Ele era da casa

1994 Brazilian Grand Prix

John Lennon e Ayrton Senna. Que precisa a comparação feita pelo jornalista inglês Will Buxton, que reproduzimos em nosso especial sobre os 20 anos da morte do brasileiro. Apesar da obra dos dois falar por si só, ambas as vidas foram interrompidas antes – e ainda por cima de forma abrupta, violenta, inesperada – que tivessem tempo de se mostrarem mortais.

Porque eles nunca se mostraram mortais em vida. Nasci depois do assassinato de Lennon, mas lembro precisamente do sentimento de “é o Senna, não vai acontecer nada” ao ver o acidente de 20 anos atrás.

Mas Senna se mostrou humano e se foi. E deixou uma expectativa indigesta para cada um nós em cada manhã de domingo. Vai ver é essa frustração inevitável que faz tanta gente que continuou acordando cedo e curtindo as novas batalhas que iam aparecendo, de certa forma provando que seu amor pelo esporte era mais forte que a lenda, se sentir desconfortável com tamanha adoração, que transcende esse nosso mundinho. É como conhecer a fundo a discografia de Lennon e se irritar quando alguém se contenta com “Imagine”.

Deveriam sentir-se honrados.

Não adianta vir com números, com papo de “só foi campeão com melhor carro” ou relembrar momentos em que Ayrton teve atitudes que desafiam a aura criada ao redor dele. Nada disso tem a ver com o mito.

Para entender onde Senna está no imaginário brasileiro temos de voltar à realidade do país no final dos anos 80 e começo dos 90, cheia de incertezas, inflação absurda, decepções nos primeiros anos pós-redemocratização. Domingo de manhã era a hora da nossa redenção. Senna era um exemplo de determinação, incutia em nosso imaginário que não éramos tão inferiores assim, que, se perseverássemos, atingiríamos nossos objetivos. Se tudo isso era verdade ou pura ilusão, não importa. Senna adotou esse papel de messias a cada frase de auto-ajuda e toda vez que empunhava a bandeira.

Aquele ar ora sobrenatural, ora gente com a gente, exatamente quando estávamos tão carentes como nação, que explica por que a memória dele ainda é tão viva nas pessoas, por que há essa adoração muitas vezes cega.

Talvez por isso eu tenha sentido, do alto de meus nove anos, naquele 1º de maio, que eu tinha perdido alguém da família. E acabei descobrindo, nas até hoje impressionantes cenas do cortejo, que não estava sozinha.

E fiquei honrada pelo esporte que sempre acompanhou minha vida ter tocado tanta gente.

22 comentários sobre “Ele era da casa

  1. Julianne,
    Parabéns!

    Não tenho muito o que dizer sobe o seu texto. Só que pareceu sofrido, gestado com todo amor e carinho, mas com uma dor profunda, um incômodo… Me lembrou a sensação que tive há 20 anos, quando tinha 17 e liguei a tv NA HORA da batida.

    Sensibilidade. não sei explicar, mas seu texto mexeu comigo. Diferente dos outros textos, esse bateu fundo.

    Novamente, parabéns.

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  2. A partida inesperada e prematura de Senna deixa a História da F 1 PARA SEMPRE INCOMPLETA; deixa muitas emoções e duelos épicos somente possíveis nas praias do pensamento.

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  3. Parabéns Ju,

    Também acho que para entender o mito Senna temos que analisar o contexto do Brasil nos ano 80 e 90, talvez fosse hoje ele não tivesse a mesma aura de herói que tinha naqueles anos onde tudo dava errado, o pais parecia não ter jeito, etc.
    As vitorias dele eram uma espécie de terapia coletiva para a nação, que espantava um pouco seu complexo de vira-lata.

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  4. Julianne, parabéns pelo texto.
    Porém, como imagino ser você a pessoa mais capacitada para tal tarefa, pergunto sobre as estatísticas de Senna. O número de poles e mesmo o de vitórias é impressionante, mas em que medida esse número se compara aos de outros pilotos? Pensei, por exemplo, qual seria a real capacidade de uma Toleman ou mesmo de uma McLaren Ford diante dos adversários.
    É possível mensurar isso em números? Além disso, imagino que não teríamos paralelo com as condições atuais da F1, não?
    Mais uma vez, parabéns.

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    1. Cada pergunta que vc faz Eduardo.
      Com a Toleman-Hart de 1984 era pouco o que podia fazer. De fato abandonou em mais da mitade das corridas. Teve o 2° lugar magistral na chuvarada de Monaco e dois 3° (Brands Hatch e Estoril), porém, o Johansson levou essa mesma Toleman-Hart a um 4° em Monza. A McLaren corria de Honda no tempo de Senna, e era uma caranga muito superior às outras, com Senna então…. Todas essas estatisticas estão na internet. Cara, Procure e mesure você mesmo. Já Juliane faz bastante para estar pedindo trabalhos extraposts.

