Final feliz para quem no imbróglio do Bahrein?

Com a confirmação da remarcação do GP do Bahrein, retomo dois trechos de posts da época em que a corrida foi adiada para explicar um pouco das questões que cercam a decisão.

A F1 está cheia de conexões com monarquias árabes “amigas” do Ocidente. Parte da equipe de GP2 do filho de Jean Todt, presidente da FIA, é de investidores do próprio Bahrein. A Williams tem negócios no Qatar, a Ferrari tem um grande patrocinador e um parque temático com seu nome nos Emirados Árabes Unidos e a McLaren – cujo chefe também é presidente da FOTA – tem 41% de suas ações nas mãos justamente do governo que anda sendo questionado por sua própria população, que protesta diariamente em busca de voz ativa e mais igualdade social. Isso sem contar o contrato que, especula-se, gira em torno dos 60 milhões de euros para que os barenitas garantam seu enfadonho circuito como palco da abertura da temporada.

Não seria a primeira vez que um GP é cancelado por problemas políticos. Isso já aconteceu durante a ditadura argentina, nos anos 1970. O passado ainda guarda algumas histórias inacreditáveis de momentos em que a política invadiu o automobilismo, como o sequestro de Juan Manuel Fangio quando este foi a Cuba para o GP de Havana. Mas nada pode ser comparado às proporções que o esporte tomou nas últimas décadas.

Correr em países de regimes autoritários também não é novidade para uma categoria que esteve na África do Sul do Apartheid (dos anos 60 aos 80), no Brasil da Ditadura Militar (anos 70 e 80), na Argentina da Guerra Suja (de 1976 até 1981), na Espanha de Franco (começo dos anos 50, e depois entre fins dos 60 até os 70), em Portugal do Salazar (fim dos anos 50), e na Hungria socialista (final dos anos 80). Hoje, além do Bahrein, Emirados Árabes Unidos, China, Malásia e Cingapura também podem entrar na lista, ao menos, das semi-democracias que gastam montanhas de dinheiro com a F1.

Curiosamente, é a segunda vez que se falou em cancelamento em bem pouco tempo. Em outubro de 2010, era a Coreia que perigava não aprontar a pista a tempo de fazer sua estreia na categoria. A lentidão das licitações governamentais e as chuvas foram as vilãs dos coreanos, que chamaram até o exército para aprontar o básico e realizar a prova. Em 2009, foi o GP da Espanha que esteve ameaçado, contudo mais por histeria devido à gripe H1N1 que qualquer fato mais concreto.

A questão é que a expansão comercial promovida por Ecclestone não enxerga muito mais que dinheiro. Não importa de onde ele vem, se o negócio se sustenta. O que interessa é explorar mercados e cobrar uma taxa inacreditavelmente alta por isso – acredita-se que cada GP seja negociado por um preço, enquanto o Canadá pagaria R$ 25 milhões por prova, a conta da Turquia chegaria a R$ 58 milhões. Não coincidentemente, os eventos de Valência e da Austrália enfrentam oposição popular, de gente que vê muito dinheiro sendo investido em algo cujo retorno não é tão claro.

Por mais que todos neguem que queiram se associar com um país de liberdades restritas, por mais que digam que só aparecem por lá uma vez por ano para correr, a F1 está envolvida até o pescoço com essa gente. A rápida dissipação dos protestos e a vitória do governo barenita é tudo por que FIA, Ecclestone e FOTA esperaram nesses mais de três meses. A realidade do país ainda não é tranquila, mas, ao que parece, nada que impeça os grandes de faturar.

8 comentários sobre “Final feliz para quem no imbróglio do Bahrein?

  1. Julianne,

    Nesses momentos conturbados, o cinismo dos dirigentes fala sempre mais alto, ofuscado pelos valores monetários envolvidos.

    Será interessante notar se Bernie, Montezemolo e outros figurões estarão circulando de peito aberto pelo Bahrein, utilizando as vias públicas ou se irão se proteger atrás de alguma reunião inadiável em algum local bem distante do país.

    Acredito que poucos torcedores irão se arriscar até lá, então as arquibancadas deverão estar bem vazias.

    Coitados dos mecânicos e equipes de reportagem, que não podem deixar de cumprir suas funções.

    Abs.

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  2. Julianne:

    É tudo verdade no que dizes. E se andaste a ler as reações das pessoas ao longo do dia, sabes que já se apela, como eu, a que se boicote a corrida barenita. Apesar de fazer tal apelo, sei perfeitamente que é de dificil concretização, pois existem contratos e clausulas impossiveis de bater, é do género “come e cala”. Mas vamos pensar além do GP barenita: em 2012, em principio, teremos 21 corridas. O maior calendário de sempre, com a época a acabar quase em dezembro, quase sem férias para os funcionários. As equipas poderão engolir isto por agora, mas quererão algo em troca. E esse “algo em troca” poderá ser, quem sabe, o final do Acordo de Concórdia e a criação de uma série paralela.

    É o que digo: hoje começou a tempestade.

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  3. Enfadonho circuito Barenita até 2010. Em 2011 com o Kit Ultrapassagem (DRS + KERS + Pneus paçoca ) by FIA/FOM, podemos ter uma corrida boa no Bahrein. Ademais, prefiro 20 corridas a 19, assim como vou preferir 21 a 20 em 2012. Eu sou egoísta e vou ver sempre o MEU lado, como fã e espectador de F1. Não tenho altruísmo suficiente para ver o lado dos protagonistas.

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  4. Julianne,

    (Primeiramente, peço desculpas por comentar algo fora do assunto)

    Você vai escrever alguma coisa sobre as paradas de boxes?

    É que eu queria comentar sobre isso, expor as médias de paradas de cada um > RBR, Ferrari e McLaren.

    É um assunto que me chamou bastante a atenção, devido ao suposto favorecimento ao Alonso (é o que estão dizendo).

    OBS: E aí quem visualizasse e quisesse ajudar melhorar a média, ficaria grato, pois estou bastante curioso.

    Abs.

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