Williams “a muerte” com Chávez

Imagine um país socialista, cuja grande riqueza é o petróleo. Não que o povo veja qualquer reflexo disso, uma vez que passa por uma grave crise financeira. Financeira e política, já que a liberdade não é exatamente o sentimento que um governo autoritário, há 13 anos nas mãos de um ditador que controla com pulso firme a imprensa, promove.

Imagine que esse país resolva fazer propaganda colocando um piloto na F-1 – isso mesmo, em uma das mais capitalistas das modalidades, a qual, como diria Frank Williams, é um esporte apenas por duas horas no domingo; no restante apenas um negócio – e que isso custe aos cofres públicos mais de 80 milhões de reais anuais.

Não é à toa que Pastor Maldonado se tornou o centro de uma briga política na Venezuela. Em ano eleitoral e com Hugo Chávez enfrentando problemas de saúde, o financiamento da vaga do piloto na Williams é um dos argumentos da oposição contra o ditador.

A briga não é de hoje, mas ganhou um novo capítulo com a divulgação de um documento de cobrança da Williams, ainda que sem veracidade confirmada, dirigido à petrolífera estatal venezuelana PDVSA no valor de 29.400 libras, que seriam referentes à “compra” do assento e ao enorme patrocínio estampado no carro.

Uma conta alta demais para uma autopromoção, não da petrolífera, que não tem nenhum acordo técnico com a equipe, ao contrário das rivais diretas que estão na F-1, mas de um regime que dá sinais de estar prestes a ruir.

Em outubro, o congressista Carlos Ramos já havia questionado oficialmente o acordo, que não haveria passado por aprovação no Congresso e seria, portanto, ilegal. Na época, conversei com Maldonado, que preferiu chamar tudo de politicagem.

“O que acontece na Venezuela é que esse é um tema político, não esportivo. Tem eleição e temos um problema político que é próprio nosso, da Venezuela. É algo típico de nosso modo de ser. Há partidos muito extremos e a oposição disse isso na assembleia. Mas não me afeta em nada. Sigo fazendo meu trabalho, que não é fazer política.”

Mas é claro que Maldonado sabe do perigo que sua carreira corre caso a oposição tome o poder ou pelo menos coloque em xeque o patrocínio. Mais do que isso, a Williams deve estar acompanhando a situação de perto. Afinal, com um orçamento anual em cerca de 80 milhões de libras – ou pouco menos de 220 milhões de reais – perder o “talento” de Maldonado, ou melhor, os cerca de 37% do dinheiro gasto pela equipe por temporada trazidos pelo venezuelano, seria um duro golpe para quem já não anda bem das pernas.

Coluna publicada no jornal Correio Popular.

17 comentários sobre “Williams “a muerte” com Chávez

  1. Concordo que deve ser discutido dentra da Venezuela a validade ou não desse “patrocínio estatal” para um piloto. E essa discussão/questionamento, pelo que explicou a matéria acima já começou, indicando assim que essa tal “ditadura” não é tão forte assim. Pois nesse ponto eu discordo. Já estive na Venezuela, Chaves tem seus pontos negativos e autoritários? Vários! Porém é inegável o acesso que ele deu nos ultimos anos a classe mais pobre da população e itens mais básicos como infra estrutura. A situação de lá é a ideal e maravilhosa? Claro que não! Longe disso! Mas achar que os ditos governos democratas de antes, que na verdade eram oligarquias que sempre governaram o pais e sabemos bem a m… que era e que não havia expectativa nenhuma de melhora. Tanto é que o povo se cansou e colocou no poder alguem de uma linha diferente (Chaves)… Nada é por acaso.

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  2. Quando se fala em piloto pagante, a primeira imagem estereotipada que surge é a de um “playboy” que tem a aventura financiada por algum parente, dono de uma empresa endinheirada.

    Mas ter a aventura financiada com dinheiro oficial de um país pobre do Terceiro Mundo, é no mínimo lamentável!

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  3. Então é por isso que Valteri Bottas vai treinar as sextas-feiras, se der alguma cousa errada com o patrocinador de Maldonado ele já terá kilometragem suficiente para poder assumir o FW34 ao lado de Senna.