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      1. Bruz, me desculpe, mas acho que você não entendeu o comentário.
        Sei das equiparações técnicas da Toleman, mas sei que a McLaren andou com motor Ford em 1993.
        Acho sempre interessante a maneira como a Julianne aborda as estatísticas, além dos números, mas se você é editor dela, me desculpe.
        (É por essas e outras que não costumo fazer comentários. Lamento.)

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      2. Bravo Eduardo. Vejo que vc também tem mesura. Não seja timido cara, nem deixe de aportar por entrompe de outros. Denos de presente o que você pensa e sente. Lamentar não leva a nada. E tem que procurar aportar em vez de andar pedindo.
        Não sou editor nem pretendo, mas os comentarios estão desenhados para serém interativos. Essa McLarem ficou devendo, mesmo que ganhou 5 vezes no braço do Senna, quebrou também 5 vezes. Já não era sua vez. Fez de tudo para ir para a melhor equipe, e a FIA acabou com a vantagem da suspensão. Já não eram tempos do Senna.

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  5. Nem jogava espuma pela boca, nem lutava com uma espada laser, nem media 3 metros e também não lanzava centelhas pelos olhos. Nunca salvo nenhuma dama em apuros de um dragão, nem sequer fez uma tesis para salvar o Brasil da crisis. Me vão a desculpar, mas Ayrton Senna era um grande – grandíssimo – piloto de automobilismo, e só. O ideario coletivo imagina coisas e dão valor pelas suas faltas, mas vamos a caer na real aqueles que possam pensar direito. Senna fazia o que ele gostava, era um cara de um temperamente forte, e muito arrogante. Heroi do que?? Porquê??
    Eu prefiro ver o Senna na sua justa dimensão para poder desfrutar dos seus logros. Foi embora cedo como muitos tantos outros pilotos da era do automobilismo romántico. Senna foi um deportista famoso, considerado por muitos como o melhor e mais arrojado piloto. Eu acho que entre tantos arrojados, foi o que conquistou as maiores marcas. Se fosse de verdade um heroi, conseguiu muito pouco, mas era apenas humano.

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  6. Senna fez com que muitos brasileiros sentissem orgulho de ver os gringos tendo de engolir nossa bandeira, mostrando pra eles que aqui não é só floresta e mulher pelada.

    Só que nos deu um padrão de qualidade, de gente guerreira, de piloto que vai pra cima, sem se importar com qual equipamento, que, nos dias de hoje, achamos nossos representantes como massa e rubinho (por ex) pequenos demais pra nos representar perante os gringos.

    Pilotos esses que nem com o melhor carro foram capazes de levar o Brasil a ter um representante com o número 1 estampado no carro. Senna não foi só bem. Ele fez esse mal. Nos acostumou a ver o Brasil ganhar e, quando isso não acontecia, o espetáculo era certo. Na chuva então, era brincadeira o que o cara aprontava.

    Na F-1 de 2014, acho que só Alonso e Hamilton e tem uma pitada do estilo Senna de pilotar. Acredito que mais o Hamilton porque, às vezes, vai mais pra cima do que deveria e acaba errando. Senna fez muito esse negócio de “ou passa, ou vai os dois pra brita e é fim de prova”. O Alonso erra muito pouco e tem uma tocada mais limpa.

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    1. Tb acho que são esses dois pilotos os que mais lembram o Senna. Vettel tb lembra na questão das poles. Quando Senna tinha um carro perfeito a diferença que ele impunha aos outros nas poles que ele fazia era impressionante. Largava na pole e ganhava de ponta a ponta, coisa que o Vettel fez muito, especialmente em 2011 e 2013.

      Hamilton lembra pela habilidade na pista molhada e a questão do ímpeto para ultrapassar, mas na minha opinião Alonso é o que lembra mais, pela questão dos bastidores e pela tocada errando pouco que Senna adquiriu nos ultimos anos, por exemplo em 1993.

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  7. Vendo toda a comoção após 20 anos, é definitivo: pra quem gosta do Senna, ficou uma rachadura no tempo!!! E pelo visto não é pouca gente =)

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  8. Muito legal seu depoimento Ju. Senna ajudou a construir essa imagem “sobrenatural” que as pessoas tinham dele. Em um especial de fim de ano do Roberto Carlos, Senna em entrevista após ser campeão mundial, relatou que viu a imagem de Jesus Cristo na pista.

    Muita gente acredita nisso até hoje, o proprio Senna se estivesse vivo, acho que manteria essa posição, porque ele deve ter visto mesmo, da forma que qualquer um quiser interpretar.

    Outra passagem interessante foi quando a Xuxa convidou ele para uma entrevista em seu programa, e ela estava já muito afim do cara e nem disfarçava. Então ela começou a dar beijinhos com um batonzão bem forte e dizia a cada beijo: Feliz 88, feliz 89, feliz 90, feliz 91, feliz 92, feliz 93 e parou.
    Alguns interpretaram como uma premonição, já que 94 não seria um ano feliz para ele.

