A nova Fórmula 1

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É comum ouvir profissionais ligados ao mundo da Fórmula 1 considerarem a atual mudança de regulamento como a maior da história. Sim, o esporte já passou por outras revoluções nos motores – na verdade, foi uma grande alteração por década de 1966 para cá – mas dois ingredientes tornam o momento atual especial: a grande influência de sistemas de ‘energia limpa’ e as modificações aerodinâmicas.

O primeiro efeito colateral de tanto rebuliço será na confiabilidade – a ponto de Christian Horner admitir a chance real de que metade do grid não veja a bandeirada na Austrália. Especialmente vindo de um ano em que um estreante como Max Chilton consegue, pela nanica Marussia, terminar todas as provas, o choque de realidade com o que veremos em 2014 será grande. Casar baterias de recuperação de energia com pacotes aerodinâmicos milimetricamente calculados certamente causará muita dor de cabeça em termos de refrigeração. Isso sem contar na complexidade do funcionamento do novo ERS, que agora recupera energia tanto cinética, quanto calorífica (e, por isso, “perde” o K, que vinha da palavra kinetic – cinética).

Espera-se, também, que haja diferentes formas de utilizar o combustível. É sabido que os carros nunca começam um GP com combustível suficiente para terminar a prova e, em algum momento, são adotadas misturas mais pobres para garantir que chegarão à bandeirada. Porém, com o novo regulamento e uma diminuição drástica de 35% no limite de consumo, a tendência é que isso ganhe outra dimensão. De certa forma, podemos comparar com a era do reabastecimento: um piloto podia optar por largar com menos combustível e atacar mais no início para abrir vantagem para, depois, se segurar com o carro mais pesado que os demais.

Sim, o piloto. É claro que os engenheiros estarão monitorando de perto o consumo junto de outras variáveis, mas os mesmos que se impressionam com o tamanho da atual revolução no regulamento são unânimes em afirmar que a sensibilidade daquele que está atrás do volante será ainda mais importante. E isso se deve a um conjunto de fatores.

Uma nova pilotagem

 

O primeiro deles é o motor turbo. Como o torque será muito maior, os pilotos terão de ter paciência antes de colocar o pé no acelerador. Buscar potência antes dos pneus estarem retos na saída de curva vai causar instabilidade e desgaste excessivo, mesmo se a Pirelli, como é esperado, fornecer pneus bem mais conservadores do que fez nos últimos anos. Isso vai favorecer pilotos com uma tocada mais limpa e que priorizam a entrada de curva em detrimento da saída.

O segundo é a própria aerodinâmica. Segundo o piloto de testes da McLaren Gary Paffett, apesar da potência total (motor + sistemas híbridos) continuar praticamente a mesma, os tempos de volta poderão aumentar em 2s apenas devido ao fim do escapamento soprado, marca da geração de carros de 2009-2013. Além de aerodinamicamente menos eficiente, isso também torna o carro mais instável, especialmente na traseira.

O ERS-K também vai alterar o comportamento do carro nas freadas. Isso já acontecia com o Kers que tínhamos até 2013, mas vai aumentar juntamente com a adoção de um sistema duas vezes mais potente.

O quarto fator, e não menos importante, é o consumo de combustível, que pode ser modulado com o acelerador. Não despejar totalmente a potência e usar as técnicas de “lift and coast” (tirar o pé do acelerador antes de afundar o pé no freio para utilizar o freio motor para desacelerar o carro) deverão ser práticas comuns.

Em meio a tantas mudanças, nada melhor do que uma geração tão talentosa para mostrar a que veio. É por isso que o campeonato de 2014 já começou há muito tempo, nos simuladores. E que o melhor se adapte mais rápido.

Confira os detalhes técnicos do novo regulamento em nosso especial sobre a temporada 2014.

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18 comentários Adicione o seu

  1. Netto Neves disse:

    Neste cenário de incertezas, onde tudo pode mudar, será que o Vettel continuárá a ser o cara a ser batido? …. e o Massa ressurgirácomo uma fenix?

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    1. aucam disse:

      Sim, Netto, além das qualidades intrínsecas de fora-de-série que Vettel demonstra, eis porque (citando o texto da Julianne): “Casar baterias de recuperação de energia com pacotes aerodinâmicos milimetricamente calculados certamente causará muita dor de cabeça em termos de refrigeração.” Olha o mago da aerodinâmica Newey aí de novo (com desculpas pelo pleonasmo)! Por isso cravo meu palpite desde agora para 2014: Vettel PENTA.

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    2. Augusto disse:

      E eu penso que um fator atrapalhará o Massa. Ele prioriza a saída de curva. Freia antes e acelera antes. E, segundo o texto, serão favorecidos os que optam pela entrada de curva.

