As incontáveis pedras no caminho de Mark Webber

Ainda ouviremos muita especulação sobre o fim, da carreira ou do contrato com a Red Bull de Mark Webber neste ano. Mas viver momentos de indecisão não é novidade para ele. Nesta semana o piloto resgatou, por meio de seu twitter (@AussieGrit), uma projeção de sua carreira datada de 1995. Na época, o australiano tinha 19 anos, pouco dinheiro, e enfrentava uma encruzilhada: fazia seu segundo ano na F-Ford Australiana, o tempo estava passando e o caminho até chegar à F1 era enorme.

É interessante observar que os agentes de Webber chegaram a considerar a Formula Asia. Se o automobilismo na região ainda engatinha, imagine há 15 anos? E o caminho norte-americano, será que não teria desviado totalmente o destino do australiano? Afinal, o único piloto do atual grid da F1 que correu por lá é o mexicano Sergio Perez, e isso quanto tinha algo em torno de 14 anos.

Planejamento da carreira de Webber, datado de 6 de julho de 1995

Provavelmente pouco depois da impressão deste papel, datado de 6 de julho de 1995, Webber passaria a contar com a ajuda da empresária Ann Neal. Uma mulher já divorciada na época, que trabalhava como coordenadora da F-Ford. Ann conseguiu um contrato de patrocínio das Páginas Amarelas para Mark, que pôde disputar a F-Ford britânica em 1996. Apesar do vice-campeonato, não foi uma ano fácil para o australiano, que, já morando com Ann, que viria a ser sua esposa, dava aulas de pilotagem por £43 o dia para se manter.

Em 1997, deu um passo grande e foi para a F-3. Segundo o piloto, a decisão se deu porque a idade não permitia que ele perdesse um ano na F-Renault. Novamente, sua carreira correu risco, já que o dinheiro das Páginas Amarelas e do pai era suficiente para comprar o carro, e não para mantê-lo. Alan Webber foi, então, atrás do astro de rúgbi David Campese, com quem havia jogado na juventude. O ex-atleta lhe emprestou nada menos que £50.000 e salvou a carreira de Mark.

O quarto lugar no campeonato de F-3 rendeu um contrato que não estava nos planos daquela projeção de 1995: Webber foi procurado por Norbert Haug e correu de Mercedes na FIA GT. Pode parecer um caminho estranho para alguém cujo objetivo era chegar na F1, mas seria o primeiro ano, 1998, então aos 22, que Webber seria pago para correr.

A parceria entre Mark Webber e Ann Neal segue firme até hoje

A lua-de-mel com a Mercedes acabou em 1999, em Le Mans, quando o piloto sofreu dois acidentes seguidos. Decidiu que voltaria aos monopostos de qualquer maneira.

A Mercedes esperava levá-lo aos Estados Unidos, para correr na então ChampCar, mas Webber queria ficar na Europa e rompeu com os alemães. Tentou um teste com a Jordan, mas o máximo que Eddie conseguiu foi colocá-lo em contato com Paul Stoddart, outro australiano, que tinha uma equipe de F-3000 e compraria a Minardi no ano seguinte. O mais importante, porém, foi o teste com a Benetton e a ligação com Flavio Briatore, que o colocaria de volta na rota da F1.

Nos dois anos de F-3000 – o segundo, já como piloto de testes da Benetton – Webber foi 3º e vice-campeão.

A estreia como piloto titular na categoria máxima do automobilismo acabou acontecendo um ano depois que o planejamento de 1995 previa, de Minardi, em 2002. Dali até chegar a disputar o título, seria outro caminho longo e cheio de reviravoltas (veja neste post).

O que fica de toda esta história é a dificuldade de se chegar à F1 sem uma grande empresa por trás, ainda mais vindo de um país afastado da Europa. Além disso, as quantias exorbitantes – £500.000 por ano para correr na extinta F-3000! – que só devem ter crescido de 1995 para cá. Por essas e outras, há quem brinque que o melhor piloto de todos os tempos nasceu na Sibéria, mas ninguém nunca viu correr porque o esporte não lhe deu uma oportunidade.

