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A era dos simuladores – parte 2

No post de ontem, expliquei a complexidade dos simuladores usados na F-1 e como eles não podem ser comparados aos jogos de videogame, mesmo com toda a tecnologia presente nos modelos atuais. Porém, a Nissan vem promovendo campeonatos virtuais que fazem de gamers pilotos de verdade. E, no que era inicialmente uma experiência mais voltada ao marketing, acabou encontrando o que parece ser um modelo de piloto do futuro.

Jann Mardenborough é o mais promissor dos vencedores do GT Academy e levanta a questão do quão preparados estão os viciados em jogos online para disputar uma categoria automobilística de “carne e osso”. O galês de 21 anos terá sua primeira experiência em um campeonato de monopostos neste ano, na Nova Zelândia, após ser vice-campeão britânico de GT3.

Mas seria possível tornar-se um piloto treinando no simulador? Tecnicamente, o problema seria a falta de noção de velocidade e a consequente sensação de compressão corporal, ou seja, o lado físico da pilotagem. “O simulador é ótimo, muito realista, mas não temos a força G”, explica Lewis Hamilton. “Contudo, todos os pilotos aprendem circuitos muito rapidamente porque fazemos isso desde a infância.”

Mas, além dos traçados, o que dá para aprender? Noção de espaço, de freada, correções de volante e todos os itens que compõem o chamado racecraft, ou seja, a habilidade de gerir uma corrida contra outros competidores, são fatores ensinados pelos jogos mais realistas, como o Gran Turismo, por exemplo, que levou Mardenborough ao programa da Nissan.

Por outro lado, a lógica diz que a tradução direta entre simulação e realidade por ser mais complicada. Como serão as reações do piloto virtual quando vir o risco de perto e não puder apertar “restart”? E a sensibilidade da interação entre asfalto e pneus, a sensação de aderência, que ainda não consegue ser totalmente reproduzida?

Isso nos leva a outra questão: o quanto de um piloto é talento nato e o quanto é treinado nas categorias de base? Não seriam todas essas questões da sensibilidade, da adaptabilidade e da superioridade em relação ao perigo algo que nasce com aqueles escolhidos? Ao menos no caso mais famoso de Mardenborough, trata-se de um jovem com quatro anos de experiência no kart na infância, que teve de abandonar o esporte por falta de dinheiro. Portanto, não é 100% gamer e já era visto como um grande talento na infância.

Há Lucas Ordoñez, espanhol que fez boa transição do GT as corridas de verdade, sem passagens anteriores por outras categorias. Mas não chegou tão pronto quanto o britânico. Ainda assim, são exemplos que abrem uma possibilidade interessante: dar a chance no automobilismo a quem não tem dinheiro para disputar categorias de base.

Um grande piloto é aquele que se adapta mais facilmente às diferentes condições e, por que não, transitar com tranquilidade do virtual ao real pode ser uma grande demonstração disso. Só fica difícil imaginar a possibilidade de queimar todas as etapas até chegar na F-1, pois, quanto mais rápidos os “brinquedos reais”, maior a ação justamente das forças que não estão presentes na simulação – e não há treino melhor para lidar com isso do que sentar no carro. Mas, para quem nasceu com jeito para a coisa, mais iniciativas como a da Nissan podem ser o empurrão que faltava na conta bancária para pular alguns anos de preparação na pista e tornar realidade o sonho de se tornar piloto.

13 comentários em “A era dos simuladores – parte 2”

  1. Olá Julianne,

    Quanto a este tema, posso acrescentar uma pequena experiência particular. Jogo videogames desde os meus 6 anos de idade, hoje com 28, e minha primeira experiência pilotando um kart foi muito desastrosa. Nas primeiras voltas fui bem, mas 10 minutos depois estava deixando o carro contendo vômitos e suando muito frio.

