“Eu e meu companheiro precisamos trabalhar juntos no desenvolvimento do carro”

A frase poderia ser de qualquer piloto do grid e é o exemplo máximo do bom mocismo – se é que o termo existe – que marca as entrevistas na F1 hoje em dia. Lendo o material para escrever o post de quarta-feira, fiquei pensando sobre como nos sentimos à vontade para julgar atitudes que ouvimos dizer/escolhemos acreditar que outros fizeram, ou mesmo questionar atos que não nos dizem respeito, como aqueles vizinhos chatos que dão palpite na sua vida, mesmo só vendo você entrar e sair de casa. Enfim, como cultivamos o politicamente correto, mesmo que sejamos enganados por ele.

Talvez sempre tenhamos sido assim, mas a Internet, a diminuição aparente das distâncias e a difícil barreira entre a vida particular e pública parece ter dado voz e projeção a esse costume de fofoqueiro de bairro. Teria muitas perguntas a fazer a quem se importa tanto com que os outros fazem, como por exemplo, por que o fato de Ronaldo ter saído com um travesti incomoda até hoje, mas esse não é o ponto do texto.

É lógico que os setores de marketing estão muito atentos a isso. E não vão querer ligar as marcas que representam a alguém cuja imagem é qualquer coisa diferente de imaculada. Até aí, estão em seu direito. O problema é quando a neurose é tão grande que suprime as personalidades. O blog fala de F1, mas isso é algo que tem acontecido até com bandas de rock, símbolos da transgressão em outros tempos.

O shit happens marqueteiro depois da Turquia convenceu alguém?

Não demora para surgir as reclamações dos saudosistas, para os quais os pilotos/astros de antigamente eram melhores porque tinham personalidade. Que esses, de hoje em dia, são uns vendidos. Que já não há rivalidade de verdade como antes, e blá, blá, blá.

Personalidade não é item opcional, todo mundo tem. A diferença é que a de uns é mais forte que de outros, mas será que é uma questão de ter ou de poder mostrá-la? Até chegar ao topo e viver de suas glórias, dependendo da imagem que você constrói, terá certas empresas a seu lado – ou nenhuma.

Liuzzi, por exemplo, campeão mundial de kart e da F3000. Não é nenhum zero à esquerda. O quanto do fato dele estar na Hispania hoje tem a ver com o que realmente fez pelas equipes por que passou e o quanto suas dificuldades no caminho foram resultado do temperamento/imagem forte?

Além disso, há a questão da mídia. Imagine se um piloto resolve ter uma noite de James Hunt na véspera de decisão do título mundial. Provavelmente, alguém terá uma câmera a postos – ainda que seja do celular – e, antes mesmo de acordar, o talvez futuro campeão do mundo já estará na capa de todos os portais da Internet como, no mínimo, um irresponsável.

O slogan desta propaganda de 2007 diz tudo: "Racing is a state of mind"

Aí fica fácil de entender o desfile de declarações e posturas pasteurizadas no paddock, como em outros esportes e setores. Quanto mais dinheiro envolvido, mais profissionalismo é exigido e até falar o que pensa se torna proibido. E, ao mesmo tempo em que os pilotos são acusados de omissão em situações como no recente cancelamento da prova do Bahrein, quem mostra a cara logo é jogado na parede.

Convenhamos, é maçante ouvir as declarações de um Vettel, um Massa, um Kubica, um Hamilton. Só dizem o que é esperado deles. Mas não os julgo: se não o fazem – como quando, recentemente, o atual campeão do mundo brincou que gostaria de pagar férias a um dos pilotos da Ferrari para que ele assumisse um dos carros vermelhos – são massacrados. Isso, sim, é uma chatice só.

11 comentários sobre ““Eu e meu companheiro precisamos trabalhar juntos no desenvolvimento do carro”

  1. Instigante este post. Eu penso que é realmente difícil manter as fronteiras apenas na F1. No modelo social e econômico em que vivemos uma das coisas que vemos é a figura do produto e a do consumidor. E existem profissionais especializados em entender o que o público deseja, a forma do oferecimento do produto. Por isso as toneladas de pesquisas de mercado, com questionários os mais variados, para tentar garimpar o que o público deseja. Por exemplo, se o público que se deseja atingir for de jovens, então ter um Sebastian Vettel, “jovem”, “descolado”, “espontâneo”, “vencedor” deve fazer bem a marca. O quanto dessas características é realmente natural e quanto fabricado talvez seja possível de se saber convivendo com a pessoa, como isso não é possível, o que nos cabe é colocar a cabeça para pensar e analisar o que nos está sendo apresentado.

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  2. O título mostra mt bem o politicamente correto. No caso específico do automobilismo, sabemos que o 1º adversário está na garagem ao lado. Essa conversa fiada de piloto pró equipe, é lorota. Quando abaixam a viseira, é cada um por si. Como não se lembrar da rixa entre Pironi x Villeneuve, Senna x Prost, Piquet x Mansell, amigos, amigos, negócios a parte. Não digo que as coisas cheguem à aberração de desejar que o outro se ferre, mas devem pensar mt: “… tomara que ele quebre, tomara que perca tempo,…” A guerra de palavras, é tão antiga quanto a f1, e quem não tiver capacidade de vivenciar isso, deve mudar de esporte. A pressão é um dos “testes da f1”, e quem sabe transformar isso em incentivo, vence. Me lembro de Senna em 94, no auge de sua popularidade, criticando o acontecido com Ratzenberger, a FIA passou por cima. Não vejo na safra atual, condição para mudar esse panorama.

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  3. Mas eu penso que a culpa disso não é só de um lado.
    A maioria dos jornalistas compactuam com essa situação.
    É muito comum ver um repórter fazer uma pergunta obvia e se satisfazer com uma resposta mais obvia ainda.
    Quando Alonso ultrapassou Massa na Alemanha eu vi muita gente achar normal Alonso responder que a “Ferrari vive dos carros que vende”.
    Ou seja, todo mundo de alguma forma tem o rabo preso. Piloto, equipe, jornalista…
    Cabe ao leitor tirar de tudo isso sua própria conclusão e pensar com sua própria cabeça.

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  4. Esta percepção de piloto/imagem é muito maçante mesmo, parecem figuras aquém do mundo em que vivem, mas existe tanta coisa envolvida que fica difícil saber o que o piloto falou ou a imagem quis falar.

    Pilotos como Kimi e até mesmo o Kubica (quando o perguntaram como era pilotar uma lotus, ele falou que até onde sabia, lotus era apenas um patricinador) fazem falta sim.

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    1. O Kimi é um bom exemplo. Não se preocupava com a imagem e isso fez com que achassem que ele não estava se importando com nada. Quando faziam uma pergunta boba para ele (e concordo com o Dé Palmeira, realmente às vezes parece que as perguntas são tão automáticas quanto as respostas), ele simplesmente dizia “let’s wait and see” ao invés de falar qualquer coisa politicamente correta. Saudades do Kimi.

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      1. Velhos tempos, velhos dias… e quanta falta faz um pouco de autenticidade na F1 de hoje…

        Tudo tão artificial quanto um litro de Tang…

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    1. Wagner.

      Espetacular! Não espere nunca mais uma entrevista como essa…

      Hoje, para qualquer comentário que um piloto faça, tem um assessor de comunicação do lado ouvindo e filtrando tudo. Observe uma entrevista do Massa e uma simpática senhora loira da Ferrari que sempre o acompanha…

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