GP do Brasil por britânicos, brasileiros e espanhóis: “Não quero acreditar”

O GP do Brasil sempre gera expectativas: muitas ultrapassagens, acidentes, chuva. As transmissões desta edição da corrida de Interlagos não poderiam destacar outra coisa para manter o interesse em um campeonato decidido há muito tempo. Na BBC, “quatro pilotos têm carro para ganhar, muitos mais se chover”, se empolga Martin Brundle. Na La Sexta, o narrador Antonio Lobato apela até para luta de Alguersuari com a Toro Rosso pelo sexto lugar no Mundial de Construtores”, enquanto na Globo – curiosamente a única das três que não tem pilotos nacionais na disputa – só se fala da “briga pelo vice-campeonato”.

Galvão Bueno se empolgou com a largada, pelo menos até notar a queda de Barrichello. “Vettel pula, Alonso briga, Massa vem. Felipe ganha uma posição. Bruno Senna tenta se manter. Interlagos é uma pista espetacular, que exige dos pilotos… (abaixa o tom) Barrichello perdeu muitas posições, ficou encaixotado na largada.”

“Pobre Rubens”, lamenta Brundle. “Ele é muito emocional, então imagino que haja algumas lágrimas debaixo desse capacete. Ele fez mais do que o carro podia ontem”, observa David Coulthard. “A equipe do Rubinho escolheu uma primeira marcha mais longa esperando a chuva”, explica Luciano Burti. “Então a largada ruim era esperada, mas não tanto.”

De cara, é impossível não se impressionar com a vantagem rapidamente construída por Vettel. “Olha o quanto abre… por favor!”, reclama Lobato. “Como ele consegue isso? Não dá para ver nenhuma mágica. É um piloto em seu pico”, resume Brundle.

Após as Red Bull, Button, Alonso, Hamilton e Massa formavam o segundo pelotão. “Entre Hamilton e Massa, não sei quem é mais perigoso”, goza Lobato. “Lembremos que estamos no Brasil e Massa deve estar pronto para brigar. Haverá um sexto toque?”

Galvão volta e meia dá uma reclamada em relação ao tamanho da zona de ultrapassagem. “Charlie Whiting errou, pisou na bola.” É apoiado por Burti. “Se colocassem na reta dos boxes, proporcionaria mais ultrapassagens.” Mas logo ambos se voltam para a briga Bruno Senna e Schumacher, que “tenta atacar, com um carro muito melhor, o Bruno. Para ele, Interlagos é uma curtição a mais. Para o Bruno, é talvez a permanência na Lotus” (sim, nessa etapa caseira, a Renault virou decididamente Lotus na Globo).

Não demoraria para os dois se tocarem. “Agora o Schumacher veio e o Bruno falou ‘aqui não! Tô em casa!’ … bateu”, Galvão muda o tom no meio da frase. “Schumacher ficou e ele foi!”. Ninguém vê motivo para punição, a não ser para o alemão, no caso da Globo. De primeira, os espanhóis e britânicos veem o heptacampeão fazendo a curva como se o brasileiro não estivesse do lado de dentro, mas ficam divididos com o replay. “Parece que Senna jogou o carro para cima, não sei”, Lobato fica em cima do muro. “Na segunda parte [da colisão] Bruno não fez nenhum esforço para evitar o toque”, vê Brundle. “Mas não acho que nenhum dos dois fez nada de errado.”

Do replay para a ação: Alonso passa Button num lugar dos mais inusitados. “Aí? Aí? Aí? Só Fernando Alonso”, resume Galvão. “Button não brigou. Ninguém passa aí”, Reginaldo não está muito impressionado. Mas o fato é que nem Lobato acreditava nessa. “Aqui vai ser muito difícil… sim! Ultrapassagem incrível!”, exclama o narrador. “Por fora aqui é algo impossível para todos, menos para Fernando”, afirma Marc Gené, mesma linha de Brundle. “Ele vai tentar aí? Vai! Eu nem colocaria o carro de lado para tentar! Coulthard também não acredita no que vê. “Inacreditável! Isso foi incrível, ninguém nunca sonharia em passar por fora naquela curva.”

