Olhar estrangeiro e TVs

GP da Itália por brasileiros, britânicos e (a novidade) asturianos: “Cada vez que vejo o replay, me parece mais maldoso”

Ninguém pode dizer que ele não é um ‘secador’ nato: após gorar Alonso antes da largada do GP da Bélgica, afirmando que o espanhol estava “na zona de risco, logo à frente de Maldonado, Grosjean e Hamilton”, o narrador da Sky, David Croft, definiu o destino de Vettel na corrida da Itália logo depois que a Red Bull pediu que o alemão diminuísse a temperatura do motor na volta de apresentação: “Isso nos faz lembrar dos problemas de alternador que ele teve no calor de Valência. Também está muito quente aqui. Será que poderíamos ter uma história semelhante?”

Na Globo, o destaque é para os cinco vencedores de equipes diferentes nos últimos cinco anos. “A McLaren tem ido bem em vários circuitos diferentes, mas não vence em Monza desde 2007.” Já na RTPA (Radio Televisión del Principado de Asturias) – excepcionalmente neste GP, acompanhei a transmissão espanhola pela TV das Astúrias e confesso ter sentido saudade de Antonio Lobato e companhia (!) –, o assusto são as histórias dos primórdios de Monza, quando os pilotos colocavam “folhas de alface” na cabeça para refrescar.

Sobre a estratégia, Galvão Bueno explica que “quem pensa em vitória pensa em uma parada, mas tem de ter cuidado com o pneu médio no início”, enquanto o narrador asturiano, Íñigo Domínguez, insiste para que ninguém se perca na largada: “Alonso está na parte esquerda da tela, na quinta fila”. Enquanto Massa briga com as McLaren pela ponta, o espanhol destaca “Alonso oitavo e atacando Kobayashi”. Os comentaristas salientam que os pilotos estão “muito comportados, agindo com muito respeito.”

No Brasil, o destaque é para Massa. “Largou muito bem, mas o ataque ao Hamilton na primeira curva permitiu que Button se aproximasse. As McLaren devem ser mais rápidas na reta – e Bruno Senna largou bonito e ganhou duas posições.”

Para o britânico Martin Brundle, “Massa foi inteligente, colocando de lado e forçando Lewis a frear mais dentro da curva. Nunca passaria, mas valeu pela tentativa.” Para o comentarista, o destaque negativo da largada foi Webber. “Ele teve o maior prejuízo da primeira volta. Desde que ele assinou para o ano que vem, tem marcado poucos pontos, não está nada dando certo”, algo também observado pelo comentarista espanhol Jesús Catalán, que acha “curioso o efeito anestésico da renovação de contrato em Webber.”

Na TV asturiana, as primeiras voltas deixam os comentaristas animados. “Pela velocidade que está mostrando, Alonso não deve bater no limitador quando puder ativar a DRS”, diz Javi Villa, ex-piloto de GP2, hoje no Turismo. “E quanta estabilidade de freada tem a Ferrari”, completa Catalán. Domínguez acha que a ultrapassagem de Vettel em Schumacher favorece Alonso, pois deixa o alemão na alça de mira do espanhol e “talvez superar a Red Bull seja mais difícil”. Mas Villa logo se preocupa. “A Ferrari bateu no limitador agora e, na Mercedes, acontece o mesmo que em Spa: eles têm uma sétima mais longa.”

De fato, quando o bicampeão chega em Schumacher, os brasileiros preveem problemas. “A velocidade de reta da Mercedes é muito melhor. Vai ter problema para passar”, diz Burti.

Mas Alonso supera Schumacher, mesmo tendo ficado “mais tempo do que gostaria atrás dele”, como saliente Croft. “O mais crucial é que ele ganhou várias posições e está com o carro intacto e sem nenhuma fritada de pneu.”

As atenções se voltam para Bruno Senna, que se toca com Di Resta e perde a chicane. “Não sei não. Ele botou meio carro”, Galvão não gosta da fechada do escocês. “O certo era o Di Resta, depois de defender a posição, manter a linha, mas podem dizer que a asa dianteira do Bruno não estava do lado”, ressalta Luciano Burti, coincidindo com a interpretação dos comissários. “Paul não deixou muito espaço. A regra diz que você tem que deixar espaço. Ele fez a tomada enquanto Bruno tentava colocar de lado. Essa vai ser difícil para os comissários decidirem se Bruno deveria ter cedido ou se foi jogado para fora da pista”, Brundle fica em cima do muro.

