Talento ainda tem lugar no meio do pelotão

Virou moda falar que o grupo de pilotos que alinhará no grid para a temporada 2012 da F-1 é um dos, se não o melhor, da história. Muito disso, claro, tem a ver com a situação nunca antes vivida de termos seis campeões do mundo correndo juntos – e o mais interessante disso é que eles estão reunidos nas cinco melhores equipes, ou seja, o mais perto que temos de um “campeão em fim de carreira patético” é Schumacher, aos 43, lutando constantemente por pontos e sonhando com pódios. O que, convenhamos, pode ser decepcionante tendo em vista sua vitoriosa trajetória, mas não tem nada de patético.

Mas é curioso observar que a qualidade vai além disso, ainda que muitas vezes reclamemos que o dinheiro anda falando alto demais. Logo após as cinco equipes que dominaram as últimas duas temporadas – Red Bull, McLaren, Ferrari, Mercedes e a atualmente conhecida como Lotus – há alguns fortes candidatos a futuros campeões do mundo.

As duplas de Force India, Sauber e Toro Rosso provam que o orçamento não anda privando a categoria de qualidade, sensação alarmista que não enxerga uma safra que chega, ao mesmo tempo, com dinheiro e mostrando serviço – além de um ou outro exemplo que desafia qualquer lógica.

Alguém já viu essa cena antes?

Paul Di Resta, Nico Hulkenberg, Kamui Kobayashi, Sergio Perez, Daniel Ricciardo e Jean Eric Vergne têm, entre si, dois campeonatos europeus e dois britânicos de F-3, um título e um vice de GP2 e dois vices na World Series, para ficar nos mais importantes.

Nos últimos anos, a melhor fórmula para chegar na F-1 por uma porta promissora – o que é fundamental para a continuidade da carreira, tendo em vista que neste mundo a paciência é pouca – é ou fazendo parte de um programa de desenvolvimento de pilotos, ou trazendo muito dinheiro em patrocínio.

É claro que nada disso dá garantias, Buemi e Alguersuari que o digam; D’Ambrosio, que tem ambos, também.

Ok, Ricciardo e Vergne vieram apadrinhados pela Red Bull e, se não vingarem logo, verão a fila andar e perderão uma chance de ouro – e esse é o grande problema, para os pilotos, dos programas de desenvolvimento, que se afunilam demais quando se chega na F-1. Perez tem a soma do dinheiro mexicano com o apoio da Ferrari, e é o clássico exemplo do que Ron Dennis chamaria de “win-win situation”: rentável e rápido. E Di Resta, outro testado e aprovado, tem o suporte da Mercedes e traria um belo desconto no fornecimento de motores para a Force India.

Mas, se a F-1 do meio do pelotão é pautada pelo dinheiro, como explicar exemplos como o de Nico Hulkenberg e Kamui Kobayashi?

Hulkenberg talvez seja o piloto da F-1 atual com melhor currículo nas categorias de base do automobilismo, tanto pela quantidade de títulos, quanto pela maneira arrasadora como os conquistou. Tem patrocínio, mas é bem verdade que não o suficiente para competir de igual para igual com os endinheirados que o cercam. Fez por merecer sua vaga na equipe que vem gerindo da melhor maneira essa questão talento x dinheiro, e que, não coincidentemente, cresce ano após ano e acabou de comemorar seu melhor resultado no Mundial de Construtores em 2011.

Kobayashi tem um caminho inverso: sempre sem dinheiro, não tem grandes resultados na carreira. Porém, deu conta do recado logo de cara quando chegou na F-1, mesmo na fogueira. Virou aposta de Peter Sauber, homem acostumado a farejar talentos.

Há quem não preste muita atenção naquele piloto para o qual uma sexta colocação vale tanto quanto uma vitória, mas tem muito sapo querendo virar príncipe – e com plenas condições de fazê-lo – no meio do pelotão. E, sem alarmismos, tem muita equipe que ainda vê os valores que, se não fecham as contas do mês, pagam dividendos em resultados. E é assim, com campeões e jovens promessas, que se constrói um dos melhores fields de hoje e de amanhã.

