Estratégia do GP da Malásia: ousadia do início vira conservadorismo e mina vitória de Perez

O feito que poderia ter sido uma vitória

A pista esteve encharcada, molhada, quase seca e seca, e mesmo assim os potenciais dominadores, os candidatos de sempre às vitórias simplesmente não tiveram ritmo para vencer. Se o GP da Malásia deixou alguma certeza, é de que há muito o que as equipes descobrirem a respeito do comportamento dos pneus, quais as melhores pressões a serem utilizadas e as melhores maneiras de maximizar sua interação com cada carro.

Só isso explica o que vimos em Sepang, com a Sauber sendo a mais rápida – e com diferença – em duas das quatro fases que a corrida teve. Enquanto isso, a equipe que demonstrou ter o melhor carro em condições de seco se perdeu entre o conservadorismo da estratégia – neste tipo de situação equipes que têm menos a perder costumam lucrar justamente na hesitação das demais – e a pura falta de ritmo.

E pelos maus pit stops. Porém, é difícil sustentar que Hamilton tenha perdido a corrida pela lentidão da segunda parada – causada em parte por uma demora em levantar a traseira, em parte por ter de esperar Massa passar. Afinal, a McLaren não demonstrou ritmo suficiente para desafiar os rivais no longo stint de pneus intermediários, seja quando eles eram pneus de chuva de fato, seja quando se tornaram quase slicks. Situação parecida viveu a Red Bull, também atrapalhados por problemas de comunicação, o que atrasou as decisões.

A corrida pode ser dividida em quatro partes. Na primeira, correr riscos pagou dividendos para Perez e Vergne, ainda que eles tenham adotado estratégias diferentes. Enquanto o primeiro logo viu o lucro de colocar os full wets, parando na primeira volta e andando no ritmo dos líderes já na terceira, o segundo se segurou na pista com os intermediários esperando a bandeira vermelha que certamente viria, dado o histórico recente da atuação da direção de prova em dilúvios. Podendo mexer no carro com a corrida interrompida, o francês ganhou uma parada grátis e , com isso, 11 posições!

A segunda parte mostrou como os carros funcionam em condição de chuva e pneu intermediário. Foi nesse momento, também, que a ousadia da Sauber, que tinha levado Perez à segunda posição na corrida, se apequenou. O primeiro erro da equipe seria não parar junto dos líderes na volta 14. Dar uma volta a mais com o pneu errado, e ainda por cima fazer um pit stop lento, fez com que o mexicano, ainda que retornasse à pista em primeiro, estivesse na alça de mira de Alonso que, com uma volta de aquecimento e experiência com o pneu, o ultrapassou, em manobra decisiva para a corrida. Dali em diante, o espanhol se aproveitou com propriedade do benefício de não ter spray na chuva na liderança e do bom rendimento, nessas condições, de sua Ferrari, que agora trabalha bem melhor os pneus desde a primeira volta.

A terceira parte se deu a partir da volta 31, quando Perez começou a tirar a diferença em relação a Alonso, cada vez de forma mais acelerada. Os 7s7 que o piloto da Ferrari tinha construído em 16 voltas viraram 1s3 em oito giros. Isso não ocorreu por coincidência: os engenheiros separam essa fase em que todos estavam com os intermediários em duas, uma quando eles estavam fazendo seu trabalho de escoar a água e outra quando a pista já estava secando e a borracha estava bem gasta, fazendo com que se tornassem uma espécie de slick. Foi a partir desse momento que os Sauber começaram a brilhar, algo provavelmente provocado pelas pressões utilizadas, uma vez que os acertos para pista molhada já haviam sido feitos na bandeira vermelha.

Acompanhar Rosberg foi mau negócio

Essas duas fases também explicam por que os pilotos que decidiram colocar um novo jogo de intermediários durante este período não se deram bem. Afinal, a pista já estava seca demais para um intermediário zerado, e esses pneus acabaram tendo de trabalhar acima de sua temperatura ótima, ou seja, ‘cozinharam’. Button foi o único que deu algumas voltas mais rápidas, mas também foi o primeiro a parar, tendo tempo para desfrutar do intermediário na temperatura correta, mas logo caiu de rendimento, a exemplo de Rosberg, Massa, e Ricciardo. Naquele momento da prova, um intermediário ‘lixado’ era mais negócio que um novo.

