Um mito moderno

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O ano e a vitória mais marcantes da carreira de Schumacher para mim: GP da Espanha de 1996

A rapidez com que as notícias a respeito do acidente de Michael Schumacher mudaram de tom ao longo da última semana dão a exata dimensão da complexidade da imagem do maior vencedor da história da Fórmula 1.

As primeiras reações levavam à crença de que o alemão, “viciado por adrenalina”, tinha encontrado “sarna para se coçar” ao procurar um trecho mais perigoso na neve dos Alpes Franceses, certamente esquiava em alta velocidade e sofrera o resultado de não estar mais no ambiente ultra controlado da categoria em que fez fama.

Alguns dias depois, Schumacher tinha se tornado o herói que caíra após ajudar uma criança, em baixa velocidade. Não um erro, não um risco excessivo, mas uma fatalidade.

Ainda não se sabe o que de fato aconteceu naquele domingo, mas este triste episódio serviu para mostrar como Schumacher sempre terá de conviver com as consequências de ter sempre feito tudo no limite – e quem brinca com limite sempre corre o risco de perder a mão de vez em quando.

Foi assim naquela infeliz decisão de tentar tirar o título de Jacques Villeneuve na marra em 1997, como também no gesto cruelmente calculado de estacionar o carro no meio da Rascasse, em Mônaco, 2006, para evitar a pole de Fernando Alonso. Mas não foi sempre desta maneira. Schumacher foi um personagem muito mais complexo do que um vilão de filme hollywoodiano. Aliás, de vilão, só teve lapsos. De vencedor, teve uma longa carreira.

Seu grande legado é a busca incessante pela perfeição. Depois dele, qualquer piloto que queira ser grande precisa ser muito mais do que um piloto. Foi ele quem levantou a Ferrari de um buraco que parecia sem fundo, trabalhando junto de personagens igualmente determinados a fazer o que fosse necessário para vencer. Foi ele que tornou seu corpo uma máquina para vencer provas com base em um ritmo de classificação. Acima de tudo, Schumi é um trabalhador incansável e estudou cada detalhe para se certificar que tudo estava funcionando em seu limite.

Um exemplo que pode soar um tanto banal eram suas entradas nos pit stops. O alemão testava durante todo o final de semana o quão tarde poderia frear para não ultrapassar o limite de velocidade no pit lane. Que fossem centésimos, ele sempre quis ganhar. É por isso que, por mais difícil que seja sua atual situação clínica, com um coma prolongado, lesões graves no cérebro e a expectativa de uma longa recuperação adiante, é difícil imaginar que cada célula da máquina alemã não esteja trabalhando duro para sair dessa. Kämpfen Schumi!

Coluna publicada no jornal Correio Popular.

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5 comentários Adicione o seu

  1. Vidrado em F1 disse:

    Matéria de uma delicadeza fantástica.
    Parabéns e feliz ano novo Julianne.

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  2. Sergio Magalhães disse:

    Ótimo texto, Ju.

    Fica aqui minha torcida pela recuperação deste fantástico Michael Schumacher.

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  3. CPA disse:

    Julianne, esqueceste-te aí do espisódio nº1 da vilanagem:

    a pancada propositada no Damon Hill em Adelaide no ano de 94, e que lhe valeu o título “by default” já que não havia competidor para competir. Com a devida benção de uma dupla também ela bem manhosa: Flavio B. e Ross B.

    Para o Schummi, as melhoras, se possível.

    Façamos como o Hamilton toca a meter umas fotos a esquiar na neve.

    https://www.facebook.com/LewisHamilton?fref=ts

    Mais um sem o aquele carisma que faz os verdadeiros campeões!

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  4. Dennis disse:

    Julianne, por favor, não deixe o site cair na tentação de fazer o pré-obtuário de Schumacher ou publicar qualquer coisa relacionada ao alemão e seu acidente somente para preencher a falta de notícias da F1 comum desta época. O que estão fazendo na concorrëncia já está beirando o ridículo. Já a cobertura do totalrace por enquanto está perfeita. Parabéns.

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  5. João Leopold disse:

    Cara Juliane – Estes lapsos de vilão que você coloca referente ao Schumacher disseminaram muito forte no Brasil por uma cultura de viúvas. Se você tem acesso aos vídeos da época confirmará o que descrevo abaixo:

    Damon Hill x Michael – Em nenhum momento após a batida do muro Michael muda a trajetória correta depois de sua volta à pista, caberia ao Damon Hill fazer a análise da oportunidade e ele não o fez como assim reconheceu após a corrida. Se contar os décimos de segundo que envolvem toda esta situação é uma maluquice alguém julgar que o Schumacher tomou uma decisão malvada, foi sim uma decisão de um lutador que até então não poderia saber qual a extensão dos danos do carro. Pelo anuário do Francisco Santos o Damon Hill em entrevista deixa claro isto e no dia seguinte foi ele pessoalmente cumprimentar o Michael dando-lhe os parabéns pela conquista.

    Jacques Villeneuve x Schumacher – Esta é uma outra situação extremamente ridícula embora que se atendo ao fato principal pode-se afirmar que Michael jogou seu carro contra o Villeneuve. Agora o porquê este fato ocorreu jamais poderia ser dado como mau caráter e sim um impulso de um piloto competitivo com igual semelhança a maioria dos pilotos campeões.
    O fato é que em uma análise mais acurada do vídeo desta cena verifica-se que o Schumacher está tangenciando na linha ideal quando Villeneuve joga seu carro por dentro. Se neste instante Michael não esboçasse nenhuma reação à história teria sido totalmente diferente com o Jacques sendo integralmente culpado do acidente que inevitavelmente ocorreria. Mas como se vê com clareza no vídeo Schumacher dá um golpe de volante para a esquerda para evitar o acidente e daí acorda para a imbecilidade do seu gesto e dobra a burrice dando outro golpe para a direita e este sim com a finalidade de não perder a posição. Foi um erro sim, mas jamais o caráter deste piloto poderia ser julgado por ele, meu palpite que a motivação não era pela sua conquista pessoal e sim pela vontade de dar um gigantesco triunfo para toda a sua equipe.