15 comentários sobre “Talento ainda tem lugar no meio do pelotão

    1. Acho que ano passado ele evoluiu bem. Vamos esperar para ver o que acontece em classificação com esse pneu novo. A traseira está aguentando mais e isso pode ser bom para ele.

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  1. Ju, esse novo campo que vc citou, sobre o “talento e jovens campeões,” qual sua expectativa em relação as mudanças propostas para 2013/14 e a continuidade dessa aposta?

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    1. Isso daria um tratado, Wagner! Essa questão da juventude transcende a F-1, é uma realidade do esporte em geral. Quanto às mudanças de 2014, qualquer opinião agora seria especulação. O que podemos ver é as equipes se arrumando internamente para acertar a mão, pensando a longo prazo. Fica a expectativa de uma chacoalhada como a de 2009.

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  2. Não entendo onde que todo mundo ve qualidade nesse japones Kobayashi, o cara só conseguiu uma ultrapassagem no Button em interlagos com a toyota e depois disso se apagou, e o alemão se tivesse qualidade maior teria atraido mais patrocinios e teria se mantido na williams onde não teve resultados grandiosos para pagar seus dividendos foi batido pelo Rubinho.

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  3. O Kobayashi teve um ano de 2010 espetacular, não foi apenas a estréia com a Toyota em 2009. O GP do Japão de 2010 foi uma apresentação espetacular. Em Valência 2010 ultrapassou Alonso na última volta.

    Contra Kobayashi, pode-se dizer que 2011 foi bem pior que 2010. Teria ele regredido? Penso que teve um companheiro de equipe bem mais capaz, em Perez. Perdeu feio nos treinos classificatórios, e não brilhou como em 2010.

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    1. Talvez a equipe estivesse na verdade apostando quando no Koba em estratégia e no Perez em corrida livre. Para tenatra bons resultados com os dois tipos de abordagens. E como vimos o Kobayashi funcionou muito melhor para o time que tinha um carro 2011 com mais desvantagens as equipes do meio pelotão do que o carro de 2010.

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    2. “Contra Kobayashi, pode-se dizer que 2011 foi bem pior que 2010. Teria ele regredido?”
      Comparando:
      2010 – 12º – 32 pontos.
      2011 – 12º – 30 pontos.

      Praticamente estacionou.

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  4. Belissimo e equilibrado text, Julianne.
    Na lista dos “desempregados” de 2012 tem gente mais ou menos e gente que realmente deve tentar algo em outra categoria.

    Eu apenas acho que nesse grid atual, Rubens faria bem (nada contra Bruno)
    e Di Grassi deveria ter pelo menos uma chance numa equipe media.

    e poe o niponico na RBR em 2013! ( sou torcedor tbm!)

    Abr (o blog esta cada vez melhor)

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  5. Julianne:
    Seu blog é excelente, um dos melhores que conheço e sou seu leitor assíduo, mas é a primeira vez que comento. Você realmente gosta e entende de F 1. E seus posts com as detalhadas estatísticas comparativas ao longo do campeonato são um verdadeiro serviço de utilidade pública, mas não são a parte mais importante e sim suas opiniões e informações.
    Sou aficionado por F 1 desde o final da década de 1950 e concordo plenamente que este é um dos grids mais fortes da história da F 1, não apenas pela presença dos seis campeões. É preciso dar valor a toda essa nova geração que está aí. Não são apenas os grandes astros , a turma novata que está no meio também pilota muito: Perez, Kobayashi, Di Resta, Maldonado, Grosjean, Petrov, Vergne, Hulkemberg (apesar de ter sucumbido no geral ao experiente Barrichello, exceção maior feita àquele brilhareco em Interlagos sob condições atípicas, mas que terá uma segunda chance para honrar seu brilhante curriculum nas categorias inferiores) e até mesmo Bruno Senna, o que tem menos experiência, por ter começado tarde. Todos são muito rápidos e capazes de proporcionar grandes emoções, vide o desempenho honesto, seguro e tranquilo de Petrov em Abu Dhabi, em 2010, diante de Alonso, detonando um tri ao alcance de suas mãos. Ainda em Abu Dhabi, mas em 2009, Kobayashi levantou todo mundo ensinando como se ultrapassa ali naquela pista, ao “jantar” de novo uma de suas vítimas prediletas, o excelente Button. Citei esses dois momentos apenas como exemplo das proezas de que esses novatos são capazes, sem quaisquer deméritos àqueles dois grandes campeões.
    Continue nos brindando com os seus excelentes posts.

