O microfone e os ex-pilotos

A TV Globo decidiu estender para a Fórmula 1 a tendência dos ex-atletas comandarem a transmissão esportiva. Rubens Barrichello e Luciano Burti farão, juntos, algumas etapas do mundial, começando pelo GP da Espanha, no último final de semana.

A dupla entra em um sistema de rodízio com Reginaldo Leme e sua bagagem de mais de 40 anos no esporte. De um lado, o jornalista domina as técnicas de comunicação e seria o profissional que saberia gerir melhor as informações; de outro, os ex-pilotos trariam sua experiência direta com o evento. Nos demais esportes, como no futebol, ex-jogadores e árbitros reinam absolutos na TV aberta há algum tempo, com jornalistas relegados ao papel de repórteres. Será que profissionais como Reginaldo também estão com os dias contados?

A TV britânica foi além na temporada 2011, com os ex-pilotos Martin Brundle e David Coulthard sozinhos na transmissão da BBC. Sem narrador. Mesmo tendo durado apenas uma temporada, deu certo por lá, mas é de se notar a experiência de 13 anos de Brundle na TV. Fora isso, exemplos de comentaristas-pilotos pelo mundo são vários: Pedro de la Rosa na Espanha, Jacques Villeneuve e Ivan Capelli na Itália, Jacques Laffite na França, Alexander Wurz na Áustria, e por aí vai. Eles recebem treinamento para melhorar a dicção e controlar as técnicas da TV ao vivo, aprendendo quando e quanto falar – e, por que não, acabam virando um pouco jornalistas nesse processo.

Assim como o comentarista de arbitragem, há exemplos de outros ‘outsiders’, como os engenheiros Steve Matchett nos Estados Unidos, Giancarlo Bruno na Itália e Gary Anderson, que servem como comentaristas técnicos.

A favor destes comentaristas está o conhecimento de causa. Contra, está a dificuldade de passar essa experiência adiante, o que o jornalista teria de sobra. É preciso mais do que simplesmente viver uma experiência para estar apto a comentá-la.

Outro fator é a relação entre os atletas e seus parceiros comerciais, algo de que jornalistas eticamente comprometidos ficam longe. Burti tem acordo com o banco que patrocina a Ferrari, e já admitiu que fica em situações embaraçosas quando tem de criticar a equipe, como em episódios de inversões de posição.

Conflitos de interesses à parte, será que é preciso viver uma experiência para comentá-la? Não há uma resposta única. No final, ganha quem consegue explorar ao máximo os dois mundos, seja qual for sua formação. Ganha quem soma conhecimento, prático ou teórico, à habilidade de comunicá-lo bem a seu público.

Coluna publicada no jornal Correio Popular

21 comentários sobre “O microfone e os ex-pilotos

  1. Assim como o Ronaldo, que será comentarista na Copa mas tem uma agência que cuida da carreira de jogadores, piso com um pé atrás quanto aos comentários de de la Rosa na Antena 3, papel de Gené até bem pouco tempo. Ambos são contratados pela Ferrari, é de se esperar que seus comentários sejam bem polidos quando se trata da equipe. Não sei quanto a David Coulthard, embora compareça a eventos da Red Bull, parece-me que ele não é mais funcionário da equipe, mas não tenho certeza. Mas não é nenhuma surpresa que seus comentários sejam mais ponderados do que os da equipe espanhola.

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    1. O de la Rosa vai puxar sardinha pra Ferrari sim. Mas é bom lembrar que o espanhol de destaque está nesta mesma equipe. O narrador puxa muito mais sardinha que o piloto. Sei disso pq era engraçado ouvir a narração que baixei graças a essa sem graça da Ju que me deu curiosidade pela coluna “GP narrado por…”. E o Lobato é incrível. Mas não podemos dizer muito, é meio Galvão a lá Senna antes de 94.

      Ainda assim, o de la Rosa, pelo menos pelo que a Ju passou, pois esse eu não ouvi, só o Gené, parece ser bem mais profissional do que o Gené. Só a Ju para responder.