O narrador asturiano critica o brasileiro. “Bruno Senna anda batendo com todo mundo. E isso não é jeito de voltar à pista”, diz Domíngues, interrompido pelo repórter de pista Miguel Martínez. “Di Resta o fechou. Vai sofrer um drive through com certeza”, opina. “Mas ele estava muito atrás. Só fica lado a lado quando já está na terra. Não tinha espaço”, discorda Villa.

Na volta 10, Croft chama a atenção ao ritmo de Perez, pouco antes de Burti destacar a performance do mexicano. “Ele foi o único a largar com duro entre quem está na ponta. Seu pneu é melhor agora, mas depois vai colocar os médios.”

Como os asturianos estão um pouco perdidos com a estratégia – Villa diz que, “para fazer uma parada, tem que ficar na pista até a 27” – o repórter britânico Ted Kravitz coloca os pingos nos is. “É interessante que os tempos de Perez sejam melhores que Kobayashi, mesmo com pneu duro. Veremos como isso afeta as estratégias. Quem parar entre volta 15 e 17, fará duas. A partir disso, pode ir a uma”, resume.

Espanhóis e brasileiros estão preocupados com seus pilotos. “Se Fernando para antes, pode ultrapassar Vettel, mas não pode parar tão cedo porque precisa fazer uma parada só”, calcula Martínez, que acredita que Massa teria que aguentar na pista para esperar Vettel – e atrapalhá-lo. Isso, depois do brasileiro ser superado por Button, algo “normal” para Galvão Bueno. “Tem momento em que é melhor deixar passar para não perder tempo. Mudar para o plano B [2 paradas] pode ser muito complicado.”

As Ferrari param, de fato, assim como Sebastian Vettel. Para os britânicos, todos estes farão duas paradas, enquanto a McLaren, “poderia dividir as estratégias caso tenha problemas de desgaste”, afirma Croft.

O grupo de Massa, Vettel e Alonso volta logo atrás de Daniel Ricciardo, que joga duro com o brasileiro. “Acho que Ricciardo escolheu uma briga que não deveria. Mas não podemos culpá-lo por tentar”, acredita Brundle. “Se Ricciardo fizer besteira brigando com os ponteiros, o preço é caro”, Reginaldo lembra do que aconteceu com Alguersuari após atrapalhar Vettel.

Mas a briga é entre Alonso e Vettel. Para Galvão, “quem estiver torcendo para o Felipe, torce pelo Vettel porque, pela diferença do campeonato, o jogo de equipe seria normal.”

Poucas voltas depois, Alonso tenta passar Vettel por fora na Curva Grande e vê o espaço diminuir de repente. “Desta vez, ir na grama não ajuda a passar”, resume Croft. “Queria ver de novo, mas não acho que ele foi jogado para fora. Não acho que ouviremos nada a respeito vindo dos comissários. Foi exatamente o que aconteceu ano passado, mas ele foi mais para fora”, observa Brundle.

Para Martínez, são duas manobras completamente distintas. “Ano passado, Fernando deu espaço a Vettel, e agora Vettel não deixou espaço a Fernando. O que ele fez é muito perigoso, porque é muito veloz. Não tem essa de que ‘o carro escapou’. É diferente de uma chicane onde, pela própria inércia, o carro pode escapar. Em uma curva de aceleração, se faz um movimento à esquerda, é proposital.”

Na Globo, Galvão primeiro se impressiona por Alonso não ter batido. “Ele é bom demais para sair com as quatro na terra e voltar” e ganha o aval do comentarista convidado Emerson Fittipaldi. “Nessa velocidade, o carro não virou. É um piloto completo, surpreende mais a cada prova.” Mas, afinal, acidente de corrida ou a regra é clara? “Bem questionável porque Vettel fez o movimento quando a asa do Alonso já estava de lado. Sem ver replay, acho que Vettel jogou pesado”, vê Burti.

São os replays que fazem Brundle achar “cada vez mais maldosa” a atitude de Vettel e suspeitar que cabe punição, algo justo para Emerson – “Vettel abriu meio sem querer para jogar o Fernando para fora” – mas não para Reginaldo – “não teve nada de errado. Alonso forçou inclusive de um jeito que não é normal dele.”

Os espanhóis têm tanta certeza da culpa de Vettel que, quando sai o anúncio da investigação, Martínez se adianta: “Pode calcular no tempo de Vettel os 18s (?) que vai perder pelo drive through.”