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  6. Julianne:
    Sou leitor assíduo de seu excelente blog, mas é a primeira vez que faço um comentário. Além das informações valiosas que você nos dá, aquelas detalhadas estatísticas comparativas entre os pilotos são muito interessantes também. Realmente, é fácil perceber que você gosta e entende do que faz.
    Aficionado por F 1 desde o final da década de 1950, concordo plenamente com você que o grid atual é um dos mais fortes da história da categoria em todos os tempos, não apenas pela presença dos seis campeões mundiais, mas também pela qualidade dos novatos todos, capazes de nos proporcionar grandes emoções, vide Petrov em Abu Dhabi em 2010, quando, com um desempenho honesto, tranquilo e seguro, detonou um tri que estava ao alcance das mãos de Alonso. Kobayashi ensinou em 2009 como se ultrapassa ali naquela mesma pista, “jantando” mais uma vez sua vítima predileta, Button. São apenas dois exemplos das proezas que essa turma atrevida do meio do pelotão pode fazer. Perez, Kobayashi, Di Resta, Maldonado (sim, ninguém sem talento levaria aquela carroça do ano passado ao Q3 3 vezes, superando o experiente Barrichello), Vergne, Grosjean, Petrov e até mesmo Bruno Senna (que começou tarde no automobilismo) são todos muito rápidos, combativos e pilotam muito. Hulkemberg – que surpreendentemente no geral sucumbiu à experiência de Barrichello, exceção maior feita àquele brilhareco em Interlagos em condições atípicas, terá uma nova chance de honrar seu excelente currículo nas categorias inferiores e poderá se redimir. Os seis campeões vão compor uma nova Era de Ouro, comparável àquelas de Clark, G. Hill, Surtees, Brabham e Stewart (este ainda em começo de carreira, mas já desafiando os outros) e Piquet, Senna, Prost e Mansell. Penso que é impossível comparar os grandes ases de diferentes gerações, daí não haver espaço para saudosismos. Todos são fantásticos. Vamos curtir as emoções que vem por aí e prometem ser muitas.

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  7. Ótimo post!
    Ultimamente temos a atencao da midia voltada demais a “pilotos pagantes”, como se estes não tivessem habilidade para estar na F1, com rarissimas excessoes – caso de indianos e bruno senna que claramente só conseguiram vagas por dinheiro – a F1 é celeiro dos melhores pilotos do mundo, by far de qualquer outro campeonato, a Indy que o diga.
    Interessante ver perdedores como Nelsinho Piquet, que teve um excelente “paitrocinio” e nao conseguiu nada na F1 a nao ser manchar o nome da familia, dizer que qualquer um dirige um F1 hoje em dia. Concordo que em HRT e Williams(hoje em dia), de fato isso pode acontecer. Agora, nas 8 principais equipes, com 16(!!!) pilotos, meu caro … tem q ser bom, tem q ser top, tem de estar entre os melhores do mundo na arte de guiar em circuitos de verdade, e nao em corrida de cavalos(ovais da Indy/Nascar).

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