Ferrari em marcha lenta

Na base do "faça você mesmo", Alonso até foi à beira da pista dar uma espiada - e filmada - nos rivais

Em condições normais, nem Fernando Alonso, nem Felipe Massa devem lutar pela vitória no GP da Austrália, daqui duas semanas, na abertura do Mundial de F-1 de 2012. Essa é uma previsão que se pode fazer com certa segurança após dez dias de testes de pré-temporada, que acaba amanhã. Mas não quer dizer necessariamente que este será mais um ano de vacas magras para a Ferrari.

O time italiano tinha de arriscar. Atrás nas últimas três temporadas, resolveu radicalizar, procurar um caminho diferente do usado até o ano passado e buscar um atalho para desafiar a Red Bull. Enquanto isso, os atuais campeões do mundo, assim como a McLaren, que se mostrou a rival mais próxima do time de Sebastian Vettel no final do ano passado, apenas trabalharam na continuidade de seus bons carros.

Claro que, neste ano, o regulamento proíbe o que seria uma das principais armas da Red Bull, o difusor soprado, conceito fundamental do carro de 2011. Mas a boa base permite uma adaptação mais rápida em comparação com um projeto iniciado do zero.

E é essa lentidão que foi a marca da pré-temporada da Ferrari. Por trabalhar com uma nova filosofia, o que inclui o reposicionamento de diversos componentes escondidos pela carenagem e a utilização de materiais inovadores na construção das peças, além de uma suspensão dianteira inédita na F-1 desde 2001, Alonso e Massa passaram mais tempo tentando desvendar o novo equipamento do que propriamente avaliando o quão rápido ele pode ser.

A Ferrari teve mais sistemas para checar, foi mais surpreendida por alguns dados/reações do carro que não batiam com o previsto pelas simulações do que os rivais simplesmente porque se viu na necessidade de assumir um risco maior. Com isso, o desenvolvimento inicial do carro, mais lento, está de fato comprometido em relação às equipes com que luta diretamente. Prova disso é que apenas nesta sexta-feira, no antepenúltimo dia de testes, o carro passou por sua primeira simulação de corrida, algo em que os rivais vêm trabalhando desde a semana passada.

Mesmo se tiver acertado no projeto – algo que ainda não dá para saber – faz sentido que a Scuderia comece o campeonato devendo em relação aos rivais. Há quem lembre da McLaren, que parecia perdida na pré-temporada de 2011, e chegou em segundo lugar logo na primeira prova. Mas o problema era localizado nos escapamentos, de mais fácil solução.

Por enquanto, tudo indica que a temporada vai começar antes que o F2012 tome forma. Resta saber se, quando isso acontecer, não será tarde demais.

Coluna publicada no jornal Correio Popular

19 comentários sobre “Ferrari em marcha lenta

  1. tenho a impressão de que a aerodinâmica é o problema mais grave do F2012. conceberam o carro com os escapamentos voltados para a entrada de ar dos freios, comprometendo a parte detrás do carro, que ficou volumosa demais. e pouco tempo depois copiaram a solução do RB8. que funcionava com a traseira mais seca.

    agora, adrian newey aparece com o RB8-B, cuja parte traseira é mínima, deixando de lado o conceito que foi copiado pela ferrari.

    ferrari passou três semanas de testes apenas adaptando o conceito aerodinâmico ruim do F2012 às idéias dos outros, enquanto os outros estão várias etapas no processo de desenvolvimento dos seus carros.

    e isso tudo mesmo os italianos tendo desistido de evoluir o carro do ano passado cedo demais para se concentrar no carro desse ano. não é iniciando a produção de um carro antes dos outros que vc consegue fazê-lo melhor, é simplesmente tendo boas idéias, mesmo que tardias.

    em poucas palavras: prevejo um desastre total para os vermelhos em 2012.

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  2. Muito bom post!

    Realmente parece que essa é a verdade. Pelo meu achismo, tinha em mente um fiasco quando vi o bico do carro, praticamente retilíneo, enquanto a maioria dos outros eram mais harmoniosos. Enfim, achismo.

    A Ferrari desde que começou a era Domenicali é aquela que copia, não mais aquela da era Schumacher que saía na frente, e todos tinham que ir atrás. Essa sempre está atrás, mas depois de uma ou outra atualização, consegue chegar (depois de 4 ou 5 corridas, no geral).