Isso, dizemos com o benefício de saber que a prometida chuva não veio. Caso contrário, quem estivesse com o intermediário-slick teria de voltar correndo para os boxes. A ameaça de chuva também explica o porquê da relutância das equipes em trocar dos inters para os ‘verdadeiros’ slicks, a fim de evitar uma nova ida aos boxes caso a água desse o ar da graça.

Foi com a aposta da chuva em mente que a Sauber cometeu o erro capital que fez Perez perder mais tempo em relação a Alonso do que sua própria escapada voltas depois: parar uma volta depois do espanhol para o último stint, com pista seca. Mesmo assim, ainda que o mexicano fosse bem mais rápido, não dá para cravar que ele conseguiria a ultrapassagem, uma vez que a trajetória seca era muito pequena e ele teria de pisar no molhado em algum momento, o que, combinado com sua inexperiência e a importância dos 18 pontos que somaria (quase 41% do que a Sauber fez em todo o ano de 2011), é suficiente para justificar a cautela da equipe.

Em uma tarde de decisões difíceis, a última delas, de colocar pneus médios ou duros não tem uma solução padrão. Na frente, a Ferrari optou por médios usados para as últimas 16 voltas de Alonso, que demonstrou ter degradação nas últimas voltas. Provavelmente não optaram pelo duro para evitar problemas de aquecimento, algo que não foi uma questão para Perez. Vettel, em comparação com Webber, de médios, teve tais dificuldades, demorando 5 voltas para andar no ritmo do companheiro. Schumacher, por outro lado, com sua Mercedes come-pneu, lucrou com os duros, ou seja, foi uma decisão que dependeu muito do carro.

Como Senna foi de 23º para sexto

A estratégia de Bruno Senna foi um tanto peculiar. Tudo começou errado, com um toque com Maldonado na primeira volta, mas ao menos permitiu uma visita aos pits para colocar os full wets, aposta que alçou Perez a terceiro. No entanto, já no fundo do pelotão, Senna voltaria aos pits logo que o SC entrou para colocar um novo jogo de pneus de chuva, esperando provavelmente lucrar na relargada. Contudo, era de se esperar naquele momento que a corrida seria interrompida e a vantagem desaparecesse.

Isso o colocou em último no reinício da prova. Tendo de arriscar, o brasileiro colocou os intermediários logo que o SC saiu. O bom trabalho da Williams já lhe garantiu as primeiras posições e a decisão provou ser a acertada. Com isso, Bruno pulou de 23º para 14º em três voltas.

O brasileiro ganharia mais terreno com um bom ritmo na primeira fase dos pneus intermediários, quando a pista ainda estava bastante molhada e já ocuparia a nona colocação na volta 27, adotando um ritmo condizente com a Lotus de Raikkonen e a Red Bull de Webber, tendência que até se acentuou quando a pista começou a secar e os intermediários estavam mais parecidos com slicks.

O brasileiro colocou os pneus de seco (optou por médios novos) duas voltas depois de Ricciardo ter sido o primeiro a arriscar. Assim, ganhou a posição de Vergne, que permaneceu na pista uma volta a mais. O brasileiro ganharia ainda, na pista, o lugar de Di Resta e lucraria com o furo no pneu de Vettel para cruzar em sexto.

15 comentários sobre “Estratégia do GP da Malásia: ousadia do início vira conservadorismo e mina vitória de Perez

  1. Ju, tendo em vista as alternativas de estratégias e o tempo instável, vc acredita que o rítimo de corrida da Sauber é mais rápido que o da Ferrari atualmente? Ou essa pressão dos pneus pelas condições da pista influenciaram decisivamente?

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    1. Eu já tinha ficado com essa impressão na Austrália, Wagner, mas acredito que seja algo que muda a cada pista, é muito marginal. A Williams, sim, é melhor em corrida, então a Ferrari estaria entre a sexta e a sétima forças no momento, ainda que tenha mais margem para melhora (pelo projeto ter começado do zero) e mais condições técnicas/financeiras de se desenvolver.