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      1. Com Lobato lá, fazendo propaganda para o cartão de crédito Ferrari/Santander, não precisam do De la Rosa para “puxar sardinha” para a Ferrari. Na verdade, é o comentarista que chama a atenção para uma boa corrida de Vettel, Raikkonen, etc.

        Conversei com o Burti sobre como gosto dos comentários do De la Rosa e ele justificou “mas também ele tem acesso a todos os dados da Ferrari”. Isso é verdade e ajuda a ter algumas coisas mais claras, especialmente de estratégia. Ele participa das reuniões, sabe quais e por que as decisões foram tomadas. Mas insisto na tecla de que não adianta saber tudo se você não conseguir comunicar isso de forma sucinta e clara. Hoje, acredito que ambos conseguem isso.

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  2. Rubens??? Não obrigado, que triste descobrir que o cara não tem o dom como comentarista, Burti é infinitamente melhor, já está ambientado com a TV, tem um dom natural para ser comentarista, Rubens é patético, não sabe se expressar, foi medonho ele se enrolando com suas explicações, esperava muito mais conhecimento que não veio. Burti sabe até mesmo entrevistar, coisa que o Rubens não tem a menor noção ainda.

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    1. Cara, assista de novo as primeiras transmissões do Burti. Dava pena dele. Não sei se o Rubens vai chegar a ser assim, pq o Burti, eu concordo, é muito bom fazendo os comentários. Alguns meio tolos, mas as entradas dele são sempre pontuais, e as ideias muito mais claras e concisas do que a do Reginaldo.

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  3. Olá Julianne,
    O que eu vejo é o reflexo de anos e anos de acomodação e preguiça de alguns jornalistas, e no caso específico da emissora que tem a exclusividade da f1 aqui no brasil, contribui também, o seu modo burro e engessado de trabalhar. O que o RL fez de importante nesses 40 anos cobrindo a F1, alguem se lembra de uma grande matéria com pilotos ou chefe de equipe que não fossem compatriotas ? Se o RL tivesse aprendido tudo com a categoria ao longo desses anos, precisava ser substituido por dois choferes de luxo? Fiquei sabendo através da imprensa que o comentarista da RG está melindrado com o fato, é bom que ele se acostume, porque daqui pra frente será mais uma peça na “prateleira” da emissora, assim como muitos artistas que pra ela se venderam. O Rubens Barrichelo está trabalhando para a emissora que mais contribuiu pra achincalhar o trabalho sério que ele fazia na categoria quando era piloto, fizeram deboche gratuito e maldoso dele durante décadas, em troca agora ele recebe alguns trocados na conta bancária e um assento numa cadeira elétrica chamada Stock Car.
    Abs

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  4. Ju, acrescentaria ao final do seu post, que o jornalista, ou o ex-piloto que forem profissionais verdadeiros, gostando incondicionalmente da profissão, além de vivenciar o esporte em seu cerne, traduzirão em qualidade o trabalho. Para isso, atualizações e não se sentarem no trono da experiência faz-se necessário , afinal, a úncia constante é a mudança!

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  5. Julianne,

    Para mim sempre será necessário a mescla entre ex-pilotos e pelo menos um jornalista especializado no assunto, durante a transmissão da corrida.

    Quanto ao atual staff da Rede Globo.

    Creio que o Rubens Barrichello é muito passional para ser comentarista, se duvidar ele anda se oferecendo para correr de novo.

    Luciano Burti, é mais preparado, apesar de parecer limitado nos seus comentários pelos padrões da emissora.

    Quanto à Reginaldo Leme com sua aclamada bagagem de 40 anos, ele sempre foi mais do mesmo, sinceramente, não senti falta.

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    1. O problema é, qual foi a ultima vez que o Leme deu uma informação realmente valiosa para a transmissão? 2009? Depois do GP de Singapura? Ele simplesmente fica limitado a (tentar) ler a transmissão, coisa que o Galvão ainda (tenta) se preocupa em fazer.