A perda é de 15s, mas o alemão de fato é punido, deixando a encrenca para Massa. “É claro que Massa vai deixar Alonso passar pelo campeonato”, Brundle acha a inversão normal, assim como brasileiros e espanhóis, mesmo que cada um tenha sua versão. “Felipe teria a condição de defender a posição na pista, mas veremos a atitude da Ferrari”, diz Galvão. “Em condições normais, mesmo se fosse de outra equipe, Alonso o passaria. Eles só têm que cuidar para que não perca tanto tempo”, acredita Martínez que, junto de seus colegas, ri com as mensagens de rádio de Rob Smedley a Massa, lembrando da degradação de pneus.

Após a ultrapassagem, os brasileiros se esforçam para explicar a situação e diferenciar a troca de posições agora de Áustria-02 ou Alemanha-2010. “Tem que favorecer o Alonso. É um esporte de equipe”, acredita Emerson. “É do esporte. Fazer o quê?”, pergunta Galvão.

Voltando às estratégias, Kravitz calcula que “provavelmente, Perez vai terminar em quinto ou sexto. Nada mal”, enquanto espanhóis duvidam que Raikkonen aguentará apenas com uma parada. As divagações são interrompidas pelo abandono de Button. “Sete dias depois da grande performance de Spa, o carro o trai”, resume Brundle. “É mais um momento no campeonato em que as coisas funcionam para Alonso”, completa Croft. “Cada vez se parece mais com a corrida de Valência”, Martínez se empolga, enquanto brasileiros se animam com um pódio de Massa, que tem a corrida destacada por Catalán, para deboche do narrador Domínguez. “O que ele fez? Largou em terceiro e continua em terceiro”. Villa defende o colega: “É que não é o habitual dele.”

E o habitual de Perez é fazer a diferença com os pneus. De candidato a boa performance, o mexicano já vira ameaça às Ferrari. “A pista emborrachou e, com menos combustível, eles acertaram na mosca com Perez e ele, como sempre, fez funcionar. Se puder se livrar rapidamente das Ferrari, tem voltas suficientes para pegar Hamilton”, destaca Brundle. “Se Lewis tem ritmo, vamos descobrir agora.”

Reginaldo resgata a história da segunda corrida do ano. “Na Malásia, Perez estava mais rápido e muita gente achou que recebeu ordem para não passar Alonso, ainda que tenha gente na Sauber que jure o contrário.”

Os espanhóis se preocupam. “Ele vai passar como se fosse um retardatário”, diz Domínguez. Mas há uma esperança de que Magic Alonso tire algum coelho da cartola. “Se fosse outro circuito, dava para se defender”, Villa é mais pessimista, “mas Schumacher conseguiu”, lembra Martínez, referindo-se à corrida do ano passado. Depois da ultrapassagem inevitável, Domínguez salienta que “é melhor não tentar resistir para não piorar a situação de seus pneus. Pensou no campeonato.”

A corrida ainda guardaria outra surpresa no final, com o abandono repentino de Vettel, sob berros do engenheiro para que “parasse o carro imediatamente” para salvar o motor. “Só posso imaginar que tem algo a ver com a hidráulica, que afetou o trabalho dos pistões. Eles não podem correr o risco de perder um motor”, imagina Brundle. “Não tenho vergonha de falar com pilotos, mas não puxaria conversa com ele agora.”

Os espanhóis se divertem.“Este carro vai se destruir em 3 segundos!”, exclama Domínguez, lembrando filmes de ação. Discutem sobre o que teria acontecido com os carros da Red Bull e acham que o mesmo motivo tirou Vettel e Webber. “Deve ser algo sério para pedirem para parar ao invés de esperar quebrar. Deve ter a ver com temperaturas ou algo da segurança do piloto”, aposta Villa. Logo depois, Catalán diz que circula a informação de que trata-se de um problema de alternador.

“Que bom desfecho para um piloto que teve uma semana tão tumultuada. Se eu fosse Whitmarsh, teria uma conversa hoje à noite com ele, com a vitória fresca na memória. Seria um bom momento para ele e a equipe chegarem a um acordo”, recomenda Croft quando Hamilton, após um verdadeiro passeio no parque, cruza a linha de chegada. “É a primeira vitória dele em Monza e é o piloto com quem Alonso tem de se preocupar”, diz Burti. Os espanhóis já estão preocupados e veem que o inglês só não tem mais pontos pela chuva na classificação na Alemanha e pelo erro na configuração de Spa. Lembram que, segundo o raciocínio de Alonso, para vencer o campeonato, é preciso conquistar duas vitórias até o final do ano. “Ele sabe que Hamilton é seu pior rival porque é muito competitivo e tem o melhor carro”, destaca Martínez. “Alonso teve dois golpes de azar seguidos, mas o importante é continuar líder quando essas coisas acontecem.”