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  2. Stefano disse:

    Com a observação destas questões de turbo, combustivel, ERS e aerodinâmica, vai ficar bem interessante acompanhar as etapas de adaptação dos carros/pilotos. Ainda mais naqueles que tem o perfil “pé pesado”. E quem sabe o Chilton não se dá bem, pois andar devagar pra chegar no final das corridas ele já sabe muito bem, como observado. Quando a politicagem fica de lado, como foi o caso nesse tópico, a F1 fica melhor. Agora, esse pacotão de regras novas tem validade para quantas temporadas?

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    1. juliannecerasoli disse:

      Os motores deste ano ficam homologados até 2020.

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  3. Natan Salemme disse:

    Bela matéria, parabéns!!! Tudo bem explicadinho!!!

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  4. aucam disse:

    Julianne,
    Excelente post, abordando e explicando com muita propriedade os aspectos técnicos para 2014. Quero (ou queria) ver velocidade, duelos mano a mano DE VERDADE, não poupanças, Defesas Alekhine, Aberturas (ou LARGADAS, hahaha) RUY LOPEZ. Aliás, curiosa e coincidentemente, foi o uso da Defesa Petroff (er, digo, Petrov, hahahaha), que deu causa ao DRS. . . Mas, pelo que você tem exposto, Julianne, serei obrigado a entender de xadrez para “vibrar” com essa Fórmula 1 cada vez menos instintiva – lamentavelmente, na minha insignificante opinião. Se Hamilton – que é bota mas não é (felizmente) cerebral – precisará se conter, pelo menos a lavoura estará salva com Vettel, que é as duas coisas ao mesmo tempo.
    Aproveito para perguntar-lhe porque o site não está gravando o nick e o e-mail do remetente, obrigando a renovação a cada post ou resposta enviada.

    Abs.

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    1. juliannecerasoli disse:

      Não sabia que isso estava acontecendo, obrigada por avisar. Mudamos de servidor há pouco tempo e pode ter relação com isso. Avisarei ao pessoal que cuida disso.

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  5. chrystian disse:

    acho que com todas as mudanças que esta por vim se a red bull que tem uma das melhores estrutura pra fabricar um carro e tem sem sombra de duvidas um dos melhores pilotos de todos os tempo se não o melhor com certeza saberá se adaptar mas rapidamente que as demais e se bobear ganhará esse campeonato com uma vantagem maior ainda …a questão pra mim vai ser as quebras quando se foça muito o carro acho q no começa vai aver muita quebra apenas acho vamos aguarda e parabéns pela matéria como sempre bem explicado e muito preciso nos dados PARABÉNS

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  6. Eric Musashi disse:

    Quem entra melhor na curva se dará melhor do que quem prioriza a saída?

    Xiii, prevejo Vettel de novo mitando.

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  7. Sergio Magalhães disse:

    Até que todos se adaptem ao novo estilo de pilotagem, se não acontecer de algum projetista encontrar o detalhe que faz a diferença entre o desempenho dos carros, acredito que teremos um começo de campeonato tão empolgante quando o de 2012 com sete vencedores diferentes nas sete primeiras etapas.

    Torço muito por isso.

    Um abraço.

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  8. José Renato Fernandes disse:

    O #7 vai deitar…

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  9. Jonas Perdigueiro disse:

    Tapetão para segurar o Vettel.

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  10. ]Muguello[ disse:

    Se a influencia do piloto aumentar, tenho certeza que a F1 vai ficar mais interessante e competitiva. Se vai ser bom ou ruim para piloto X ou Y não me interessa. Quero ver brigas na pista e que o melhor conjunto carro/piloto vença. Sem maracutaias ou trapaças.

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    1. Eric Musashi disse:

      Concordo plenamente. Tem gente chorando que o tempo de volta vai aumentar, mas pow, teremos carros mais rápidos de reta e mais lentos de curva. Isso significa:

      a) Menos aerodinâmica
      b) Mais trabalho do piloto
      c) Freada mais cedo (o que dá uma margem maior para arrojados/loucos frearem mais tarde)

      Duelos míticos como Arnoux x Vielleneuve jamais aconteceriam na F1 cheia de aerodinâmica, por exemplo.

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  11. CPA disse:

    está de volta o “win in the slowest possible way” do jackie stewart.

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  12. celso disse:

    Legal, Ju! O seu blog é OBRIGATÓRIO para quem gosta de F1.

    Parabéns!!!

    bjs

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  13. Maurício disse:

    Eu já não sou tão otimista com o domínio da Red Bull, pois temos que considerar alguns pontos:
    -O fim do escape soprado, principalmente porque o da Red Bull era o melhor.
    -O motor Renault de 2013 era otimizado para saídas de curvas, acho que com o motor turbo deve complicar um pouco.
    -Fora isso eu ando lendo que o motor Mercedez é brutal comparado a concorrência.
    Acredito que a genialidade do Andrew Newey deve se destacar em algum momento, mas no início da temporada eu tenho algumas dúvidas.

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