“Fazer número” no grid também é uma arte

Há quem possa pensar que eles são um zero à esquerda. Geralmente aparecem nas transmissões só de relance: batendo ou rodando, ou encostando com um problema técnico, ou praticamente parando para dar espaço aos mais rápidos. A vida de retardatário é cheia de complicações e exige qualidades diferentes em relação àqueles que disputam a vitória.

Tenho uma teoria em formação a respeito de como a qualidade dos carros afeta a briga entre companheiros de equipe: assim como máquinas excelentes tendem a nivelar os resultados entre os pilotos, os bólidos do fundão também o fazem. Afinal, antes de fazer a diferença para andar mais rápido que o vizinho de box, o piloto da nanica tem de se preocupar em manter-se na pista e a pilotagem se torna uma série de correções, ao invés de tentar ser o mais rápido possível. Isso, se o carro não se despedaçar, como descobriu Mark Webber em seus tempos de fundo de pelotão.

Depois de se segurar na classificação, o piloto do fundão vive um segundo desafio – ainda que a dificuldade com o carro não desapareça como um passe de mágica: sim, ser retardatário é uma arte. Lembro-me da estreia de Daniel Ricciardo pela Hispania, no GP da Grã-Bretanha. Piloto acostumado às vitórias nas categorias de base, tendo sido apoiado pela Red Bull desde a adolescência, se impressionou com a dificuldade de dar passagem: em determinados momentos da prova, perdia cerca de 3s a mais que o companheiro Vitantonio Liuzzi. Por volta. No final das contas, acabou levando uma volta até do italiano.

Isso porque, mesmo se tiver a sorte de encontrar os mais rápidos em uma reta, o retardatário perderá tempo – tanto naquele trecho, quanto nas curvas seguintes: ao sair da trajetória e tirar o pé, ganha sujeira e perde temperatura nos pneus, o que demora algumas curvas para se normalizar. E olha que ceder passagem em uma freada após uma reta é o melhor cenário possível. Imagine a vida de retardatário em Mônaco, por exemplo.

Não quer colocar temperatura em um pneu de carro de nanica seja tarefa das mais simples, uma vez que ele possui menor carga aerodinâmica, fator primordial para grudar o carro no chão. Pneus sem seu aquecimento ideal e sujos vão dificultar ainda mais a missão de manter-se na pista – e potencializar as cenas de rodadas e batidas que, tiradas de contexto, podem parecer coisa de “braço duro”. Afinal, acontecer algo do tipo com Vettel é mais raro, não é verdade?

Não é à toa que os times do fundão têm seus macetes, especialmente em relação à estratégia. Afinal, fazer a primeira parada antes de ser pego pelo primeiro pelotão e, principalmente, evitar a qualquer custo ficar na mira do pelotão intermediário, esse sempre unido e envolto em disputas ferrenhas, é uma maneira de minimizar a perda, uma vez que o tempo gasto como retardatário, saindo da frente, certamente superará aquele decorrente da não utilização de uma estratégia otimizada.

Alguersuari foi punido por esta segurada em Hamilton em Abu Dhabi ano passado

Na tentativa de minimizar estas perdas, alguns pilotos passaram dos limites na última temporada. Quem não se lembra do absurdo de Maldonado em Abu Dhabi? Para evitar isso, existem as bandeiras azuis. A regra diz que um piloto deve ceder a posição antes de receber a terceira bandeira. Mas sempre o número de reclamações e mãos para o alto é maior que as punições, ainda que os comissários tenham prometido rigor maior. Afinal, não é porque você só tem condições de lutar contra seu companheiro pelo penúltimo lugar que vai aceitar sair perdendo. Na F-1, não tem ninguém contente em apenas fazer número.

7 comentários sobre ““Fazer número” no grid também é uma arte

  1. Realmente. Podem não disputar corridas para vencer, podem não ter os melhores pilotos, mas já por estarem na F1, com certeza, eles merecem algum respeito por terem lá as suas habilidades.

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  2. Sempre achei mais difícil pilotor no “fundão” do que na ponta. Os melhores carros são dóceis (dá gosto de ver a condução suave da Red Bull, por exemplo), enquanto os do final de grid, exigem luta constante contra o carro, contra a pista e contra os demais corredores, tudo sem perder a habilidade de dirigir de forma rápida (se é que isso é possível).

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  3. Acredito que andar no fundão, pode também ser uma boa escola, pois o piloto acaba por aprender:
    – como se posicionar na pista, para não atrapalhar os carros mais rápidos e no futuro, se tiver um bom carro, como se posicionar na pista para não deixar o outro passar.
    – o seu nível de atenção é muito maior, pois o carro pode se desmontar a qualquer momento.
    – aprende a conservar o carro, pois os recursos são poucos.

    E se ele conseguir mostrar algum resultado, só prova que é um bom piloto e merece um carro melhor. Vide o que já ocorreu com o Vettel na Toro Rosso e mesmo com o Senna na Toleman.

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  4. Ju, belo texto. Vc nos faz pensar a F1 por outro aspecto, onde andar rápido sem atrapalhar os ainda mais rápidos é uma constante. Pensando sobre o aquecimento, a sujeira nos pneus, realmente é um martírio prazeroso para esse caras. Ledo engano pensar que esse pessoal não pode influenciar na briga pela ponta, atrasando um ponteiro, estragando uma volta rápida, decidindo um título, como aconteceu com Alonso em 2010(diga-se de passagem, mesmo não sendo obrigado a dar passagem, mas Petrov era mt mai lento…), etc. Vendo seu texto, volto na época onde a pole era disputada com todos os carros na pista, e aí imagina como ficava a cabeça de todos, ponteiros e figurantes de luxo… Nesse caso as poles de Senna eram ainda mais geniais!!! E o que dizer de Senna em 88, sem nenhum retardatário, perdendo uma curva, tentando dar uma volta no único retardatário que ainda faltava, hehe, Prost? Ju, vc saberia dizer se alguma vez na história da F1, algum piloto ja protagonizou a façanha dar uma volta em todos concorrentes? Novamente belo texto!

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    1. Não lembro de cabeça. o que me vem à mente é o Hamilton em Silverstone-2008, deu uma volta no quarto e chegou um minuto na frente do segundo numa pista encharcada, em que só dois pilotos não saíram da pista em momento algum.
      Agora, falando em retardatários, tem a clássica do Schumacher com o Coulthard na Bélgica-98. Mas essa já é outra história…

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      1. Aí eu lembrei da lição do Hakkinen no Shumacher, e o sangue frio do Zonta depois da Eau Rouge em 2000.

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