    Parabéns pelo blog, muito bom!

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  4. julianne cerasoli,

    Seu blog é um dos melhores, mas Venezuela nunca foi socialista. É certo que Chavez é autoritário. Mais autoritário que ele foram as democracias anteriores. Mas eu nunca entendi (e tb não procurei fazê-lo) o porquê de a PDVSA patrocinar maldonado. Propaganda do Estado venezuelano? eu não sei …

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  5. Eu não acho que o patrocínio da PDVSA, nos valores que foram divulgados, traga qualquer tipo de benefício para a Venezuela. Isso, em si, já é argumento suficiente para a matéria. Não precisava se expor com essa coisa de socialismo ou ditadura, quando na verdade a Venezuela não é nem um, nem outro. Chavez tem seus arroubos autoritários? Sim, claro. Mas não deu golpe de estado para ascender ao poder nem desrespeitou a opinião popular quando derrotado em referendo. Não é o mesmo que se pode dizer de diversas “democracias” espalhadas mundo afora…

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  6. Meu Deus, tem gente defendendo o regime de Chaves?!?!?!? Alguém que fecha autoritariamente meios de comunicação para calar críticas quer, no mínimo, esconder alguma coisa errada. Quem não deve…
    Mas quanto ao assunto do blog (Maldonado), não acho que seja um piloto ruim. Nem ele e nem outros que chegam a F1 pagando pelo assento. Infelizmente é a nova ordem do esporte, com o dinheiro tendo um peso cada vez maior. Equipe nenhuma vive sem dinheiro, muito menos tem chance de se destacar se o orçamento não for representativo. Na falta de grana, coloca-se um piloto talentoso ao lado de um pagante, exatamente como vivem a maioria das categorias de Endurance no mundo (e no Brasil, a GT por exemplo).
    No entanto, se o Eike Batista quiser investir quantos bilhões lhe forem interessantes no Bruno Senna, o dinheiro é dele e ninguém tem nada haver com isso. Quando o dinheiro é público, porém, e o país possui outras prioridades (saúde, educação, segurança, etc.) de fato poderia ser melhor empregado.

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    1. “Meu Deus, tem gente defendendo o regime de Chaves?!?!?!? Alguém que fecha autoritariamente meios de comunicação para calar críticas quer, no mínimo, esconder alguma coisa errada. Quem não deve…” – sobre isto, assista ” A Revolução Não Será Televisionada”.

      Sobre os patrocínios, sempre é preferível que se diga que o dinheiro vá para coisas mais necessárias. Mas a F1 é um esporte caro, metade das equipes tem pilotos pagantes e Bernie está cagando para isso.

      Uma pena!

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  7. Ju, post de qualidade by Cerasoli! Parabéns!!! É por tudo isso, que a F1 é um esporte tão apaixonante, com seus meandros e competição. A palavra de Frank Willians é perfeita, ” a F1 é esporte apenas em duas horas no domingo”. Tenho uma opinião ainda mais profunda sobre capitalismo e socialismo. Ambos sistemas são adiministrados por “seres humanos”, que são falhos e corruptíveis, que possuem egocêntrismo exacerbado, portanto, o problema não é o sistema, mas sim o ser humano, pois sabemos que existem ditadores democratas, e democratas ditadores. Sabemos que além de um esporte, a F1 é o ganha pão de muitas pessoas, e o dinheiro faz as coisas girarem, portanto, financiamento ilícito, é o problema! Chaves, assim como muitos democratas calhordas -parafraseando Mario Quintana- “demagogos democratas ou autoritários passarão, pilotos de F1 passarinho!”, são a parte menos importante da história!

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    1. “Tenho uma opinião ainda mais profunda sobre capitalismo e socialismo. Ambos sistemas são adiministrados por “seres humanos”, que são falhos e corruptíveis, que possuem egocêntrismo exacerbado, portanto, o problema não é o sistema, mas sim o ser humano, pois sabemos que existem ditadores democratas, e democratas ditadores.”

      Wagner, seu comentário foi de uma lucidez tremenda.

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