    Quando o corpo voltou para SP e teve toda aquela catarse coletiva, com o povo correndo atrás do carro de bombeiro em seu cortejo fúnebre, a multidão que velou o corpo na camara municipal e o enterro no cemitério do Morumbi, até hoje de brincadeira com meus amigos a gente fica fazendo exercícios de adivinhação imaginando qual celebridade brasileira vai ter algo parecido. Roberto Carlos? Pelé? Dilma? duvido. Pelo atual momento, talvez comemorem o da Dilma.

    Uma coisa é certa, para desencadear toda essa emoção é preciso uma conjunção de fatores, e a morte do Senna, jovem, na pista, num domingo de feriado, liderando uma corrida, lugar em que as pessoas se acostumaram a vê-lo, foi demais pra cabeça do brasileiro.

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  9. Tava pensando, apesar de ser grande fã do brasileiro, acho que uma hora dessas nós todos, digo o mundo, precisaremos dar ao Senna o descanso merecido. Lá se vão 20 anos de separação do público e ainda revivemos seus melhores momentos ou falamos dele como se tudo tivesse acontecido ontem. (Incluo-me nessa)

    E eu acho que ele merece todas as homenagens pelas transformações que trouxe a categoria, entretanto, acredito que é chegada a hora de nós todos desacelerarmos também e deixarmos ele figurar apenas no rol dos grandes do automobilismo.

    Não sei, posso estar falando uma grande bobagem (e peço que me perdoem se for o caso)…mas é que chega uma hora que é preciso olhar para frente e seguir em frente.

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  10. Fan de Beatles ha muito mais tempo que varios aqui sao nascidos posso dizer que John sem Paul foi pouca coisa. E vice-versa. Paul foi muito prolifico sozinho, mas qualidade mesmo, pouca coisa apos Beatles.

    A ideia de John de construir paz com musica era tao bobinha quanto ineficiente. Ninguem deixou de matar ou morrer no Vietam pelas musicas.

    E Beatlemaniaco antenado sabe que George na carreira solo se revelou inteligente, criativo, divertido. Recomendo o doc do Martin Scorcese.

    Em relacao ao Senninha….puts, ta virando alguma coisa igual a culto religioso. Quem sera o Mark Chapman essa vez?

    Toda idolatria desvairada entra na irracionalidade.

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  11. Me desculpem os “motorzinhos de 2014”, mas o berro das máquinas faz parte da identidade da F1…aproveitando o gancho da morte de Senna, e as retrospectivas de algumas corridas, para rememorar como era MARAVILHOSO o som dos v-12 Honda de 1991/1992!!! Aquilo sim era um hino a adrenalina, ao automobilismo, ainda bem que curti esses saudosos momentos, o som arrepia!http://www.youtube.com/watch?v=uIwNO6TcN4E

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  12. Rever as corridas no Sportv foi algo indescritível, uma mistura de nostalgia com tristeza. Fico só imaginando como poderiam ter sido as corridas contra o Schumi. Acredito que teríamos duelos fantásticos.

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  13. JuCera,

    Surgiu uma dúvida e resolvi tirá-la com você:

    Durante as transmissões de 91/92 falava-se no V-10 aspirado da Honda. Sempre que ia pra Monza ou Spa,por ex, já ouvi o narrador dizer que o V-10 e tal. Ouvia também dizer que V-12 era Ferrari. Tivemos também V-12 da Lamborghini, da Yamaha, entre outros e os V-8 da Ford.

    Agora, revejo reportagens da época falando em V-12 da Honda, sendo que, na época, falava-se mais em V-10.

    Essa é a minha dúvida. Se a linda McLaren do Senna era V-10 ou V-12.

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    1. Vamos lá: em 1988, era um V6 turbo. Em 89 e 90, um V10 aspirado. Em 91 e 92, um V12. E, quando a McLaren passou a usar os Ford, um V8. Talvez a confusão seja porque a Honda não fornecia motores iguais para todas suas equipes.

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      1. Aproveitando o gancho, esses V-12 da Honda de 91/92 tem o som incomparável, e quiçá o mais belo que houve na categoria. Me lembro de ver um programa na tv fechada, onde uma indústria de supercarros japonesa primava até mesmo ‘pelo som’ de seus motores para agradar aos futuros compradores, realmente coisa de eficiência japonesa. Dizem que essa nova F-1 sem som pouco importa, pra mim não, esses V-12, junto com os pegas eram uma combinação primorosa. Essa questão do barulho é tão marcante, que uma associação que sempre fiz dos motores do dia-a-dia, com a F-1, é o inesquecível ronco da 750 cbx Honda, chega a arrepiar essa trilha sonora, pra quem não degusta a categoria apenas com os olhos, mas com o olfato, coração e audição. Qualquer semelhança não é mera coincidência, é tecnologia e perfeccionismo japonês. http://www.youtube.com/watch?v=LWBSHt90TFk

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