4 comentários sobre “As incontáveis pedras no caminho de Mark Webber

  1. Um ponto mt interessante que vc tocou em seu post, é os obstáculos criados para quem vem das categorias norte-americanas. Não acredito em deficiência técnica. Será pela rivalidade? O organograma de Webber dá uma falsa impressão de facilidade para se chegar à F1! De todas as pedras no caminho, fica claro que talento pura e simplesmente, não cria um campeão. Talento, sorte e mts relacionamentos extrapista contam barbaridade. Além da luta diária para se manter, ainda tem que contar com a sorte, de quando tiver um bom carro nas mãos, a equipe tbm queira. Ô vida de canguru!

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    1. Não sei dizer, Wagner. Tivemos exemplos de gente que andou muito bem de cara após a “migração”, com o Jacques Villeneuve e o Nigel Mansell, assim como quem não se adaptou de jeito nenhum – Michael Andretti, Zanardi, Bourdais.
      Acho que a questão do Webber era não perder tempo e se manter em evidência no mercado que importa. As equipes de F1 buscam na GP2 – na época dele, na F3000. Isso é óbvio, porque são categorias cuja realidade, em termos de carros e circuitos, é mais próximas à F1.

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  2. Julianne, segue meus comentários atrasados.

    A vida de Mark Webber nunca foi fácil e nada indica que ele não encontrará mais pedras pelo caminho.

    Já virou lugar comum, darem ele como aposentado. Mas isso só ocorre pelo interesse no assento que ele ocupa. Por que não se ouve tantos comentários sobre a aposentadoria de Trulli, Liuzzi ou mesmo Barrichello? Será que o carro deles não gera tanto interesse?

    Mais interessante seria descobrir quem fica soltando tantos boatos sobre sua saída. Seriam os empresários de Buemi, Alguersuari, Ricciardo ou mesmo Hulkemberg? Será que a pressão não vem da própria equipe RBR, através da figura de Helmut Marko e o desejo de promover um dos pupilos?

    Webber foi importante, durante a fase de consolidação da equipe no período de entrada na F1 e durante a formação de Vettel, porém agora ele já não é tão útil. O energético Red Bull é um produto que tem como público alvo uma faixa etária de jovens e é mais interessante associar a equipe/produto a um piloto também jovem.

    No ano passado já era claro a preferência por Vettel, mas Webber foi uma surpresa (desagradável para a equipe?) ao liderar por algumas etapas o campeonato. Por isso a equipe não bateu o martelo, elegendo Webber como o piloto a conquistar o campeonato e deixando a disputa interna rolar até a última prova (que por sinal foi uma decisão correta, pela contusão de Webber e um tanto por sorte pelo erro de estratégia da Ferrari na última corrida). Bobagem o discurso que a RBR preza a igualdade entre os pilotos, se Vettel fosse o líder desde o começo a história teria sido diferente.

    Pelo lado da equipe, é interessante fazer a dança das cadeiras, pois Vettel deve estar no auge de sua forma física/técnica/motivacional pelos próximos 3 ou 4 anos? Então é interessante já preparar um plano de sucessão a partir do próximo ano, testando outros jovens pilotos da academia. Talvez Ricciardo seja uma boa promessa, mas dificilmente já entraria direto na RBR, ele seria observado por uma temporada na Toro Rosso e talvez daqui uns 2 anos chegue à RBR, a tempo de treinar lado a lado com Vettel e talvez substituí-lo. Portanto não faz o menor sentido, ficar torcendo por Massa como candidato ao assento da RBR.

    Pelas primeiras provas deste ano, e os problemas que Webber teve com o carro e Vettel não teve, parece já haver uma priorização de recursos e atenção para o atual campeão.

    Talvez o ano passado, tenha sido realmente a grande chance de Webber se sagrar campeão, mas para a tristeza dele, não foi aproveitada.

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  3. seria interessante ver um quadrinho desses que o webber fez para o cenário atual… eu gostaria de saber quais sao as grandes categorias nas diferentes escolas que existem hoje!

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