GP da Austrália por brasileiros, espanhóis e britânicos: “Se o Button ganha, a cabeça pira”

Novidade: o apresentador Simon Lazenby, Martin Brundle e Damon Hill no pre-show da Sky

O GP da Austrália não marcou apenas a estreia da F-1 em 2012, como também das emissoras Antena 3, na Espanha, e Sky Sports, na Grã-Bretanha. Para os espanhóis, nada de novo, pois Antonio Lobato manteve a mesma equipe mesmo após os direitos de transmissão mudarem de mãos pela terceira vez em cinco anos. Para os britânicos, uma receita curiosa: metade das corridas serão transmitidas ao vivo em TV aberta (BBC) e fechada (Sky), lembrando que os canais a cabo não são tão populares quanto no Brasil. As demais poderão ser vistas na íntegra na Sky e em um compacto de melhores momentos na BBC. Foi o caso desta primeira etapa, que teve um aumento em relação a 2011 de 100 mil espectadores, com pico de 3.2 milhões… na BBC!

A corrida na Sky foi comandada por David Croft, um narrador de verdade, ao contrário da roupagem usada pela BBC ano passado. Vindo das transmissões da rádio da Beeb, deu um tom completamente diferente, ainda que ao lado de Martin Brundle, mais confortável no papel de comentarista.

Uma novidade interessante da Sky foi colocar trechos de entrevistas dos pilotos sobre a expectativa da prova em um quadro junto da volta de apresentação. Nada como deixar os personagens abrirem seu espetáculo.

Os espanhóis destacam as opções de Alonso, largando em 12º. “Ele terá pneus novos, com mais aderência na largada”, se anima Marc Gené, agora mais solto sem a companhia de Pedro de la Rosa. Ao seu lado, Jacobo Vega se preocupa com Jean-Eric Vergne, de pneus médios. “Vai ter de passá-lo logo.”

Os britânicos preveem tensão entre Hamilton e Button na primeira fila. “Eles sabem que esse carro pode ganhar o campeonato”, diz Brundle. E Galvão Bueno explica por que isso aconteceu. “Eles estão na frente porque tiveram de mudar menos o carro”, referindo-se ao bico harmonioso do MP4-17. Luciano Burti fica em cima do muro quando o assunto é a briga interna da McLaren. “Hamilton, na pole, é o favorito, apesar de Button na corrida ser melhor.”

Os brasileiros valorizam o grid mais competitivo que ano passado. “É uma pista que aproxima os carros e vemos a pior posição de largada da Red Bull desde Monza 2010 e a melhor de Schumacher desde o retorno”, resume Reginaldo Leme.

Muita coisa acontece na largada, e cada um segue com seu foco. “Boa largada de Button”, diz Lobato, ajudado por seus comentaristas – Gené destaca Alonso e Vega, o mau começo de Grosjean. E o narrador completa: “Webber muito mal como de costume.”

Croft destaca Schumacher e vê que uma Toro Rosso “se perdeu” com Bruno Senna. Galvão Bueno diz, ao final da primeira volta, que “tinha achado mesmo que era o Bruno” na confusão. Na hora da largada, destacou negativamente as Ferrari – “olha onde eles foram parar” – e Rosberg. “Olha como os carros estão nervosos, uma situação com a qual Vettel não está acostumado.”

Na Antena 3, Lobato não gosta de ver Alonso perto de Maldonado. “Não é uma boa companhia nestas primeiras voltas nervosas”. E pergunta: “Como Massa conseguiu ganhar seis posições?”

As atenções se voltam para as disputadas primeiras voltas. E todos se impressionam com a manobra de Vettel para cima de Rosberg. “Esse alemão não é mole”, diz Galvão. “Esse é o homem que dizem que não sabe correr, que só ganha da pole. Eu não acho”, completa Brundle.

Mais atrapalhados, Grosjean e Maldonado disputam e o francês abandona. “Incidente de corrida”, acredita Gené. “Acho que Grosjean tentou defender uma posição já ganha pelo Maldonado e calculou mal.” Logo de cara, Brundle acredita que o piloto da Lotus não viu o rival da Williams. Depois do replay, volta atrás. “Ele deu espaço e Maldonado, rudemente, bateu.” Já Galvão se mostra um pouco perdido. “Você viu Maldonado para cima do Grosjean? Era o último de que ele esperava sofrer pressão. Agora olha ele para cima do Alonso. Que F-1 é essa?”, pergunta, ainda que o espanhol estivesse ultrapassando o venezuelano, enquanto Burti classifica o abandono do homem que largara em terceiro como “azar”.

