O único que não quer saber de cortes orçamentários é Bernie

A notícia pode ficar um tanto escondida em meio ao furor pelo óbvio cancelamento do GP do Bahrein, sobre o qual já discutimos (em duas oportunidades, aqui e aqui), mas tem até mais importância. Quase simultaneamente, autoridades ligadas aos GPs da Austrália e da Espanha declararam que suas corridas correm risco de deixar de acontecer num futuro próximo.

Isso se enquadra muito bem no nosso tema da semana, sobre os orçamentos da F1. Ao mesmo tempo em que as regras restringem gastos e as equipes se comprometem a diminuir suas contas, Bernie Ecclestone continua fazendo contratos de cifras inimagináveis para simplesmente ceder o direito de que um país organize uma etapa do campeonato.

Os preços variam e dependem do poder de barganha da localidade. Um GP querido no calendário e que produz grandes disputas – o que gera visibilidade e, é claro, dinheiro – como o do Canadá ganhou um “desconto” para voltar à temporada em 2010, depois de não ter o contrato renovado no ano anterior. Especula-se que Montreal pague hoje 11 milhões de euros. Bastante, mas ainda longe dos 20 milhões da Turquia ou dos 60 do Bahrein.

Os australianos há tempos não andam felizes com seu evento. Primeiro, eram questões ambientais, somadas agora a sucessivos prejuízos com a queda no interesse local e aumento nas contas. “Era um bom negócio em 1996, quando custava ao governo apenas US$ 1.7 milhões mas, com a diminuição do público e os contribuintes tendo que arcar com US$ 15 milhões por ano, o governo deveria minimizar as perdas e cair fora”, disse o parlamentar Michael Danby, que afirmou ter feito uma pesquisa com moradores e revelou ter o apoio de 90% dos 600 entrevistados.

Asturianos em peso em Barcelona

Mas o exemplo mais emblemático é o da Espanha. O evento reúne mais de 100.000 espectadores somente aos domingos desde o estouro do fenômeno Alonso e, mesmo assim, dá prejuízo. Além disso, o país anda assustado com a crise financeira. “Todos sabem que temos restrições no orçamento e que a F1 é deficitária. Mas também temos que considerar o impacto econômico e como o evento promove o país”, disse Artur Mas, presidente da Catalunha, que disse não garantir a realização da prova até o final do contrato atual, em 2016.

Eles não são os únicos organizadores descontentes. Outros GPs que reúnem bom público e se tornaram tradicionais no calendário, como Bélgica e Alemanha, recentemente reportaram prejuizos e ameaçaram retirar seus eventos caso as taxas não sejam revistas. O GP da Inglaterra – outro que está sempre lotado de entusiastas – correu, recentemente, sério risco de não acontecer já que, sem apoio governamental, os organizadores tiveram dificuldades na arrecadação de fundos para fazer as reformas necessárias para competir com as obras faraônicas dos circuitos recém-integrados ao circo.

O que tem acontecido é que, mesmo levando-se em conta o impulso econômico que a visita da F1 dá a qualquer cidade – é o evento que gera mais dinheiro para uma gigante como São Paulo, por exemplo – o custo da organização está se tornando insustentável.

É uma tendência que Ecclestone cisma em não enxergar, maravilhado pelos candidatos que não param de aparecer, desde os norte-americanos até os russos. Mas quanto tempo demorará para eles receberem a conta e perceberem que os números não se encaixam? Será que já teremos perdido Spa, Hockenheim, Silverstone, e todos os outros circuitos que nos trazem boas corridas até lá?

13 comentários sobre “O único que não quer saber de cortes orçamentários é Bernie

  1. Bernie me passa a sesnsação que quer ganhar o mais que puder com a F1 antes de ser sucedido, tanto pelo divórcio com a Slavica quanto para provar ao mundo que é ele quem mada, mas que na verdade vê seu tempo de ditador chegar ao fim, como em muitos países do Oriente Médio.

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  2. O que é mais estranho é nunca o gp em Interlagos estar na berlinda e ninguém comentar quais são os valores pagos pela Administração Municipal de São Paulo. Será que é um ralo bem largo onde o dinheiro público vai embora a plena velocidade?

    São Paulo tem problemas muito maiores – as enchentes, por exemplo – para se dar a esse luxo de sediar um GP de F1.

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  3. Julianne,

    O Franco tocou na ferida… É realmente impossível obter a informação sobre o custo que onera anualmente a Prefeitura de São Paulo?
    Afinal, este GP é deficitário, ou o governo local entende como superavitário?

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    1. Quando renovou o contrato, em 2008, a prefeitura afirmou que os 85 mil turistas que assistem ao GP de gastam R$ 200 milhões na cidade. Ainda de acordo com a prefeitura, o evento gera 14 mil postos de trabalho diretos e indiretos.
      Não falam quando o evento custa, mas continuarei procurando.
      Para uma cidade como São Paulo, um evento como esse atrai, sim, investimento. Mas acredito que o GP em si seja deficitário para os organizadores.

