GP da Espanha por brasileiros, espanhóis e britânicos: “Coisa de gente grande”

 

Quem diria, mas o GP da Espanha começou com uma certeza incomum no Circuito da Catalunha: a primeira fila não terminaria em primeiro e segundo lugar. “As Mercedes começam na frente, mas a questão é saber se elas continuarão lá. Eles disseram que melhoraram, mas veremos quanto. Acredito que será uma corrida indefinida até o final”, aposta Ben Edwards, narrador da BBC. “Alonso tem de se preocupar com Raikkonen e Vettel, que têm carros muito equilibrados”, apontou Rubens Barrichello na Globo.

Na largada, Rosberg se mantém à frente, mas são Vettel, Alonso e Massa que chamam a atenção. “Vettel foi excepcional. Lembrem que eu falei que quem passasse as Mercedes na largada se daria muito bem”, decreta Galvão Bueno. “Fantástico o Alonso passando Raikkonen e Hamilton por fora”, Luciano Burti destaca uma manobra que, para Barrichello, é “de gente grande”.Para Galvão, “o maior destaque da primeira volta foi Felipe Massa. Jantamos com ele ontem e ele estava com raiva da punição da classificação. Às vezes isso faz bem.”

Na espanhola Antena 3, Antonio Lobato vê “muitas mudanças de direção de Vettel e o que essa McLaren está fazendo aí? Díos mío! Que passão por fora de Fernando em Hamilton! E Kimi deve estar dizendo ‘por onde passou esse carro vermelho?’ O comentarista Pedro de la Rosa completa: “E na curva três. Bárbaro. Vimos alguns na GP2 tentando isso e acabando na arquibancada. Se desse errado, ia para último e ficaria com uma cara de tonto brutal.”

Lobato quer que Alonso vá para cima de Vettel logo, mas De la Rosa adverte. “Fernando tem uma velocidade máxima muito boa para ultrapassar, mas a partir da metade da corrida. No início, quando se está cheio de combustível, é melhor uma sétima marcha mais curta, como de Vettel. Agora vai ser difícil Fernando passá-lo, mas ao longo da corrida entraremos em território Ferrari.” O comentarista chama a atenção para um detalhe da largada do compatriota. “Vimos antes da largada que todos só aqueciam os pneus traseiros e Fernando aquecia os dianteiros também, pois não pensava só na largada em si, mas também na curva 2 e 3.”

Com as posições estabilizadas os britânicos passam a falar de estratégia. O analista técnico, Gary Anderson aposta que a maioria tentará parar quatro vezes.“Eu começaria a corrida com a mentalidade de quatro paradas e tentaria ver qual a degradação até a volta 10. Se não for tão ruim, ainda dá para voltar atrás.”

Mas e se alguém arrisca parar antes para fazer o undercut? “O lado ruim de se comprometer tão cedo com quatro paradas é entrar no tráfego”, alerta David Coulthard. Porém, De la Rosa acha que vale o risco. “As distâncias são tão pequenas que quem antecipar a parada pode sair liderando a corrida, mas depende do tráfego também. Daí você pode perguntar: mas esses pneus não precisam durar mais para chegar ao final da corrida? Mas como é melhor conservá-los, com pista livre ou no tráfego? Prefiro pista livre e forçar o ritmo.”

Burti também quer ver uma parada antecipada, de Massa para passar Kimi. É o que a Ferrari faz,a contragosto de De la Rosa, que acha que parar na volta nove é cedo demais. “Vão tentar passar Kimi, mas ele fará três paradas”, não entende o espanhol. A questão do número de pits confunde os comentaristas. Como De la Rosa crê que todos farão quatro, menos Kimi, acredita que a comunicação via rádio para Webber dizendo que eles farão “algo diferente”, pode significar cinco trocas. Na Globo, Barrichello chama a atenção para a parada antecipada de Massa. “Ele pode ter de fazer quatro paradas”, mas Galvão vê isso com naturalidade.

