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GP do Canadá por brasileiros, espanhóis e britânicos: “Por satisfação”

“Meu dinheiro está em Vettel, seguido por Alonso e vamos ver o que Raikkonen pode fazer”, avisa o comentarista da Sky Sports britânica, Martin Brundle. Mas era difícil fazer uma aposta depois de pouco tempo de pista no seco, o que bagunçou as previsões de todos. “Quem vai lutar pela vitória vai colocar o supermacio porque tem melhor aquecimento na largada. Mas começar com médios é interessante para quem está atrás, para serem mais rápidos na segunda metade da corrida”, observa Pedro de la Rosa na Antena 3 espanhola, enquanto Luciano Burti informa que “Felipe vai tentar fazer uma parada e os outros farão duas”, na Globo. “Ele diz que não é muito rápido, mas vai tentar”, emenda o narrador Luis Roberto.

Outro ponto de discussão é a Mercedes. “Essa corrida vai por à prova se a Mercedes tem carro para ganhar uma prova normal, até porque a temperatura da pista está alta”, observa Reginaldo Leme.

Na largada, o que salta aos olhos é a queda rápida de ValtteriBottas, que havia colocado a Williams em terceiro.O finlandês é superado por Webber e Rosberg com facilidade, e fica uma volta na frente de Alonso, para desespero do narrador espanhol Antonio Lobato. “Cuidado que os outros escaparam e Fernando ficou atrás de Bottas.” Enquanto isso, Burti vê o asturiano “mais conservador que o normal” na largada.

Para Brundle, o novato foi bem. “Bottas deve estar pensando ‘só tenho de trazer esse carro para casa’ e essa mentalidade está transparecendo nas primeiras voltas. Ele lidou muito bem com a largada na frente, seria fácil ele ter exagerado na defesa e colocado tudo a perder.” Para Reginaldo, nem tanto. “Você vê o que é a falta de experiência de largar na frente.”

Lobato destaca os 2s que Vettel abriu de Hamilton na primeira volta. “Isso me surpreende e Sebastian segue apertando. Esperava mais de Hamilton.” Mas nem todos lembram do alemão, que escapa com facilidade.

O foco volta a Bottas quando, em uma tentativa de ultrapassar o finlandês, Sutil roda. “Ele escapou milagrosamente. Não sei se chegaram a se tocar, mas é incrível que ninguém tenha batido nele e ele tenha conseguido voltar”, surpreende-se Brundle. “Bottas freou muito dentro, Sutil tentou tirar, mas não deu. Muita sorte dos dois”, concorda Burti. “Foi um pouco absurdo, poderia ter evitado isso. Sutil quis ultrapassá-lo de qualquer jeito e tinha de cozinhar mais um pouco”, culpa De la Rosa.

Problemas para compreender o que é dito no rádio acontecem até com falantes nativos do inglês: “Achamos que Kimi tem um problema porque ele reclamou no rádio. Disseram para ele que é o mesmo que aconteceu na China e que ele tem de passar o equilíbrio de freio para frente, então acho que é Kers”, informa, erroneamente, Ted Kravitz aos britânicos. Na verdade, dizem a Kimi que é o mesmo problema de “Friday” e não “China”. A falha é no freio da Lotus.

De qualquer maneira, o ritmo do finlandês chama a atenção – negativamente – de Brundle. “Massa está chegando muito rápido em Raikkonen e, surpreendentemente, os quatro pneus de Kimi não parecem muito bons” 

De la Rosa destaca o graining na Lotus e vê com bons olhos a luta pela terceira posição entre Rosberg e Webber. “Isso é bom para que Fernando chegue”, observa o espanhol. E fica melhor ainda quando a Mercedes coloca os supermacios no carro do alemão, ao contrário do que a Red Bull faz com o australiano. “Teoricamente, a tática mais rápida seria macio, macio, duro. Mas a degradação é muito maior do que esperávamos. Webber colocou médios para se proteger disso. Rosberg me parece ter se precipitado”, indica.

Burti também chama a atenção para a diferença. “As equipes estão aprendendo durante a prova por ter chovido sexta. Vettel e Alonso vão colocar o médio porque Webber voltou muito rápido.”

Não é o que Brundle vê. “Não deu certo [Webber parar antes de Rosberg]. Ele saiu no ar turbulento de Rosberg, o que faz o carro escorregar e os pneus se desgastarem mais.”

Com turbulência e tudo, o australiano está claramente mais rápido, como observa Reginaldo. “Ele até está tentando passar em lugares em que não seria comum porque tem mais ritmo. A Mercedes tem o mesmo problema das primeiras provas e está comprovado que só ganharam em Mônaco por causa do circuito.” Mas Burti discorda. “O problema não é desgaste, é que eles escolheram o pneu errado. O Hamilton está com um ritmo muito melhor com os médios.”