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  4. Esse post me fez lembrar dos primórdios de Bernie à frente da FOM, onde ele literalmente era o “moço do caixa”. Bernie por ser um homem de negócios, não dá ponto sem nó. Sabe que seu produto é atraente, e caímos na lei da oferta e da procura, é como naquela famosa rede de eletrodomésticos: “-Quer pagar quanto?” Os negócios se expandiram tanto, que o mais sensato que consigo enxergar, é o que acontece nas grandes empresas privadas e públicas, onde há o fiscal, do fiscal, do fiscal, do fiscal, do faxineiro, ou seja, muita gente ganha sem fazer nada, daí os custos exorbitantes, além dos subornos, atravessadores, ou seja, tem muita grana indo pelo ralo… Ju, vc tocou em um ponto chave, o GP em si, pode (até que se prove o contrário), ser “deficitário” para o governo (????? rsrsrsrs), mas algo é inegável, o marketing indireto, a população que se desloca pelo status do evento, deve aliviar e mt as contas, mas e o subfaturamento? Me parece que esse chôrôrô todo, tem mais a ver com quem não recebe a “caixinha”, e aí, bota a boca no trombone.

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    1. Sim, quem reclama é aquele que leva o prejuízo, até porque todo esse rendimento “para a cidade” é dissipado. Mas seria justo alguém pagar o pato? Por que o lucro maior vai para os bolsos de um só homem?

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      1. Tudo bem que Bernie é o majoritário, mas imagine, quanta volta essa arrecadação dá até chegar aos cofres públicos? Imagina quanto pato alheio está sendo engordado? Imagina quanto subfaturamento? Imagina quanta remessa ilegal para contas fantasmas, apenas com um click? Pelo contrário, devem ser mts bolsos.

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  5. Mas essa situação não vai continuar por tempo indeterminado, assim que ocorra uma saída de GPs tradicionais e a F1 passe a ter apenas GPs como Bahrein e Abu Dhabi, monótonos, então o interesse e obviamente a disposição em pagar essas fortunas diminuirá.
    Não acho que um esporte ou quaisquer outro tipo instituição fique nas mãos déspotas de um cara como Bernie, o qual se assemelha muito aos governantes autoritários do oriente médio. Talves haja aí uma simpatia mútua.

    Não adianta um evento gerar muito dinheiro se o seu custo for tão alto a ponto de eclipsar os benefícios.

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  6. Crises econômicas podem mudar muita coisa, mas penso por outro lado. Talvez o leilão de Bernie em relação aos tradicionais, seja mais como meio de barganha, afinal como cria da f1, Ecclestone sabe que não sobrevive sem a tradição, Silverstone, Monza, Mônaco, Ferrari, Mclaren, Willians,… não penso que dará um tiro no próprio pé. Penso que o choro dos tradicionais têm mais a ver com os déficitis internos, além da opinião pública bem informada, mas Bernie não é bobo, bate e assopra. Além do mais o que ele faz? Alivia na Europa e desce o porrete nos novatos, a famosa política da boa vizinhança.

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  7. São como os lendários gafanhotos que vão de colheita em colheita alimentando-se. Quando acaba aquí, mudam-se para acolá… Dançam no ritmo frenético do alto capitalismo e de suas crises cíclicas. Agora que a Europa afunda, querem jogar os “custos” navio afora,tal qual ratos. Amanhã se recuperarem a empáfia da civilização ocidental, lá estarão cultuando equipes e pilotos…Já se foram as grandes guirlandas de louros, mas ainda assim permanece essa incrível fábrica de emoções que é uma corrida de carros de F1.

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  8. Tae Ye Ju
    Bem.. até Quasi-Poesia deu para alguns expandirem por aqui pelo tema… Há um provérbio que diz que é de bem nascido ser agradecido..a quem temos de agradecer haver 20 provas no Calendário quando antes havia dez ou doze…e que por cada cidade que quer sair há três ou quatro querendo entrar..é verdade que alguma cidades estão saturadas ou dizem que estão para descerem o prço da fruta, de ter o Grand Prix mas há outras que anelam a sua vinda em Itália Roma e São Marino-só por ser na Peninsula Itálica- estão esperando vaga o Algarve em Portugal também…que não gosto de não ter GP França é verdade mas Ils savent…Só o Glamour que é ter um GP na sua cidade faz arengar muito boa gente..e se assim fôr o cara faz o que quer tem um produto que muita gente quer..ia dar barato, o pequenino é tudo menos bobo, eu sei que por aqui há algumas almas caridosas que se algum dia tivessem o Génio de ficar à frente do Negócio ou ser dono dele iam não vender ao melhor “postor” mas dar barato para amigo ou vizinho…Que é verdade que teria preferido que o Colin Chapman tivesse ficado à frente da coisa é verdade mas isso porque sou romântico o suficiente para achar que ele teria levado a competição com mais savoir-faire, mas tenho a certeza que não teríamos tanto GP´s por época, e depois têm de reclamar dos Chefes-de-Equipe da Época porque não deram o “brinquedo” para o colega mais “Genial” e muito de louco nisso, deles mesmos.
    Não reclamem tanto das coisas mais bem organizadas, que se conhecem e que nos dão tanto prazer..mesmo os nossos perdendo.

    Bacci Ju

    É um Prazer escrever no melhor Blog de F1 em Português.

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