      Não adianta nada colocar o Leme por lá só de enfeite. Tem que deixar o homem falar.

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    1. E o Luis Roberto? Ele berrando como se cada ultrapassagem fosse um gol é chato demais. Numa corrida atual, onde se chega a 70 ultrapassagens, vai ter 70 berros? Desisto de ver transmissão dele e espero pela do Sportv. O Galvão pelo menos manda um “Bela manobra”, comenta alguma coisa e toca o barco.

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  6. Gostaria de ver um dia como seria uma transmissão com Reginaldo Leme, Barrichello e Burti. Porque aquele pachequismo barato de “vc sabe quem” já encheu faz tempo.

    Em uma época onde os narradores tem que ser poliesportivos (ao menos aqui no Brasil; não tenho base para falar em outros países), seria bom ver como seria uma transmissão com pessoas somente “do ramo”. Aposto que ficaria algo bem mais interessante.

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    1. O grande problema é que o “pachequismo barato” é imposição da própria Globo. Portanto, não adianta mudar o narrador, que o estilo será o mesmo – ufanista, simplório, maniqueísta, superficial. E o próprio Reginaldo Leme é um exemplo claro, pois a sua adequação ao padrão Globo o tornou irrelevante nas transmissões; seus 40 anos de bagagem não servem para nada lá.

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  7. O Reginaldo se usa da falácia do apelo a autoridade. Muito mais pelos seus 40 anos do que pela autoridade em F1 mesmo, pois afinal, ele tem suas limitações técnicas, normal para quem é jornalista e não um piloto. Não é porque ele passou 40 anos em transmissões que ele seria a melhor opção.

    E vamos ser sinceros. Para o grande público, é muito mais familiar escutar o Rubens Barrichello do que o Reginaldo. Só se fala do Reginaldo no meio da F1 ou do automobilismo. Só quem conhece minimamente a área atrela a imagem a pessoa. E o Rubens não. Ele participou de Domingão do Faustão, Casseta e Planeta, Ana Maria Braga, Esporte Espetacular e mais “uma renca” de atrações da programação Globo. O povão já conhece, nem que seja pelas piadas que tanto são faladas pelos comediantes stand up para denegrir, ou ganhar uns trocados, pela sua imagem. Quem deve dar o melhor retorno financeiro? Quando entra a F1 com a voz do Galvão anunciando o Barrichello, pronto, povão se identificou. Tem até piada que o Rubens chegou pra transmissão depois do câmera pra poder ser o segundo. O povo ri disso e acaba conhecendo a figura. Não é o melhor jeito, claro. Mas o povão conhece. E o que a Globo está tentando fazer com a transmissão de F1? Recuperar a audiência, que vinha sofrendo antes de 2008, aumentou esse ano, e depois desandou de vez pelas bandas tupiniquins.

    E vou ser sincero, prum cara que diz esse ano num treino que não entende porque a RBR não está usando a asa na pista inteira, sem se tocar que a regra mudou… Tá mesmo na hora de pendurar o microfone. Tá falando muita coisa errada já. Melhor sair por cima do que sair a lá Schumacher.

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  8. Ju,

    Nada contra, acho que acrescenta bastante à transmissão.
    Acho o Burti ok, só acho que eles deveriam e DEVEM preparar melhor o Barrichello.
    Ainda está muito no oba oba.
    O Regi faz falta, sim.
    Quem deveria sair? Todos já sabem.

    Abs

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  9. Ótimo texto, como de costume.

    Apenas observaria que Reginaldo Leme anda mal ultimamente, limitando-se a comentar a corrida de Fernando Alonso. Quando há outro piloto em destaque, o comentário é de que o Alonso tinha razão ao falar bem de tal piloto…

    Quanto aos compromissos comerciais dos pilotos, não vejo como, no Brasil, isso pode atrapalhar os comentários. A Globo tem patrocínio do Santander para a transmissão da F-1 e isso, em si mesmo, já coloca a emissora em uma posição comprometida.