  2. Julianne,

    Magnifíco o seu post, que vem ao encontro da minha curiosidade, respondendo a muitos aspectos sobre os quais eu tinha dúvidas, e também marcando diferenças entre o virtual e o real. De games nada entendo, confesso, nunca lidei com eles, mas, de tudo o que você disse e já andei lendo ultimamente sobre o assunto, uma coisa fica clara para mim: exímios jogadores de games, por mais hábeis e rápidos que sejam em seus reflexos, não têm capacidade de julgamento para AFIRMAR que certas manobras que ocorrem ou ocorreram no mundo da F 1 real são facílimas de fazer. São muitos os fatores que influenciam uma condução real: a aderência, a força G, a coragem (ou a loucura rsrs) diante da “força S” (de sobrevivência, rsrsrs, estou lhe creditando o copyright, caro Wagner, por tê-la lembrado muito bem no post de ontem, e o que a Julianne hoje confirma), as transferências reais de peso nos traçados de urgência (quando ora é a traseira que quer passar a dianteira ou ora é a dianteira que quer escolher seus próprios caminhos, dependendo do acerto do carro, pondo inteiramente à prova as habilidades do piloto frente às Leis da Física, e até a potência bruta do motor, pois, se não fosse assim, seria possível ir direto das fórmulas mais básicas (Renault, BMW e outras) para a Formula 1. (Não me refiro a Fórmulas mais sofisticadas e potentes como a 3, onde foram vários os que fizeram essa transição direta para a 1 com sucesso).

    Por outro lado, acredito firmemente que talentos poderão, sim, surgir dos games para serem devidamente lapidados para a realidade, proporcionando a realização do sonho de muitos que não dispõem de “paitrocínio” ou patrocínio de verdade para despontarem, eis que os custos são bem menores que um kart competitivo. Será ótimo vermos um automobilismo menos elitista em seu acesso e até espelhando uma realidade mais verdadeira lá no topo, pois muitos talentos se perdem por falta de recursos financeiros antes mesmo de poderem se iniciar nesse esporte (?) tão apaixonante.
    Abraços.

    Jann Mardenborough já vai começar sua carreira nos monopostos na vida real:

    http://granturismoauthority.com/jann-mardenborough-shifts-to-open-wheel-racing/

    1. Hehe, caro Aucam, realmente, as velocidades da vida real são bem superiores e impressionantes perante ao conforto dos videogames. No cotidiano, uma desaceleração a 60 km/h já é bem pesado, imagina aos 300km/….No mais, a aptidão natural é um diamante bruto para ser lapidado. Se o futuro piloto for bom a caminhada fica menos difícil.

    2. Além da ótima materia dupla da Ju e do ótimo parecer do aucam, eu posso dizer por experiencia propria, que apesar de ganhar algo no chamado “racecraft” no simulador, nunca será igual ao real.

      No simulador algo que não existe também são as reações que nosso corpo produz ao pilotar de forma competitiva. Aquelas substancias liberadas pelo cérebro e pelos musculos todas juntas (adrenalina, endorfina e outras tantas) não podem ser simuladas (por enquanto, talvez).

      Eu já joguei tudo quanto é jogo de corrida e de vez em quando vou andar de kart. No kart, depois de 45 minutos pilotando de maneira agressiva, concentrado, você sai todo suado e no dia seguinte vai ter dores musculares mesmo estando em boa forma. E isso porque o kart não chega nem perto das forças envolvidas num carro de F1. A força G nao é igual, a aceleração e desaceleração não são iguais, a vibração e o barulho não são iguais e o aspecto suforcante de estar apertado no cockpit beirando 45 graus de temperatura também não são iguais. A unica coisa parecida entre um kart e um F1 é a sensibilidade do volante (disseram muitos pilotos de F1)

      Entao dá pra ver que realmente não tem nada a ver uma coisa com a outra.

  3. Interessante o aspecto de simulação.

    Os simuladores do porte de uma equipe de F1 é igual a simulador de Voo de uma empresa aérea, isso é inevitável.

    Agora o assunto simulador virtual de automobilismo seja de consoles ou pc não pode ser considerado como jogo infantil e totalmente irreal, quem fala isso não conhece o assunto.

    Temos hoje no mercado um simulador TOP de PC que se chama Iracing, que pode ser instalado em qualquer maquina com uma boa configuração e placa de video que junto a volante bom(G25, G27, fanatec ou thrustmaster T-500) as demais marcas não são volantes profissionais que trazer o forcefeedback, esse simulador leva campeoes dos seus campeonatos a andar de carro real e lá levam o piloto a tentar andar no mesmo tempo que fazem no real. A principal categoria do Iracing se o piloto conseguir atingi-la vai competir contra pilotos da Nascar americana, no pc temos diversos outros simuladores e quem quiser conhecer procure por Rfactor, Race On, entre outros.

    OBS – o que a Nissam fez não foi a pioneira, mas uma atitude inteligente.