Para Coulthard, o fato da Ferrari largar já sabendo que faria quatro paradas fez com que “Alonso pudesse forçar desde o início.” O ferrarista também antecipa o pit stop para voltar entre Vettel e Rosberg. “Queimamos a língua com Nico, que está andando no ritmo de Vettel”, salienta Galvão, logo antes da parada dos dois alemães.

Pouco tempo depois, Alonso passa Rosberg e assume a liderança. “Alonso vai para a ponta e essa Ferrari está funcionando bem com ambos os pneus”, observa Edwards. “Falei com Bernie no grid e ele apostou em Alonso. Ainda está cedo, mas pode ser que esteja certo”, emenda Coulthard.

O espanhol consegue abrir de Vettel, que também passa Rosberg, a exemplo de Massa e Raikkonen. “Fernando colocou seus pneus usados agora, então a partir desse momento está em igual condições em relação a Vettel. Antonio está dizendo que está tudo correndo bem, mas a verdade é que, melhor, impossível. Webber está reclamando de desgaste e Vettel tem o mesmo carro. É só Raikkonen que me preocupa agora”, analisa De la Rosa.

O finlandês também está nas contas dos brasileiros. “Não se pode descartar o Kimi, que pode fazer uma parada a menos. E se os outros fazem quatro e ele, três?”, questiona Galvão.

Porém, quando Alonso faz sua segunda parada e Vettel permanece na pista, uma dúvida aparece para todos. “O Vettel não está reagindo, o que indica que ele vai fazer uma tática diferente”, aponta Barrichello.“Pode ser que ele confie no emborrachamento da pista e ter menos combustível para conseguir fazer três paradas”, crê Coulthard. De la Rosa vê um erro grave da Red Bull. “Vamos ver o que Vettel faz, porque ele segue na pista e pode perder a posição com Massa. Não sei o que ele está fazendo. Ele não pode ficar na pista rodando acima de 1min30. É surpreendente que eles não saiam da estratégia de três paradas.”

De fato, logo os tempos de Alonso jogam a tentativa de Vettel ficar na pista no lixo e o alemão é obrigado a parar e a manter-se na estratégia de quatro paradas – mas agora ainda mais distante do espanhol. “Ele ficou na terra de ninguém, entre três e quatro paradas. E perdeu muito tempo”, resume De la Rosa.

A perda no titubeio da Red Bull fica clara quando Raikkonen, claramente em uma estratégia de três paradas, pressiona Vettel. Àquela altura, o alemão ainda teria uma parada a mais que o finlandês pela frente. “Os problemas de Vettel só aumentam e agora ele tem Raikkonen respirando em sua nuca. Vou pedir que todos torçam para ele segurar o finlandês. Enquanto isso, Fernando segue com um ritmo que não tenho adjetivos para descrever”, diz Lobato.

Para Galvão, a briga entre os dois é boa para Felipe Massa, que era segundo. “Quem se deu bem mesmo foi Alonso, que já abriu o suficiente para voltar uma vez a mais e voltar na frente”, observa Burti.

Edwards se empolga quando o finlandês passa o alemão. “Kimi foi muito corajoso com os freios para passar Vettel. Foi brilhante!”. Com isso, acaba atrapalhando Coulthard. “Só não entendi o rádio que passaram bem na hora.” Mas o narrador não se importa. “Eu fiquei animado demais para calar a boca naquela hora.”

Animados também ficaram os torcedores espanhóis, ainda que Lobato não acredite que tenham muito a celebrar.“As arquibancadas vibram com a ultrapassagem de Raikkonen, mas ele é um perigo.”

Nesse estágio da prova, com Alonso cerca de 17s à frente e tendo de fazer uma parada a mais que Kimi, os espanhóis são os únicos a temer Raikkonen. Para Edwards, “é uma questão de saber se Raikkonen vai conseguir ficar na frente de Massa, porque a Lotus antecipou bastante esta última parada. Ele fará 20 voltas.” Na Globo, a possibilidade do brasileiro chegar no finlandês também é citada, assim como a ameaça de Vettel. “É difícil que ele não tenha de parar de novo, então a posição de Massa na pista é real”, aponta Barrichello.