Após muita briga e Rosberg “indo até o limite das regras de mudanças de direção para se manter à frente”, com observa Brundle, Webber finalmente passa. Mas a demora permite a aproximação de Alonso, que aproveita a carona. “Boa pilotagem de todos. É incomum, mesmo com DRS, ver uma Red Bull passar uma Mercedes”, aplaude o britânico.

Logo Rosberg para pela segunda vez e ouve que terá de fazer mais da metade da prova com seu novo jogo de pneus médios. “Acho que Rosberg vai reverter para três paradas. Eles poderiam tentar ir até o final, mas não acho que vão conseguir”, desta vez acerta Kravitz. “Isso mostra que eles não resolveram a questão do desgaste e que Mônaco foi uma exceção”, crê Brundle.

Os espanhóis estão impressionados com Vettel. Primeiro, por sua sorte quando encosta no muro. “Esse toque… em 7 vezes de 10 quebra a suspensão”, suspira De la Rosa. “A sorte continua lhe acompanhando, junto, obviamente, de seu talento, pois está se aproveitando da pole de ontem”, emenda Lobato, que brinca com o ritmo do alemão. “Ele fez a volta mais rápida porque Hamilton está muito perto: 13s”, ri. “Não sei se é ritmo puro ou se são aquelas coisas de Vettel que não entendemos às vezes.” De la Rosa lembra a conversa do tricampeão com seu engenheiro em Mônaco. “Como disse, ele faz isso por satisfação. Como piloto, foi um comentário de que gostei. Mas se fosse chefe dele, não ia gostar nada dessa mania.”

As divagações acabam quando o replay mostra Van der Garde, retardatário, fechando Webber e danificando a asa dianteira do carro do australiano. Nesse momento, a Globo já não transmite a prova ao vivo, preferindo o amistoso da Seleção Brasileira. A emissora até tentou atrasar o jogo, mas a federação francesa e a FIFA não aceitaram. “Tudo bem que o retrovisor do F-1 não é lá essas coisas, mas que descuido, hein?”, Luis Roberto não se conforma com o erro. “Dá para ver que a bandeira azul estava sendo dada, é um erro muito grande do Van der Garde”, avalia Burti. “Acho que Mark achou que ele estava abrindo. E ele deveria abrir, pois havia uma bandeira azul”, opina Brundle.

Mas o que surpreende a todos é que, mesmo com uma boa parte da asa faltando, Webber não diminui o ritmo. “Ele e Alonso tiraram um segundo de Hamilton nessa volta. Está faltando uma boa parte da asa e o carro está rápido. É bizarro”, Brundle não se conforma. “Ele deve estar com o carro saindo muito de traseira. Que estranho o carro ir mais rápido.”

Logo, porém, o australiano frita os dianteiros no hairpin, Alonso aproveita a chance e o passa na reta dos boxes. “É fácil fritar o pneu quando se está com a asa quebrada”, justifica o comentarista, que gosta do que ouve quando o engenheiro de Webber lhe diz que “pode forçar até o final, os pneus estão bons”, ao contrário das etapas anteriores. “É o que queremos ouvir.”

Agora é o narrador britânico, David Croft, que chama a atenção para Vettel. “Temos de lembrar-los que ele está lá, 16s na frente. Sete dos últimos 10 GPs foram vencidos com diferenças de menos de 3s. Claro que não tivemos nenhum SafetyCar ainda, mas isso mostra a velocidade de Vettel.”

Mais atrás, o próximo alvo de Alonso é Hamilton, mas Burti inicialmente não acredita que o espanhol terá gás para chegar. “Ele precisa tirar mais do que vem tirando. A diferença de 2 décimos da Ferrari mostra que a Mercedes realmente evoluiu em ritmo de corrida.” De la Rosa não concorda e valoriza a aproximação do compatriota. “Que ninguém pense que Hamilton está lento. O tempo que ele perdeu foi com os retardatários. E Fernando, que estava deixando uns 3 milímetros para o muro, agora não deixa mais nada.”

Como Burti, De la Rosa vê um “momento Kimi” quando Hamilton diz ao engenheiro: “Me deixe pilotar, cara”. O espanhol ri: “Imagina o quanto ele deve estar forçando e o engenheiro vem comentar sobre os dados do pneu…”

Mas o piloto da Mercedes ainda teria mais um problema: Sutil, cuja lentidão para abrir acaba por pulverizar a vantagem do inglês em relação a Alonso. “Os retardatários estão indo muito mal hoje. Eu, com uma HRT, se demorasse mais de três curvas para deixar passar, me matariam”, lembra Dela Rosa. “Hamilton não vai aguentar. A Ferrari está mais equilibrada e o Alonso, quando quer ganhar uma posição, mostra toda a qualidade que o torna o melhor piloto do momento”, observa Reginaldo, que muda de ideia em relação ao desgaste da Mercedes. “O ritmo do Hamilton comprova que a Mercedes levou vantagem com aquele teste.”