Gené se impressiona com o ritmo das McLaren, “de outro mundo, ainda melhor que na classificação”, mas não tanto como com a performance de Alonso. “Ele me disse que, se tudo desse certo, seria sexto, e olha onde está. Que bonito vê-lo lutando com esses carros”, diz o piloto de testes da Ferrari. “Alonso é mais lento, mas nada como temíamos”, define Brundle. “A questão são os pneus, porque em teoria eles vão parar mais vezes”, aposta Croft.

O narrador informa que, quem adotar a estratégia de duas paradas deve fazer o primeiro pit stop próximo da volta 19. Para Gené, na 16/17. “Massa, que geralmente é leve com os pneus, está sofrendo já na volta 10. Vai ter de fazer três”, estranha o espanhol.

Falando em Ferrari, o trio da Globo trata de criticar o F2012. “O único ponto positivo é a confiabilidade. É inadmissível fazer um carro tão ruim”, brada Galvão. “Não tem como consertar, há algo errado com o conceito”, completa Burti. “Quem deve estar rindo a toa é o Aldo Costa”, alfineta Reginaldo, referindo-se ao projetista sacado ano passado pela equipe, hoje na Mercedes.

Falando no time alemão, Schumacher aparece escapando na frente de Vettel. Gené crava na hora. “Acho que é câmbio”. Brundle primeiro aposta em problema hidráulico, mas depois vê que a aceleração continua e muda para transmissão, “problema que ele devia ter antes de sair da pista”. Para Galvão, “Schumacher passeou na grama e acabou mexendo com a estrutura do carro”, ainda que Burti avise: “tive a impressão de que foi antes.” 

O comentarista britânico não se conforma com o ritmo da Mercedes. “Rosberg deve estar muito decepcionado em estar sendo pressionado por uma Ferrari. Acho que eles focaram na classificação com todos os seus apetrechos e apostaram em uma sétima marcha que não funcionou na corrida. Esperavam que fossem controlar da ponta.” Para Burti, o fato da diferença entre Mercedes e Ferrari ter caído tanto entre a classificação e a corrida mostra que “problema do carro é a asa móvel”.

Quando Maldonado passa Massa com facilidade, o venezuelano, que havia sido chamado, minutos antes, de “exagerado” por Galvão, quando foi o brasileiro que o passou, agora tem nas mãos um carro que “está andando, hein!”

Falando sobre a ponta, Brundle imagina se “Lewis não está economizando pneu, ainda que seja um contraponto”, e observa que, “assim que se livrou de Schumacher, o ritmo de Vettel é igual ao das McLaren.”

Não percebe, assim como os brasileiros, que Alonso superou Rosberg nas paradas. Os espanhóis, claro, não falam de outra coisa. E Gené não para de repetir que o ritmo do compatriota é “incrível” e até se empolga com a “perseguição” do piloto da Ferrari a Vettel, “mas não nos enganemos. Seu ritmo não é para lutar com as Red Bull, seus rivais são Maldonado, Kimi e as Sauber”.

Na Sky, Ted Kravitz observa que a opção de Alonso pelos médios e seu bom ritmo fez com que “todos o copiassem”. Voltando da parada, Webber encontra Vergne, em sua primeira corrida pela Toro Rosso, e passa fácil. “Ele decidiu ceder porque o último que não fez isso em uma Toro Rosso não está mais na equipe”, Brundle lembra da demissão de Alguersuari.

Kimi Raikkonen também chama a atenção e causa risos quando reclama das bandeiras azuis, pensando que eram para ele. “No rali não tem disso. Ele ficou bravo”, Lobato se diverte. “Temia que ele estivesse enferrujado, mas está indo bem”, aponta Brundle. “Quem sabe o que ele conseguiria fazer com uma classificação normal?”, imagina Croft. Na Globo, questionam o finlandês. “Ele costuma fazer muitas voltas rápidas. Isso é coisa de piloto rápido, mas emocionalmente instável”, opina Reginaldo, enquanto Galvão, meio em tom de brincadeira, diz que o contrato de Kimi “deveria dar mais dinheiro por cada volta mais rápida.”