Os brasileiros se impressionam pelo fato de apenas a Lotus se manter com os pneus médios. “É muito estranho quando apenas um carro consegue fazer um composto funcionar”, crê Barrichello. Tanto, que no quarto stint, quando a maioria usa os médios, acreditam que é algo influenciado diretamente pelo finlandês, o que também é apontado pelos britânicos. Mas De la Rosa explica que, em uma corrida com quatro paradas e com três jogos de duros à disposição, todos teriam de voltar aos médios em algum momento. “Eles colocaram os médios para fazer um stint mais longo no final, com duros.”

Após sua terceira parada, Alonso logo chega em Raikkonen e o passa com facilidade. Com uma parada para ambos por fazer, a vitória está selada.“Ele está bem. O que preocupa é a situação de Felipe”, diz De la Rosa. O brasileiro esboça chegar em Raikkonen e depois perde rendimento, mantendo-se em terceiro. “É uma das melhores provas da carreira do Felipe nos últimos anos”, destaca Galvão.

Alguns fatos curiosos divertem os britânicos nas últimas voltas – outros, nem tanto. “Estão dando lições de pilotagem de seu companheiro!”, exclama Edwards quando ouve o engenheiro de Hamilton lhe explicando como Rosberg está lidando com os pneus. “Essa não é uma boa experiência”, diz Coulthard.

A dupla ri do pedido a Perez para que “pense nos pneus” ao lutar com Button. “É uma mensagem codificada?”, questiona Edwards, enquanto Coulthard está mais preocupado com o onboard que vê do carro de Massa. “Desculpe, mas isso não soa bem. Ele tira o pé e usa marchas mais baixas, como se estivesse passeando. E isso porque está indo para cima de Kimi. Não é uma crítica à pilotagem do Felipe, só mostra o que eles estão tendo de fazer para cuidar dos pneus.”

Ao final da prova, as performances dos três primeiros é destacada por todos. “O quão bom é Alonso?”, pergunta Coulthard. “Ele é de tirar o fôlego. É o estilo de atacar no começo que eu gosto.” Falando do início de prova do espanhol, Galvão crê que a prova “foi definida nas duas ultrapassagens que Alonso fez na largada”. E Barrichello completa: “E também quando passou Rosberg. Aí matou a charada.” Já De la Rosa destaca o ritmo “brutal” do compatriota: “Felipe chegou a 26s na mesma estratégia.” Para Burti, o que diferencia o ferrarista é que “ele é um desses pilotos que fazem a diferença. Mesmo tendo cometido erros e tido problemas nas últimas provas, ele ainda assim foi agressivo.”

Edwards acredita que a presença de Massa no pódio, depois de largar em nono, “só mostra o quão bom foi o ritmo da Ferrari. Parece que a decisão da Ferrari em mantê-lo na equipe foi acertada.” E De la Rosa diz que “até esquecemos que Felipe largou em nono.”

Além das boas provas, os comentaristas também chamaram a atenção para o desempenho abaixo do esperado da Red Bull. “Hoje não é o dia deles, mas ano passado eles também tiveram uma corrida difícil aqui. Pode ser uma questão de circuito”, lembra Edwards.“Esse resultado foi bom para o mundial,porque caso contrário Vettel ia escapar”, diz um aliviado De la Rosa. E Burti resume: “Do começo ao fim você não sabe o que vai acontecer. E coloca fogo no campeonato.”

13 comentários Adicione o seu

  1. Lucas disse:

    Delícia de ler, Ju! Adoramos essa coluna. Parabéns.

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  2. Pietro disse:

    Uma pena dizer isso, mas nem senti falta do Regi. E bonita foto nova 🙂

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  3. pneus,pneus,pneus…e pneus

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  4. Davis disse:

    Parabéns Julianne pela competência de sempre nesta matéria. É a mais interessante dentre tantas análises pós-GP. E imagino o trabalho que deve dar , assistir três vezes o GP em três linguas diferentes, fazendo toda sincronização. Baita dedicação, bela e inedita idéia.

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  5. Stefano disse:

    Um cara do calibre do Reginaldo não pode ficar fora de nenhuma transmissão. Nessa corrida o Rubens não comentou tanto, mas dar preferência em colocar o Burti e o Barrichello juntos pode deixar as transmissões um pouco saturadas.