Após uma batalha intensa, o espanhol passa pelo inglês. “Hamilton dormiu um pouco e Fernando foi para cima”, vê Lobato. “Se tocam, se tocam! Só faltava que esse pneu estivesse cortado”, se desespera. No replay, dá para ver que não há toque. “Parece que não tocou, mas não colocaria meu dedo aí”, avisa De la Rosa.

O lance gera elogios. “Foi bonito. Hamilton deixou o lado ruim, mas não conseguiu evitar. São dois campeões, grandes pilotos, que se respeitam muito, mas que foram inimigos quando foram companheiros”, opina Reginaldo. “Um pouco de vingança de Alonso depois do erro de estratégia do ano passado e de ter perdido a vitória para Hamilton”, lembra Croft.

Ninguém entende quando Vettel erra sozinho e escapa na primeira curva. Curiosamente, pouco antes, os brasileiros lembram da prova que Mansell perdeu em 1991, já acenando para o público, e brincam que ele o alemão ouviu o comentário. “Não sei porque ele precisa acelerar tudo isso. É bom para acordar e se concentrar. Ele comete poucos erros e não precisa disso”, diz Burti. “Parece falta de concentração”, vê Brundle.

Nas voltas finais, resta a torcida espanhola por Massa, que passa Raikkonen.  “Boas notícias para Fernando e para a Ferrari”, celebra Lobato.“Gostei da forma agressiva como ele pilotou, conseguiu boas ultrapassagens e, no final, mostrou muita garra em uma briga com um carro bom, contra Raikkonen. O que não dá para entender é o Rosberg, que fez uma corrida tão espetacular duas semanas atrás”, observa Reginaldo.

O desempenho do alemão também não passa despercebido pelos britânicos. “São 42s entre as Mercedes”, calcula Croft, já descontando a parada a mais de Rosberg. “Será que isso tira a sensação de que a Mercedes levou vantagem com o teste?”, questiona Brundle. Não para De la Rosa: “A Mercedes melhorou bastante em termos de degradação e agora é um rival a se ter em conta também em corrida”, afirma o espanhol. Quando Lobato diz que eles não tiveram vantagem com o teste para a Pirelli, o comentarista discorda. “Não digo nada”.

Alheio às polêmicas, Vettel venceu sua primeira prova no Canadá. “Uma prova em que eles não foram bem no passado, mas hoje foram imparáveis, intocáveis e, por vezes, inacreditáveis”, se empolga Croft.

“O Vettel foi fantástico, o carro esteve muito bom. Alonso também foi muito bem em uma prova de recuperação e o Hamilton mostrou que a Mercedes evoluiu, conseguindo ser mais constante em ritmo de corrida. Mas vale também destacar a excelente corrida do Di Resta e também do Vergne”, resume Burti. “Fernando, a partir do momento em que colocou médios, passou a voar e a andar no ritmo de Vettel. Se estivesse largado mais à frente… não sei, Vettel voou com os supermacios”, De la Rosa fica em cima do muro. “Só fico pensando o que teria acontecido se alguém, como Raikkonen, tivesse largado com médios.”

Alonso também ganha destaque. “Fico imaginando o quão importante será essa manobra sobre Hamilton em Interlagos”, diz Croft, que lembra da situação do campeonato ano passado. “Alonso tinha 40 pontos com quatro provas para o final e ainda assim perdeu, mas os 36 de vantagem parecem bons para Vettel.”Burti segue na mesma linha. “O Alonso é um jogador, está feliz com o segundo lugar. Mesmo que o Vettel tenha vencido, ele sabe o quão importantes são esses pontos. O Vettel que se cuide, porque o Alonso vai vir com tudo.”

3 comentários em “GP do Canadá por brasileiros, espanhóis e britânicos: “Por satisfação””

  1. Croft, “Lara” Croft

    “Cuidado que ai vem Alosnso, o ‘BBW – big bad wolf’! e Vettel eh ‘la Caperucita Roja’ ? menos “Lara”, na F1 so tem cobra criada!

  2. O meu comentário serve apenas para lhe dar os parabéns pelo seu blog. Não costumo comentar, mas leio sempre com extremo interesse. Acho espectacular este seu exercício de comparação entre transmissões, não desmerecendo todos os outros posts, que também são sempre excelentes.
    Tudo de bom para si

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