    Se isso se confirmar nesse ano, já passou a hora desse staff pegar o boné.

    Abraços!

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  3. Não acredito que a Ferrari tenha um carro tão ruim assim, concordo que pode demorar mais a conseguir o melhor acerto, já que o projeto é novo e não uma evolução do projeto anterior, casos de Red Bull e Mclaren, observando esse último treino do Alonso onde ficou muito perto do Vettel, mesmo com pneus duros, podem indicar uma evolução. Lembrando que em momento algum em toda pós-temporada a Ferrari saiu para buscar tempo com um acerto definitivo. Bem, melhor errar por tentar superar a RBR, que continuar brigando para ser segunda força!

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  4. Ju, uma curiosidade. É possível saber se mesmo após terminado os testes em pista, os dados ainda continuam sendo avaliados na fábrica, ou essa é uma norma proibida pela FIA? Sempre tive essa dúvida. Se puderem trabalhar em fábrica, mesmo com o atraso, os italianos pelo grande contigente, pode tentar achar respostas nessas duas semanas, veremos.

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    1. Há algumas limitações para o uso de túnel de vento e uma relação entre a quantidade de horas do túnel e do CFD (computadores que medem os fluxos aerodinâmicos) e os testes em linha reta que podem ser feitos durante o ano. No entanto, o controle disso é difícil.
      Ou seja, os carros continuam sendo desenvolvidos a passos largos na fábrica. O que as equipes tentam nos testes é apurar a correlação entre pista e túnel de vento para poder fazer a “lição de casa” da melhor maneira possível. Mas isso não garante que veremos uma Ferrari bem na Austrália: além do fato dos rivais continuarem a se desenvolver, a simulação tem sido um ponto falho da equipe, cuja queda coincide com a limitação nos testes.

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      1. valeu Juli, é que acompanho alguns blogs inclusive o seu esta salvo em meus favoritos, só nao comento muito, fico na minha, obrigado mesmo.

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  5. Em que pese a Lei do Silêncio imposta pela equipe, Alonso já declarou que a Ferrari começará o ano sofrendo, conforme noticiam o as.com motor e o marca.com Aliás, no Marca tem um interessante comentário de um internauta reclamando que, ao comparecer a um jogo de futebol, na véspera de fazer seus treinos, Alonso mostra o quanto ele está focado. . .

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    1. Sim, ele foi brevemente entrevistado pelo BarçaTV na saída do jogo. Disse que a Ferrari está “um pouco pior que Messi e Iniesta”, em tom de brincadeira.
      Sobre a falta de foco, na semana passada foi Vettel quem esteve no Camp Nou. Não sei se alguém achou ruim.

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      1. Eu me divirto com a “brigalhada” ali naqueles sites entre os alonsistas e os antialonsistas. Os espanhóis são muito passionais. Acho que no comentário a que me referi o seu autor quís criticar Alonso. Mas eu fiquei pensando, a partir do fato, se Alonso não teria ido ao jogo realmente para “arejar” a cabeça, já que o “imbroglio” das novidades na Ferrari na realidade pode ser tão grande que a sua solução estaria mesmo totalmente a cargo dos engenheiros, e restaria pouco espaço para os pitacos dele, no caso de acompanhar de perto. Ele já fez o 2o. melhor tempo nos treinos desta manhã, embora esses resultados contenham uma certa pitada de surrealismo, a meu ver, pois uma Caterham na frente de uma Mercedes. . . mesmo que a primeira tenha dado um salto de qualidade! Por outro lado, embora ainda seja cedo, seria já um sinal de uma leve insatisfação de Alonso com o rumo das coisas? Bom, no fim das contas poderia apenas estar se divertindo…

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  6. Ju, não sei se é pertinente ao post e também se pode ser precipitado, mas equipes como Ferrari e Mercedes, que possuem grandes cofres para investir, vc consegue ver uma justificativa para projetos falhos, mesmo possuindo tanto investimento? Vc mesma disse da complexidade de um carro de F1, mas vemos essas equipes construindo carros que no fim das contas, estão perto, mas raramente alcançam o topo. Seria um problema localizado, ou seria a gestão, a mentalidade de trabalho? Sempre tive minhas ressalvas sobre Ross Brawn, vc acha que ela é tudo isso que falam, ou falta a Mercedes um grupo de trabalho mais coeso? Qual a influência de Shumacher na Mercedes, positiva ou negativa?