Porém, largando em décimo, todos reconhecem que o asturiano saiu no lucro. “A verdade é que, corrida após corrida, tudo parece favorecer Alonso”, destaca Reginaldo. “Temos de reconhecer que Alonso fez uma corrida espetacular, como sempre. Tudo dá certo para ele”, completa Galvão, torcendo para que “após duas grandes corridas, pode ser que Felipe vá para Cingapura renovado. Vamos torcer.”

Ninguém esquece de Perez, surpresa do dia. “Eu errei achando que eles tinham se equivocado porque estavam perdendo muito tempo, mas o ritmo cresceu muito quando colocou o pneu médio. Terminou 40s à frente do companheiro”, salienta Brundle, que estranha a falta de comemoração do vencedor Hamilton. “Perez até parece mais feliz”, nota. Também, pudera. Nada como agradar o público certo, como lembra Domínguez: “Já que estamos na Itália, Perez aproveita para deixar o currículo em Maranello”.

6 comentários em “GP da Itália por brasileiros, britânicos e (a novidade) asturianos: “Cada vez que vejo o replay, me parece mais maldoso””

  1. Ju, pelas peculiaridades da pista, me lembro que o tempo do Q1 de Alonso, com os duros, foi quase o mesmo tempo que o de Hamilton com os médios no Q3, corroborando para o bom desempenho de Perez no domingo. A corrida de Alonso foi espetacular, mas a Ferrari, junto com a Mclaren, possuiam os melhores carros do fim-de-semana, daí fica a dúvida por quê Massa não brigou pela ponta com Hamilton?! Acredito que a única forma de não haver jogo de equipe na Ferrari, seria Felipe ter ultrapassado Hamilton, deixando-o entre ele e Alonso, mas é intrigante como Alonso, com uma corrida de ataque, conseguiu possuir pneus praticamente no mesmo estado dos pneus de Massa. PS: quanta besteira disseram os asturianos!!!

    1. Nem mesmo com Button o Massa conseguiu competir… E nem sei se o Alonso conseguiria também… As McLarens estão impossíveis, vamos ver por quanto tempo.

  2. Antes eu era contra, mas agora vou torcer para o Massa renovar com a Ferrari, já virou pastelão mesmo! Agora eu quero me divertir!

    Eu vou torcer muito para o Felipe largar em todas as provas muito a frente do espanhol, só pra ver Galvão disparar:

    “Essa é para os críticos ficarem com muita raiva, nosso Felipe Massa esta muito feliz de contrato renovado com a Ferrari! E ele fez uma classificação de gente grande e com muito mais QUALIDADE-DE-VIDA que o espanhol Reginaldo! Eu sou muito mais o Felipe Massa nessa corrida! Alonso já começa ficar MUITO INCOMODADO com Felipe largando a frente, o que vc acha Reginaldo?”

    “Com certeza Galvão, eu ia falar isso mesmo, não é Burt”

    “é sim…é né”

    Muitas voltas depois e já no final da corrida, Alonso levemente se aproxima de Felipe, Galvão comentam meio-contrariado:

    “Eu não consigo ser purista nesse tipo de coisa, e eu queria a opinião do Emerson Fittipaldi, é uma equipe chama-se Ferrari. Um é líder do campeonato, o outro não foi bem na primeira parte da temporada. Nesse momento Massa entregando a posição levaria os dois ao pódio, esta me parece absolutamente normal. O que vc acha Emerson”

    “TEM QUE FAVORECER O FERNANDO ALONSO!!!”

    Nesse momento Galvão fica MUDO e R.Leme dispara pra ferrar…ainda mais:

    “Nas circunstâncias atuais eu não tenho nenhuma dúvida, é isso mesmo”

    Aí vem a melhor parte da corrida, o espanhol encostar de vez no Felipe, a Ferrari avisa pelo rádio, e tome Galvão Bueno:

    “É melhor que seja logo, que passe logo e que Felipe vá atrás…se não tem solução, que passe logo e que o Alonso puxe o Felipe. Veja que o Felipe ABRE SEM NENHUM PROBLEMA, para a ultrapassagem do Alonso”

    “Gente, é uma coisa do ESPORTE absolutamente NORMAL, eu sei que vai chover críticas que vai ser um problema. Mas é uma coisa do ESPORTE, fazer o que? O Felipe chegou a comentar: “EU VOU AJUDAR MEU COMPANHEIRO DE EQUIPE”, e assim a coisa funciona. Aí vc esta vendo TIRIRICA no boxe da Ferrari, ele é AMIGÃO do Felipe, e o TIRIRICA faz aquela cara: “Fazer o que, de circo e palhaçada eu entendo muito”

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