    Todos respeitamos a formação do jornalista e a experiência de Reginaldo Leme, decorrente de sua convivência íntima com o mundo do automobilismo nos últimos 40 e mais anos. Mas nem isso garante a conveniência e oportunidade de seus comentários. Basta lembrar, por exemplo, do GP da Áustria de 1999, do GP do Japão de 2005 e dos recentes “Alonso é o maior, Vettel só depende do carro” que dão nos nervos.

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  10. Realmente o Reginaldo Leme não está agregando muito ultimamente. Lembro de uma época em que ele informava, fazia boas análises das corridas, trazia dados técnicos, e ainda contava histórias interessantes da F1 de antigamente.

    Hoje, acompanhando a cronometragem no site da F1, consigo fazer uma leitura das corridas muito mais precisa que aquela apresentada pela transmissão.

    Acontece que a culpa não é do Regi. O problema é a forma como a Rede Globo aborda e vende a F1 – um produto para torcedores e leigos. Observando uma tranmissão de futebol, percebemos que o assunto é tratado com profundidade, se debate escalação, esquema tático, regras… com objetividade. Pressupõe-se que o espectador esteja familiarizado com aquilo que está acontecendo não sendo necessárias analogias para explicar o impedimento. É este respeito que a audiência da F1 espera.

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    1. Em geral, a capacidade de transmitir a informação é uma habilidade mais fácil de ser aprendida que a técnica que se está transmitindo.

      Apesar de existirem jornalistas especializados em diversas coisas, como economia, política, esporte, engenharia, tecnologia, saúde… em geral, os profissionais especializados em suas áreas têm problemas estomacais lendo os textos jornalísticos.

      Quase sempre o entrevistado em um assunto técnico tenta simplificar o assunto em termos leigos, daí o jornalista tenta mais ainda. O resultado não é nada bom.

      Transmissão esportiva necessita de locução que prenda o expectador. Isso Galvão faz (ou fazia) muito bem, mesmo com todas as críticas que eu tenha dele. E que não são poucas. E ele é formado em Educação Física! Somado a isso, é importante alguém que saiba do assunto para comentar e tornar mais rica a transmissão.

      De toda sorte, parece que o jornalismo está passando por uma síndrome de falta de identidade. Primeiro porque a comunicação é uma expressão humana, sendo possível desenvolver sem passar pelas bancas universitárias (vide Silvio Santos). Segundo, por conta do conhecimento técnico cada vez mais complexo que envolve os temas abordados, que não é foco dos cursos de Jornalismo.

      Ademais, o fato da internet ter dado voz aos leitores e amadores que escrevem bem. Com comentários e blogs, leitores com texto criativo e habilidade com as palavras têm conseguido colocar opiniões bastante interessantes, tirando do jornalista o poder de interpretar o mundo e imprimir isso como verdade no papel de uma revista ou jornal.

      Nesse contexto, o jornalista engajado com uma linha de pensamento ou com um grupo econômico é prontamente denunciado nos comentários por leitores de opinião contrária, por exemplo. Isso é novo e incomoda o jornalista.

      Outro ponto que julgo interessante ressaltar: lembro-me do tempo em que ler uma revista era um momento de conhecer novas palavras e expressões, além de me informar. Hoje é triste, vide a forma piegas como a SUPERINTERESSANTE escreve hoje como um idioma jovenzinho. Só para ficar nesse exemplo.

      Por fim, ainda surgem as agências de notícias uniformizando o trabalho mundial e fazendo com que todos os telejornais, sites de notícias… tenham as mesmas matérias, versões e opiniões.

      Diante do exposto, fico com o técnico ou com o talento que fez um treinamento com câmera e microfone. Desculpe. Afinal, Paul McCartney nunca estudou música.

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  11. De todos os defeitos que a transmissão global possui, uma qualidade é inquestionável: não haver pausa na transmissão para intervalos comercias…

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