A corrida de Perez impressiona a todos. “Ele está frustrando alguns campeões do mundo hoje”, diz Brundle. Galvão e Reginaldo não se surpreendem. “A Sauber ano passado colocou Kobayashi no pódio”, diz o narrador. “E Perez pontuou também. Depois foram desclassificados”, completou o comentarista. Na verdade, o mexicano foi sétimo e o japonês, oitavo.

Burti acredita que a Ferrari “bobeou” ao colocar pneus macios no carro de Massa, enquanto Gené não se conforma com o desgaste “insólito” dos Pirelli do brasileiro. Já os britânicos observam que a corrida de Hamilton foi prejudicada porque “teve de esperar Button parar e acabou entrando no tráfego, o que foi muito ruim para ele.”

Os brasileiros, por outro lado, elogiam Button, que “prefere preservar seus pneus no início e forçar no final.” Com a câmera focando a namorada de Hamilton, Brundle até se perde. “Lewis só deve estar querendo voltar correndo para os braços dela, que está linda hoje. Do que estava falando? Ah, a corrida!”

O Safety Car entra na pista logo depois que as McLaren e Alonso param. Para Lobato, eles têm vantagem. Brundle prefere não arriscar um palpite. Depois, conclui que, apesar de ter perdido uma posição, o espanhol foi ajudado pois “isso vai o ajudar a não ter de parar mais. E ajudou Mark também.”

Galvão reclama da demora do Safety Car, assim como os britânicos. Brundle, dizendo-se um purista, é contra os retardatários descontarem as voltas. Os espanhóis estão mais preocupados com os pilotos que ameaçam o quinto lugar de Alonso. “Fernando é mais lento que Maldonado, Sauber e Raikkonen. Vai sofrer. Só confio que Nico segure os outros. E teremos luta entre McLaren e Red Bull”, aponta Gené.

Todos destacam a performance da Williams, “o carro surpresa” para Brundle. “Como um bom carro muda a impressão que se tem de um piloto”, reflete Lobato, enquanto Galvão imagina que “Rubinho deve estar pensando: eu podia estar numa Williams agora!”

Gené se assombra com a relargada de Button: “Madre mia!”. Para Brundle, o inglês faz o que Vettel fazia ano passado: “sai da zona de DRS e só fica controlando o ritmo para não desgastar o pneu.”

Lá atrás, Massa e Senna se estranham. “Atrapalhados”, define Croft, que emenda. “Pelo menos não é em Hamilton que ele está batendo.” Brundle completa: “Ele adoraria estar perto do Lewis para ter essa chance”, referindo-se do ritmo do piloto da Ferrari durante a prova. Quando a câmera mostra a lateral batida do F2012, o comentarista brinca. “Não sei se foi da batida ou se o Massa chutou o carro quando saiu.”

Galvão não dá muita importância ao toque. “Olha que estranho, Bruno Senna arrastou a Ferrari do Felipe” e logo o trio começa a falar de como a Ferrari decaiu desde a saída de Jean Todt. “Felipe começa o ano vivendo um drama. É ruim para os dois porque Alonso e Maldonado estão lutando pelo quinto.” Já os espanhóis não veem o lance, pois estavam no comercial.

E nem se importam, estão sofrendo acompanhando a defesa de Alonso contra Maldonado. “O único trunfo que Fernando tem é que, para o venezuelano, um sexto é um grande resultado e ele vai pensar duas vezes antes de arriscar”, é o que Vega espera. “Fernando tratando de tirar petróleo de um carro que não pode fazer mais!”, brada Lobato.

O narrador espanhol, no entanto, demonstra compaixão quando o piloto da Williams bate sozinho. “Que lástima”, repete por três vezes. “Que corridaça que estava fazendo. Merecia esta sexta posição.” Reginaldo, ao ver o carro do venezuelano batido, pergunta “cadê o Alonso?”, enquanto Brundle estranha a batida. “Ele perdeu o carro de um jeito e em um lugar que nunca vi.”