    Comissários x Schumacher (Mônaco) – O paradoxismo é que toda decisão de culpa foi imediata por parte dos comentaristas e da parte do Brasil então para mim realmente chocante por esta situação ser imediatamente avalizada pelo Luciano Burti.
    Michael Schumacher fez nesta volta a primeira parcial recorde e perdeu um décimo e uns quebrados na segunda, pois eu digo e qualquer piloto confirmará que isto é real é tentar na terceira abaixar novamente a diferença e qualquer piloto sabe que esta tentativa é uma chamada ao acidente, mas isto não evita que se tente.
    Então o acidente aconteceu e os comissários que inicialmente o inocentaram conforme notícia publicada (Não se encontra mais a disposição então à cópia eu incluo aqui retirada do fórum Faster)…

    http://www.estadão.com.br/esportes/automobilismo/formula1/2006/noticias/2006/mai/27/47.htm
    Citação:

    Fórmula 1 – Temporada 2006
    27 de maio de 2006 – 11:55

    Direção do GP de Mônaco confirma pole de Schumacher

    Comissários aceitaram explicação do alemão para manobra no último minuto do treino classificatório, que prejudicou a volta rápida de Fernando Alonso.

    MONTECARLO, Mônaco – A direção de prova do GP de Mônaco confirmou a pole position de Michael Schumacher, a despeito das reclamações do chefe de equipe da Renault, Flavio Briatore, que acusou o heptacampeão mundial de trapaça nos minutos finais do treino de classificação, disputado na manhã deste sábado. “Ele simplesmente estacionou o carro. É dessa forma que a Ferrari trabalha”, reclamou o primeiro chefe de Schumacher na F-1.

    A um minuto do fim do treino, Schumacher, que tinha o melhor tempo, 1min13s898, perdeu o controle do carro na curva Rascasse, uma das últimas do apertado circuito de Montecarlo, e parou o carro perto do muro, em posição perigosa. Os fiscais de pista apontaram bandeira amarela enquanto Fernando Alonso, da Renault, ainda fazia sua última volta rápida, com parciais mais velozes.

    Mesmo tendo de reduzir a velocidade nesse trecho, o atual campeão e líder do Mundial de Pilotos fez um tempo apenas 64 milésimos mais lento. “Tenho minha opinião e não a darei aqui”, disse um irritado Alonso, que garantiu ter certeza de que faria o melhor tempo. “Depois de dominar todo o fim de semana, perder a pole na última volta é decepcionante”, declarou.

    “Travei as rodas e saí da pista. Tentei virar, mas não consegui. Quando você faz algumas coisas, os inimigos acreditam em uma coisa e seus torcedores em outra”, disse Schumacher, que deu uma resposta seca a Briatore. “Não me importo com o que as outras equipes pensam. Conheço Flavio o suficiente.”

    …e então no fim da tarde um comissário, por coincidência diretor da Federação Espanhola de Automobilismo decide depois com uma série de argumentos que a atitude do Michael Schumacher foi proposital. Um absurdo que combina plenamente com suas palavras na coluna.

    Abaixo para simplificar eu copiei e colei a minha posição em relação a este fato que escrevi no fórum Faster:
    Enviada: Sat May 27, 2006 8:53 pm Assunto:
    ________________________________________
    A retirada desta pole foi um ato errado no meu ponto de vista e creio motivado pela pressão da imprensa e não realmente buscando a verdade. Os fatos que eu concluo pelo amplo conhecimento de Mônaco e pelo inferno que é esta Rascasse onde se freia em curva e exige uma tomada de grande precisão é que Michael estava tentando efetivamente diminuir o seu tempo de pole. Como prova vejam o seu primeiro setor onde ele bate o recorde exatamente nesta volta perde um décimo no segundo setor e tenta recuperar no terceiro. Então não acho que exista algum argumento minimamente plausível para discutir que Schumacher não estava dando o máximo nesta volta.
    A freada violenta esfumaçando o seu pneu direito que nesta curva é o ponto de apoio não é uma coisa que se faça de propósito e seria irracional fazer este desgaste propositadamente sabendo-se que não se troca o pneu até a primeira parada da corrida.
    Neste endereço podem assistir ao vídeo http://ultimosegundo.ig.com.br/paginas/grandepremio/materias/370501-371000/370841/370841_1.html e só atenuem a sensação de lentidão porque as cenas iniciais são em câmara lenta, verifique que ele perde a condução o que o obriga a abrir a curva para não pegar a roda traseira no esterçamento, em seguida ele vira o máximo e o máximo nesta curva não é possível se a tangência não for correta desde o inicio.
    O comportamento da Ferrari neste caso se viu com o carro do Felipe Massa que foi exatamente a mesma situação do Michael com a diferença que ele acertou o muro. E curiosamente o igual acidente do Felipe prejudicou na classificação Michael Schumacher que vinha em volta rápida e a teve abortada pela bandeira vermelha.
    seg 05/06/2006 16:23
    João Oliveira Leopold

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