Quando o drive thorugh para Senna é confirmado, todos consideram a punição dura. “Pelo lado de dentro, como ele ia causar a colisão?”, reclama Reginaldo Leme. “Uma coisa a gente tem de dizer: ele mostrou vontade e reclamou. Mostrou que está aí para dividir. Foi no mínimo duvidosa a punição. Pesa muito ser o Schumacher e isso já aconteceu muitas vezes”, diz Galvão. “Acho que vai ser difícil para os comissários saírem hoje daqui”, acredita Coulthard.

Todos começam a perceber que a prometida chuva não iria cair. “Falaram que íamos andar de abrigo o dia todo e não caiu uma gota”, reclama Lobato. “A chuva vai dar um drible em todo mundo”, completa Galvão.

Quem chega é um inesperado problema no câmbio do líder Sebastian Vettel – que, como lembram os repórteres Kravitz e Carlos Gil, utilizava uma caixa novinha em folha. Na BBC, a possibilidade de um jogo de equipe velado para que Mark Webber vencesse a primeira prova do ano só é citada após mensagens dos telespectadores via twitter. Na Globo, depois de algumas voltas da primeira comunicação via rádio, por Luciano Burti – e de maneira cautelosa: “Estava aqui pensando… será que ele realmente tem um problema? Porque na parte do miolo, onde deveria perder mais, seu tempo é bem parecido com o de Webber”.

Na La Sexta, por sua vez, logo de cara se abre uma cisão: de um lado, o narrador Lobato e o piloto de testes da Ferrari, Gené, veem armação. De outro, Jacobo Vega e Pedro de la Rosa, da McLaren, se recusam a crer, ainda que com ressalvas. “O que não entendo é eles pedirem para ele não usarem todas as revoluções na segunda e na terceira e, quando vemos onboard, ele usa tudo.” É a mesma dúvida de Burti, ainda que Galvão duvide. “Ele não entraria nessa.”

Não é exatamente este o motivo pelo qual De la Rosa não acredita em armação. “Depois de terem sido tão descarados em Silverstone, não iam simular um problema para mudar posição. “ De qualquer forma, o espanhol não deixa de secar. “Problema de câmbio nunca cicatriza, só piora.” Mas Lobato não se conforma. “É um absurdo se foi assim porque as ordens de equipe estão permitidas.”

Após Vettel fazer a volta mais rápida da prova, Reginaldo entra para o time de Burti e Galvão brinca. “A equipe deve falar ‘vai devagar porque você vai pegar o Webber e vai entregar a gente’.” E Gené continua descrente. “Sigo sem ver o problema. É um problema em teoria.”

Depois de todos na BBC se surpreenderem com as três paradas dos ponteiros – “os briefings apontavam duas”, garantia Coulthard – Kravitz aposta que Massa conseguirá, com a tática de duas trocas, passar Alonso. Também creem que Button seguirá pelo mesmo caminho. “Ele já tinha reclamado do comportamento dos pneus macios”, lembra Coulthard quando vê o inglês colocando médios logo na segunda rodada de pits. Para De la Rosa, “é uma estratégia estranha.”

A animação do repórter inglês em relação a Massa não é compartilhada por Galvão, que, após torcer para a chuva cair entre a última parada do brasileiro e a segunda dos demais que estavam em tática diferente, começa a explicar o ritmo ruim da Ferrari com os médios e que o piloto deve perder a posição para Hamilton. Até que o inglês abandona. “A galera bateu o tambor e ele quebrou.”

A quebra frustrou os espanhóis, que esperavam mais um toque entre os dois. “Não quero pensar como ele vai sair do circuito se eles baterem. Vai ser igual 2008”, lembra De la Rosa. “Vai dar um click na cabeça do Hamilton e ele vai perder a paciência”, antecipa Lobato, sem sucesso.

Brundle e Coulthard, convencidos de que Button vai até o final com duas paradas, acreditam que o piloto entrou porque quis para o terceiro pit stop. “Parecia que a equipe não estava esperando”. O narrador é salvo por Kravitz. “Não ia funcionar porque o desgaste é quase o mesmo do macio.”

A dupla ao menos enxerga algo que os demais não veem em relação a Vettel: a luz vermelha acendendo. “Isso significa que ele está resetando o sistema, assim como fazemos quando está chovendo”, explica Coulthard.