    Nesse ano teremos o lançamento do Project Cars(procurem video no youtube e dar agua na boca na beleza das imagens)

    Da minha parte corro em diversos jogos ou simuladores de AV(automobilismo virtual), porem minha praia não é pc, nem playstation sou do xbox 360, corro Forza Motorport 4, foi produzido com auxilio da Pirelli na simulação de pneus. Para quem gosta e quer conhecer http://www.liga1.com.br.

    O principal fator de simulação que existe no AV não é a força G e sim o ambiente de corrida, participar de um briefing, volta de apresentação, o qualy, a largada, nervosismo, primeira curva, disputar uma posição, bater em outro piloto, corrida transmitida ao vivo, entrevista depois da corrida, brigas por ter causado um acidente, ganhar uma prova, esses ponto alem de um jogo que busque simular o mais próximo possível um carro corrida.

    São assuntos que quando praticamos mesmo que virtualmente entendemos como é o automobilismo real e o que sente um piloto.

    Marcos
    http://www.Liga1.com.br

  4. “Mas seria possível tornar-se um piloto treinando no simulador?”

    daqui ha alguns anos a pergunta poderá ser:

    Mas seria possível tornar-se um piloto virtual treinando no simulador real?

    quem sabe as corridas virtuais serão mais interessantes..

  5. Olá Julianne, gostei dos dois posts que você colocou, cheio que detalhes que eu queria saber pois sempre acreditei que os jogos ajudam sim no mundo real, se não fosse assim não teriamos as empresas aéreas treinando horas os seus pilotos nos simuladores.

    Sempre andei de Kart, já tive vários modelos, Parillas, RD, e por incrivel que pareça, os jogos sempre me ajudaram a treinar os reflexos, porém para que os mesmos chegassem próximo a realidade é preciso forçar ao maximo nossos sentidos, ou seja, não usar nenhum recurso de ajuda que os jogos proporcionam, a ideia é deixar o carro configurado da forma mais Hard, e ir para pista treinar, treinar e treinar.

    No mês passado participei de uma corrida de regularidade que o Jan Balder promove em Interlagos, nunca tinha andado no mundo real, só virtual. Foi uma corrida debaixo de chuva com um Puma que chegava a 160 Km no final da reta oposta, o mais impressionante foi como o cerebro trazia de volta detalhes da pista virtual, controle em curvas, saidas de traseira, pontos de freio, o S do Senna então era muito engraçado, detalhe, meu pescoço está dolorido até hoje hehehe!

    Conclui que no nivel de realismo que os simuladores da F1 estão, somado a experiencia dos pilotos é algo que faz diferença, agora dizer que um piloto pode sair do forno pronto para um campeonato apenas por ter passado pelo mundo virtual é loucura, e podemos ter sérios problemas se essa ideia pegar, como você disse, não vai ter como dar um PAUSE antes de uma batida.

    Abraço e gostei dos comentários acima também!

  6. Julianne, lendo seu artigo e alguns dos comentários mostrou o quanto estou desinformado do quanto essa área evoluiu. Achei muito interessante tudo o que foi postado. Lembrava dos dados telemetria que as equipes da Formula 1 vendiam as empresas de games, mas não me mantive informado. Como as coisas evoluíram. Surgiu agora uma idéia de como conseguir simular as sensações das corridas reais. Será que alguns eletrodos estimulando musculos específicos junto com cabos por exemplo para simular tensão no pescoço não estão em algum laboratório sendo testado? Não sei se isso seria aprovado para o público em geral, mas talvez para profissionais que precisem de ainda mais realismo. Sei que existem estudos diversos do pessoal de neurociência que estão relacionados a estimular o cérebro.

  7. Opa, essa informação de que o garoto galês teve 4 anos de kart é muito importante pra relativizar esse sucesso dele, hein? não tinha lido sobre isso nas outras notícias sobre o cara…

    Valeu, Julianne…

  8. Ju, nada haver com o assunto mas você que é uma pessoa atualizada no mundo da f1

    Ouvir rumores que a Pirelli pretende usar 3 jogos de pneus nas corridas, principalmente os super macios para dar mais opções de estratégias as equipes e deixar as corridas mais agressivas na temporada

    procede?

    1. A Pirelli dará todos os detalhes sobre os novos pneus na semana que vem. Pelo que sei, a tentativa é fazer com que as corridas tenham de dois a três pit stops, e não de um a dois, como no final de 2012. Isso influenciaria, inclusive, na estratégia de classificação.

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