato, a participarem das corridas. Elas podem pressionar, mas não podem decidir. E não é de seu interesse pressionar, já que muitas têm negócios no Oriente Médio.
      A FIA não costuma entrar em questões que envolvam dinheiro, embora possa cancelar a prova. Geralmente, deixa nas mãos do Bernie. E ele é especialista neste tipo de negociação: é claro que vai deixar tudo nas mãos do governo. Afinal, se eles cancelarem, garante a grana. E as questões éticas de demonstrar indiretamente apoio ao regime ficam lá para trás.

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      1. Saímos um pouco do esporte, e cruzamos a linha das relações comerciais. Bernie a essa altura, pode estar sendo taxado de aproveitador, mas convenhamos, o fato de ter laços comerciais com esses caras, não o faz ditador, afinal foge ao seu controle, o tratamento que o governo dá ao seu país. É complexo. Bernie vende sonhos e diversão. Além do quê, sabemos mt bem, a exemplo do embargo dos EUA à Cuba, onde a corda sempre arrebenta! Com embargos, os mais fracos sempre serão os mais atingidos, ou alguém em sã consciência, imagina que em Cuba, Coréia do Norte, Abu Dhabi, Irã, China, os maiorais passam dificuldade? Temos que ser realistas, embargo puro e simplesmente, não derruba ditadura, apenas o povo pode fazer isso.

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      2. excelente levantamento, nao sabia que esses árabes eram tão influentes na F-1.. Pudera, com tanto ouro negro e reprimidos pela própria religião, megalomaníacos quando alcançam o poder, acabaram sendo donos de uma porção de coisas mundo afora exceto o próprio povo. Essa revolução que está acontecendo no mundo árabe vai entrar pra história.

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  2. Eles são todos loucos, mas nao rasgam dinheiro!
    Tudo depende de como vão negociar.
    Tanto para o mundo da F1, como para o Governo Bahronita, como para os que “mandadam” na oposição tudo depende da oferta de $$$…
    É o mundo real!

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