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    1. São perguntas bastante complexas, Wagner, teria que desenvolver isso em um outro post, mas lembra quando falo que muitas vezes o estilo de um piloto pode ser mais adaptável a um tipo de regra e como isso pode beneficiá-lo frente a outro tão talentoso quanto ele? Hoje a F-1 é aerodinâmica, então quem tiver o melhor grupo de aerodinamicistas leva vantagem. E falo em grupo porque, assim como é necessária uma boa interação carro-piloto, com ambos trabalhando no mesmo sentido, o mesmo ocorre em um time de F-1.
      Já que você perguntou de Brawn, vale o exemplo. Quando falam na Ferrari de Brawn, Todt e Schumacher (muitos esquecem de Byrne!) e culpam exclusivamente Domenicali, Tombazis e Costa pela queda da equipe, esquecem que aquela F-1 tinha gastos exorbitantes e testes ilimitados – e a Scuderia tinha Mugello e Fiorano à disposição. Hoje, vale mais o investimento em simulação, as exigências são outras, e não é garantido que a Ferrari continuaria a mesma, mesmo se mantivesse as peças.

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      1. E sobre Shumacher, vc acha que o status de campeão, é benéfico? Vc acha que Hulkenberg, ou Sutil por exemplo, fariam melhor que o alemão? Ou seria mesmo uma questão da equipe não estar oferecendo um carro de qualidade?

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  7. Pra mim isso é blefe, não acho que a ferrari esteja mal assim, o pat fry deu uma entrevista falando que eles com certeza n brigaram pelo podio na primeira corrida, mas ele deu essa entrevista rindo, pra mim é blefe.

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  8. Julianne,

    Posso fazer uma colocação a respeito do que realmente é o CFD?
    CFD como sabe é a abreviação do inglês “Computational Fluid Dynamics”. Mas ele é definido mais como uma ciência do que exatamente um “computador”.

    O que existem são softwares (Posso citar alguns como Fluent, CFX, CFD++ e até códigos abertos que rodam em ambientes Linux) que utilizam essa ciência e os modelos matemáticos desenvolvidos para solucionar as equações conhecidas da engenharia a muito tempo (No caso, mecânica do fluídos).

    Um computador pessoal em casa é capaz de rodar esses softwares e no caso de geometrias mais complexas como o F1, é necessário o uso de super computadores para as simulações serem processadas em menor tempo.

    Resumindo:
    – CFD é uma ciência, não um programa ou um hardware.
    – Existem softwares desenvolvidos utilizando o CFD e a mecânica dos fluídos como base teórica além de uma linguagem de programação para elaborar os programas.
    – Esses softwares são instalados nos super-computadores das equipes.
    – Para realizar a simulação, a equipe “desenha” o carro no computador, gera uma malha computacional com a geometria, insere as condições de contorno (velocidade do vento, por exemplo, dentre outros parâmetros) e ai sim o software irá realizar o cálculo do escoamento ao redor da geometria (pode ser o carro inteiro ou apenas uma asa, depende do que a equipe quer).
    -Com o escoamento calculado, é possível verificar o downforce que as asas estão exercendo, o arrasto gerado pelo carro, pontos de geração de vórtice (que acho que o F2012 tem de sobra, inclusive no bico) dentre outros.

    Espero ter ajudado, já vi Burti, Di Grassi e claro o Galvão usando definições erradas do conceito, e como esse blog é técnico, acho interessante passar.

    Obrigado!

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    1. Ótimo, Bruno. Às vezes tentamos dar uma simplificada nas explicações a acabamos passando uma ideia errada do que realmente significam alguns termos. É sempre legal aprofundar nesses temas interessantes.

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      1. Se for falar um dia de CFD, posso dar uma ajuda, faço mestrado na área, vou tentar postar mais aqui, mas o TotalRace ficou tão famoso que passou a ficar bloqueado no meu serviço (HAHAHAH)

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