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    1. Americo disse:

      Mas pense no cara que está começando a ver… Ter um Rubens Barrichello, que o pessoal sabe quem é, pode dar mais público que ter um Reginaldo… Eu acredito que seja essa a intenção.

      E cara, cuidado em dizer que o cara é “do calibre”. De uma olhada no blog de alguns famosos comentaristas e se delicie com os absurdos que constam lá. Ou tiveram lapsos gigantes ou simplesmente colocaram estagiários para escrever. E tente corrigir esses blogs comentando. O comentário é retirado. Incrível.

      E não tente fazer isso aqui no totalrace. Esses sem graça não erram pra fazer agente pegar no pé um pouco, huashuashuas.

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  6. É sempre um prazer ler seus posts da TV, obrigado e parabéns 🙂
    De la Rosa mandou muito bem hein? Matou a pau falando sobre a terra de ninguém do Vettel…
    Quanto ao Rubens achei excelente e o Reginaldo fez menos falta do que eu imaginava

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    1. juliannecerasoli disse:

      Também gosto muito da atuação do De la Rosa. É claro que a transmissão é voltada para um piloto, não poderia ser diferente, mas sempre aprendo com ele. E Lobato, por mais ufanista que seja, o deixa falar. Isso também é importante.

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      1. Bruno disse:

        “E Lobato, por mais ufanista que seja, o deixa falar. Isso também é importante.”………

        senti uma cutucada sobre um narrador ufanista tupiniquim ou entendi errado? HHAHAHAHAHAH

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  7. wagner disse:

    Ju, parabéns mais uma vez! Diferentes pontos de vista enriquecem o conhecimento! Continue brilhando ;-)))

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  8. redhorse disse:

    Tenho uma curiosidade. O que a regra diz sobre “linha branca”?

    Pois em Monza (2012), Vettel foi punido por não deixar espaço ao Alonso e, com isso, a Ferrari foi pra grama e perdeu um pouco de controle.

    Já no último GP (Espanha), aconteceu quase a mesma coisa entre Hamilton x Alonso, porém o Espanhol, graças à falta de grama, conseguiu ultrapassá-lo invadindo o limite da pista (linha branca).
    [Ultrapassagem esta, que foi vista como sendo uma das melhores, porém, se fosse a bendita grama, não teria conseguido tal feito]

    Outros casos > Vettel x Button [Alemanha 2012 (punição)]; Vettel x Grosjean [(Abu Dhabi 2012 (devolveu posição)].

    Está certo que o Alemão colocou o carro inteiro pra fora da pista nas duas ultrapassagens, mas o que pode? Uma roda? Duas? Três? Metade do carro?

    Obg.

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    1. juliannecerasoli disse:

      São coisas diferentes:

      – linha branca na defesa de posição (seu exemplo de Monza): a partir do momento em que o piloto que vem atrás coloca qualquer parte significativa (asa dianteira) de lado, o piloto que está sendo ultrapassado precisa deixar um espaço em que caiba um carro entre ele e a linha branca. Ali, Vettel diminuiu esse espaço e, por isso, foi considerado responsável por Alonso ter saído da pista.

      – linha branca no ataque: um piloto não pode superar outro estando fora da pista. A regra considera fora da pista quando nenhuma parte do carro está entre as linhas brancas. Nesse caso, a F-1 é como o basquete (pé/pneu na linha é considerado dentro). No caso da Espanha, o Alonso colocou meio carro para fora, portanto a manobra foi legal. Nos casos do Vettel citados, ele estava 100% fora.

      Outra questão levantada foram as mudanças de trajetória de Vettel e Grosjean durante a largada. Levando as regras ao pé da letra, os movimentos foram ilegais, mas esse tipo de comportamento recebe vista grossa nas largadas e os pilotos sabem disso.

      As regras estão publicadas aqui: http://www.formula1.com/inside_f1/rules_and_regulations/sporting_regulations/8683/fia.html

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      1. redhorse disse:

        Obrigado pela resposta.

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