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      1. Pode ser, Dona Julianne. Mas uma equipe, no caso a Ferrari, que tem um certo Fernando Alonso como piloto consegue sim descontar essa teórica desvantagem técnica na pista. Maldonado tentou, tentou até errar na Austrália. Perez tentou, tentou, até errar na Malásia. Não gosto muito deste espanhol, mas admito que ele é fera. Muito fera.

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  2. Me desculpe, mas sendo a Sauber mais rápida que a Ferrari, normalmente jamais alguém faria uma aposta naquelas condições, mesmo porque o jogo estava praticamente ganho. Na minha opinião, aquela foi a 1ª tentativa da Sauber para frear Pérez e satisfazer a Ferrari.

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  3. Julianne,
    Na sua opinião, qual o motivo para o Bruno Senna ter tantos acidentes na primeira volta das corridas? Desde o ano passado, quando ele corria pela Lotus, tinha problemas na largada e ao longo da primeira volta, com toques ou rodadas. Inexperiência? Falta confiança?
    Você que acompanha de perto os pilotos mais “novos”, eles demonstram um comportamento emocional diferente dos outros?

    Valeu!!!

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    1. Coloco isso na conta da inexperiência, não só em F-1, mas muito provavelmente ele é o piloto do grid com menos largadas feitas na carreira. E é o primeiro a reconhecer que tem de melhorar isso rapidamente. Na verdade, ainda não vimos o real potencial da Williams porque seus pilotos não têm conseguido fazer corridas 100% limpas.

      É claro que os mais jovens passaram por menos coisas e isso pode atrapalhar julgamentos. No caso da Malásia, por exemplo, Domenicali falou que o mais calmo de todos na equipe era o Alonso dentro do carro. Ele já tinha estudado o que faria em relação ao Kers – como fez para segurar Maldonado em Melbourne – para evitar o ataque do Perez e havia decidido manter a linha seca a qualquer custo. Isso é normal, pois ele já passou por diversas situações como esta.

      Por outro lado, não gosto de determinismos. Há novatos e novatos, com cabeças e históricos diferentes. Veja, por exemplo, que o Senna não foi para o ataque em cima do Raikkonen. “Jogou” pelos pontos, que já estavam, de fato, de bom tamanho.

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  4. A unica jornalista a descrever a corrida do bruno senna. Olha q eu procurava em todo canto. Obrigado!!

    Vc tem um otimo trabalho junto ao site q é mto bom!

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  5. Prezada Julianne Cerasoli,

    Escrevi e perdi um longo comentario sobre williams logo acima! e eu nao salvei o que eu escrevi! ele se eprdeu ou espera por vc autorizar?

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      1. Puts, agora que confirmas o que eu temia, me deu uma raiva na hora, pq eu n tinha salvo. 😦

        Era um simples depoimento de um fã, torcedor! nada demais. Mas farei questão de me expressar novamente..deixa eu so ver aqui onde a minha inspiração se meteu. rsrsrsrs

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  6. Falando de Williams, a Williams está show!

    Agora Maldonado precisa marcar pontos mais do que nunca, sabe como é né, B.senna trouxe os primeiros pontos da casa. Ele e acima de tudo a equipe merecem. Estou na torcida.

    Foi com grande prazer que virei a balada de sabado a noite e fiquei acordado ate as 9,10 horas da manha( horario holandes) pra nao perder a largada. O SONO QUE ERA GRANDE, desapareceu totalmente na largada. Não durmi nem durante a pauze da bandeira vermelha.
    O piloto de capacete amarelo, guiou uma Williams azul e branca.. livre, leve, solto, firme e forte. Naquele dia molhado,seco,cinzento, umido, pesado e escuro. Foi d+!!

    5 horas depois do encerramento da corrida eu ainda me encontrava em estado de extase.

    Imagine se o GP tivesse 70 voltas! Peres chegava no Alonso, e o Bruno encostava no Raikonen, o pe de breque ia esquentar os lados do iceman. Rsrsrs
    Bruno correu sem nehum peso nas costas, extinto puro! A Aparencia e sobrenome de Ayrton senna que gera tanta atenção e conversa de lá pra cá, em nenhum momento foi um peso em seus calcanhares no GP da malasia.

    Era mais ou menos isso o que eu tinha pra contar! Obrigado Pelo espaço!

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