O escocês ri quando ouve o rádio do alemão, dizendo que se sente “como Senna em 1991” devido aos problemas no cambio. “Ele não precisa de 100% de sua capacidade, mesmo para guiar um carro longe do perfeito. Dá até para pensar na história da F-1”, observa Brundle. “Eles estão brincando”, desclassifica Burti, apesar de Galvão ter achado o diálogo ‘interessante’. “Em defesa ao que o Ayrton fez, ele só tinha uma marcha, e era marcha de verdade.” Para Lobato, foi “um comentário um pouco absurdo. Não sei porque um piloto faria um comentário desses no meio da corrida.”

Mas os espanhóis estão mais preocupados com o terceiro lugar de Alonso, pois observam que “Button está fazendo tempos parecidos”, mesmo com um composto em teoria mais lento. “A chance de Fernando é, quando ele colocar os médios, Button estar com pneus muito desgastados”, vê Gené.

Não foi o que aconteceu. “Button preparou muito bem a ultrapassagem”, vê De la Rosa. “Foi uma pilotagem estratégica muito boa e Alonso nem se defendeu”, concorda Coulthard. “Teve de ser com a asa porque passar o Alonso não é mole”, opina Burti.

Nesse momento, Massa já estava a mais de 20s do companheiro, mas Galvão faz questão de lembrar que “a Ferrari vai pedir para o Massa não atacar para ele ficar em terceiro no campeonato.” Isso, porque Reginaldo errou as contas, afirmando que, mesmo com o espanhol em quarto, ele seguia em terceiro no mundial. Kravitz também se confunde com os números. “As teorias da conspiração [sobre o câmbio de Vettel] não fazem sentido porque Webbber precisa que Button e Alonso não terminem para sair do quarto lugar na tabela.”

Brundle e Coulthard ainda ficam na bronca quando veem Massa tirando o pé para Barrichello descontar uma volta e se livrar da pressão de Schumacher. “A troco de quê? E se Vettel fica lento na última volta?”, o narrador não se conforma. As opiniões sobre a corrida do brasileiro da Ferrari, inclusive, se dividem. “Massa fez uma estratégia diferente, corajosa, e até tinha chance se chovesse”, vê Galvão. “Fernando colocou 30s em Massa em um circuito que ele voa. As pessoas não valorizam quando você não tem um carro competitivo e faz coisas fora do normal”, opina De la Rosa.

Webber também não é unanimidade. Da vitória “insólita” para Lobato, um passo importante para a recuperação de acordo com os britânicos. “Com essa vitória, Webber pode encarar 2012 com mais confiança. Sempre quando ele ganha, ele arrasa o grid. Se ele encontrasse a fórmula… poderia ser campeão”, acredita Brundle. “Se teve problema no câmbio, não sei. Prefiro acreditar que sim. Mas o Webber foi muito bem e mereceu ganhar”, defende Galvão.

Para De la Rosa, no entanto, a vitória tem outro sabor. “Terminamos o ano preocupados com a volta mais rápida de Webber na última volta e Vettel chegando em segundo mesmo com problema. Ano que vem Alonso vem com tudo porque vemos que o motor Ferrari é o que menos sopra no difusor.” E Lobato completa. “Esperamos que sim e que outro homem esteja de volta: Lewis Hamilton. É imprescindível que esteja na briga.”

5 comentários sobre “GP do Brasil por britânicos, brasileiros e espanhóis: “Não quero acreditar”

  1. É sempre um prazer ler este artigo após os grandes prémios. Grande trabalho, muitos parabéns, espero que continue no proximo ano.

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  2. Reitero o que disse o leitor no comment acima. é um trabalho e tanto essa apresentação das diversas narrações.

    uma observação quanto ao fato da reta dos boxes ter sido preterida para a utilização do DRS: creio que há que se considerar o fato que o ponto mais veloz dela, e onde certamente se dariam as ultrapassagens com asa aberta, fica em aclive, com a força G atuando para oa lto, e não tanto para o solo (isto só na brecagem, imagino).
    mesmo no início e metade desse trecho, com muitas sutis variações de elevação do piso, talvez propiciem riscos maiores à perda de controle dos carros em alta velocidade (e com um enorme público no lado externo).

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  3. Só as pessoas que realmente entendem para nos fazer ver a corrida de uma outra forma. Parabéns ao Burti por estar no mesmo nível de Brundle, Coulthard, Gené e de La Rosa. Julianne, parabéns por sintetizar com tanta fluidez os comentários e se concentrar nos momentos interessantes da corrida.

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