Corridas e análises

A receita de Alonso para liderar o campeonato

“Quanto a ser o melhor piloto, não sei. Mas não quero que haja nenhum mais bem preparado que eu a cada corrida, nenhum que tenha melhor na cabeça os dados da estratégia, que tenha acertado melhor o carro.”

Ao menos até aqui, a tática de Fernando Alonso vem dando certo. Talvez apenas no GP da Austrália, quando rodou na classificação, o espanhol teve alguma falha que pode ter causado algum prejuízo em termos de pontos – e uso todas essas palavras na condicional porque é difícil pensar em um resultado melhor do que aquele quinto lugar com o F2012 que iniciou o ano.

No restante do ano, os pontos perdidos tiveram mais a ver com decisões conservadoras na tática de corrida – algo em que o piloto também tem certa influência, é verdade. Mas ninguém na Ferrari ousa questionar seu líder. Muito pelo contrário: a postura de Alonso quando tudo apontava para mais um ano de vacas magras fez mais por sua imagem dentro do time do que suas atuações na pista.

Atuações que remetem à mesma lógica que mostra nas entrevistas. Alonso desenvolveu uma estratégia para encarar as corridas com essa configuração de pneus e regras que vem saindo até melhor que a encomenda – e explica como o piloto que não é o mais rápido, como ele mesmo admite, com o carro que não é nenhuma HRT, mas também não é o melhor, é o único conjunto a sobrar até aqui.

Sua linha de pensamento é aproveitar todos os momentos em que os carros estão em condições mais iguais: classificação, largada e primeiro stint. A diferença que ele consegue fazer nestes momentos supera sua teórica desvantagem de velocidade.

Há duas lições importantes que os pilotos têm de aprender em relação aos pneus. A primeira é o correto aquecimento (da borracha e dos freios) para a classificação e a largada, o que obviamente depende muito das outlaps e voltas de apresentação. Alonso é dos pilotos mais agressivos especialmente nos burnouts, fazendo mudanças bruscas de direção antes de alinhar no grid e, não coincidentemente, ajudado por um ótimo sistema de largada da Ferrari, é dos que melhor larga.

A segunda lição é na conservação dos pneus nas corridas. Não existe uma única receita, pois depende da adaptação ao carro e ao acerto e pode variar a cada circuito. O segredo de Alonso observado por Emerson Fittipaldi é evitar o wheelspin na saída de curva sem perder velocidade. Para isso, ajuda entrar de forma mais agressiva e compreender as diferentes fases do pneu – a tendência dos Pirelli é fazer o carro começar saindo de traseira e terminar dianteiro. Simples, não?

Além dos pneus, Alonso é daqueles “chatos” com o engenheiro, que ficam pedindo informações completas sobre as corridas dos rivais. Usa isso para saber quando tem de crescer na prova (perto das paradas), como também qual o momento de atacar e gastar os pneus, e quando é melhor só se manter por perto. Também é dos que aperfeiçoa durante o final de semana a entrada e saída dos pits, lição aprendida com Michael Schumacher.

A soma desses fatores explica o que alguns preferem chamar de sorte: Alonso sempre é daqueles que crescem durante as corridas. Nas 11 provas até aqui, apenas em duas oportunidades cruzou a linha de chegada abaixo da posição de largada – Canadá e Silverstone – por três vezes chegou onde largou – Bahrein, Espanha e Alemanha – e, nas seis restantes, ganhou em média 4,8 posições. É justamente por essa consistência em diferentes áreas – e não por sua velocidade ou pelo ritmo de desenvolvimento da Ferrari – que os rivais consideram difícil batê-lo pelo título desse ano. Seus fãs na Espanha costumam chamá-lo de mágico mas, para ele, é pura lógica.

E, além de toda a tática vitoriosa, "nunca durma na bóia", ensina o bicampeão...

3 comentários em “A receita de Alonso para liderar o campeonato”

  1. Excelente post, Julianne.

    É bem mais saudável admirar ou reconhecer o talento de um esportista sem o viés messiânico que os “torcedores genéricos” (na espanha, no brasil) insistem em acreditar, não é mesmo?

  2. Me lembro dos aquecimentos de pneus de Alonso na época da Renault, eram audaciosos. Esse é o cerne da competição, afinal quanto mais se pesquisa, mais ficamos espantados. A sorte entra na conta, mas guiar a 300 por hora, e ainda jogar com o desempenho dos concorrentes, só para fora-de-série.

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