Mas os britânicos estão mais preocupados com a ponta. “Será um briga direta entre McLaren e Red Bull pelo campeonato. Lewis foi batido em uma luta direta e ele nem foi segundo”, aponta o comentarista. O terceiro lugar do campeão de 2008, inclusive, é o ponto mais comentado ao final da prova. “Quando ele vê o Button ganhando, a cabeça pira”, conclui Galvão. “Ele está com cara de ‘a coisa vai ser feia’. Está vendo que não vale só ter carro mais rápido porque companheiro é forte.”

O narrador insiste que “o fato da McLaren não ter mudado tanto faz diferença”, enquanto Reginaldo lembra que “não dá para esquecer que na Red Bull há Adrian Newey.”

14 comentários sobre “GP da Austrália por brasileiros, espanhóis e britânicos: “Se o Button ganha, a cabeça pira”

  1. Quando vejo os comentaristas e narradores mostrados de forma muito eficiente por você Julianne. Perceb-se que narrador só muda de idioma e nação, todos falam muita bobagem e torcem tanto por seus pilotos que esquecem do principal. Passar as informações precisas sobre o que esta acontecendo durante a corrida e tudo que envolve ela.

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  2. Valeu, Ótimo paralelo mais uma vez, assim como o que o Kimi solta pelo rádio (rs)
    . Se audiência aumentou, não entendi muito essa da BBC não, mas tudo bem.
    Com os brasileiros ladeira abaixo, assim como
    a audiência, aumentando somente as críticas às transmissões, não
    duvido que a coisa fique parecida por aqui .

    Também não vi nada sobre o desempregado, e novo comentarista desmotivado Alguersuari,
    citado pelo colega Carlos E. Del Valle num post anterior. Aliás, de tanto espanhol comentarista,
    já até sei até o que o Alonso vai fazer depois da F1.

    Abr e de olho no But

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    1. A BBC é pública e está enfrentando grandes cortes orçamentários. Assim, decidiu vender parte dos direitos para a Sky (explico isso melhor nesse post: http://www.totalrace.com.br/blog/juliannecerasoli/2011/08/06/um-toque-de-realidade-na-briga-da-tv-britanica/).
      O que é muito interessante é essa resposta do público inglês. Lógico que o fato da corrida ser de manhãzinha no UK afetou essa primeira prova ao vivo pela Sky, assim como a dobradinha da McLaren, mas 2.3 milhões de espectadores para um compacto atrasado é muita coisa! Uma pena não ter números do aumento da assinatura de pacotes para ver a temporada inteira ao vivo, mas isso deve aparecer em breve.

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  3. Ju, algumas dúvidas: qual seria o diferencial de Button em relação a Alonso, no quesito confronto direto com Hamilton? Vc acha que a tendência da continuidade de projeto na Mclaren, pode rapidamente criar um carro imbatível, ou por esse projeto já ser super explorado, criar um teto de desenvolvimento, enquanto os projetos mais novos das outras equipes, tenham maior leque de desenvolvimento? Haverá tempo hábil?

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    1. Sobre a primeira pergunta, são inúmeros motivos, depois da Malásia me cobre isso por e-mail!
      Te respondo a segunda pergunta com outra: a continuidade do RB5 em 2010 e 2011 limitou os avanços da Red Bull? Um projeto que não tem grandes problemas tem tudo para evoluir, ao contrário do 150º Italia, por exemplo, que tinha aquela questão crônica dos pneus.

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    2. Wagner:
      Muito interessante a sua primeira pergunta. Vamos aguardar o que a Julianne tem a dizer. Acho, no entanto, sem entrar no mérito da habilidade de cada um, que Button é mentalmente mais forte que Hamilton e Alonso.

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  4. Este ano de 2012 será mais bacana ainda graças aos textos da Julianne, que já existiam mas eu não conhecia. Duas perguntas Ju:

    – Webber e as largadas, parece ter se tornado herdeiro do Rubens. Anti-stall, “too much grip” são desculpas frequentes. Como podem um piloto de F1 e um engenheiro de F1 não conseguirem chegar a uma solução para esse problema? A mordida da embreagem tem que ser regulada caso a caso, mas porque Vettel sempre acerta?

    – Se vc fosse o Lucca di Montezemolo e fosse achar um substituto pro Massa, iria mesmo de Pérez? Se eu fosse o Godfather ia mandar meus emissários até Nico Hülkenberg, esse sim o mais diferenciado da nova geração. O fato de não ser apadrinhado pela Ferrari pouco importaria…

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