Sinal vermelho

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Quando você chega para trabalhar no circuito e tem de passar por dezenas de pessoas que ficam debaixo de sol, investigando com curiosidade os nomes em cada credencial e tirando fotos com quaisquer que apareçam com um uniforme vermelho, você não tem dúvidas: está em Monza, palco de um dos GPs mais tradicionais da temporada, na Itália.

Monza é especial por vários motivos: pela paixão quase cega dos tifosi ferraristas; por ter o pódio mais impressionante da temporada, logo em cima da reta principal, aproximando o público de seus ídolos; pelo traçado único, recheado de retas, o que faz com que os carros utilizem uma configuração diferente de todas as outras etapas do calendário.

Talvez por tudo isso fica mais latente, aqui, a decepção de muitos fãs com os rumos que a categoria tem tomado.

Sim, os seguranças tiveram muito trabalho para segurar o público que se engalfinhava na sessão de autógrafos dos pilotos da Ferrari, mas o coro para Fernando Alonso, tratado como um herói que consegue suas façanhas sempre da maneira mais difícil para os italianos, já não é o mesmo dos últimos anos. A versão que os tifosi fizeram de Can’t Take My Eyes Off You, clássico de Frankie Valli and The Four Seasons, para o piloto espanhol era entoada de forma tímida.

Nas arquibancadas, um vazio que nos acostumamos a ver em lugares em que a Fórmula 1 não tem tradição, como na China ou no Bahrein. Os números oficiais não foram divulgados, mas corre o rumor de que apenas 30% dos ingressos haviam sido vendidos até a sexta-feira.

A Itália vive uma crise financeira e isso é fato. A Ferrari, também, não vem tendo um ano competitivo e tem de se satisfazer com um pódio ali, outro aqui, mas a insatisfação de um povo que trata a Fórmula 1 de uma maneira mais técnica do que outros públicos – até por não ter um piloto campeão do mundo há mais de 60 anos – deve ser ouvida.

Não que o campeonato esteja ruim, longe disso. A Mercedes vem salvando a disputa ao liberar a briga entre dois pilotos muito igualados em termos de desempenho, não apenas porque isso permite a briga interna, mas também porque induz ao erro e a quebras, o que abre oportunidades para os demais.

Porém, uma mudança técnica promovida de forma tímida demais e o excesso de politicagem estão cansando até os mais fieis. E Monza é um símbolo desse descontentamento justamente porque sempre foi a casa da F-1 ‘hardcore’. “Circuitos feios, carros feios, sem barulho no motor. A Fórmula 1 morreu”, diz a faixa colocada logo na reta dos boxes. É uma reclamação que não pode ser ignorada.

7 comentários sobre “Sinal vermelho

  1. Seu comentário é uma perfeita síntese do que está ocorrendo. Meu palpite é de que apesar de todos os desmentidos gerais – por parte da Ferrari, da Mercedes, de Hamilton e de Alonso – é bem possível que vejamos Alonso na Mercedes em 2015 e Lewis de volta à McLaren. A mim me parece ser o que faz mais sentido, o mais lógico, diante de tudo o que vem ocorrendo até agora. Se isso ocorrer, quem irá para o lugar vago da Ferrari? A dupla Vettel/Newey ou mesmo Vettel sozinho? Também fico imaginando a engenharia jurídica que revestiria o contrato de Alonso com a Mercedes, para se assegurar diante de um Rosberg insuspeitadamente tão forte.
    Quanto à Fórmula 1, está aí o que deu ela ter se transformado em jogo de xadrez, onde estrategistas e projetistas têm até maior peso nos resultados que os pilotos. O quadro que você traçou acima, Julianne, é realmente impressionante.

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  2. Julianne, notei que a foto não tem crédito, voi vc quem tirou?

    Que inveja de vc poder ver esses carros ao vivo rasgando a Rettifilo Tribune.

    Realmente a questão do público nas corridas está se fazendo notar. Parece que o Bernie simplesmente não se importa com essa parcela de renda já que os contratos com os organizadores das corridas e as quotas de transmissão é o que realmente importa para FOM.

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  3. Oi Ju,

    Minha paixão pela Fórmula 1 e pelo automobilismo de um modo geral, vai muito além de carros bonitos, barulho, pilotos brasileiros, etc e tal.

    Mas não há como não olhar e admirar carros bonitos.

    Ontem eu postei no facebook foto de uma largada do GP da Itália de 1980, que foi excepcionalmente disputado em San Marino porque Monza estava em reformas.

    Peguei a foto na página da Williams. E é um colírio para os olhos, assim como é sinfonia para os ouvidos o barulho dos V12, V10 e até dos V8 aspirados.

    Como ainda não ouvi os atuais de perto, vou formar minha opinião apenas em Interlagos.

    Pra mim, que sou apaixonado, de verdade, esses fatores estéticos não limitam meu desejo de assistir corridas, acompanhar tudo o que acontece nos bastidores.

    Mas, como disse, não tem como olhar/ouvir e não admirar os carros de tempos atrás. Alguns de nem tão tempo atrás assim.

    Bom trabalho aí, Ju!

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  4. “Circuitos feios, carros feios, sem barulho no motor. A Fórmula 1 morreu”- melhor colocação da realidade da F1. Nesse ponto a Mercedes -que está fazendo o que pode para manter um campeonato aberto para seus pilotos- é muito fraca pra segurar essa decrescente que a categoria passa. Apesar de que a culpa não deixa de ser um pouco da Mercedes. Ferrari, Red Bull, McLaren que têm orçamentos absurdos para investir em tecnologia e ACEITARAM as regras deste jogo, obviamente com o interesse de vencer. Agora, deixaram nascer uma categoria que draga dinheiro dos novinhos e se livra das velhas pistas (que não dão todo aquele dinheiro).

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  5. Pra quem torce apaixonadamente pela Ferrari realmente a temporada tem sido um sofrimento.

    O que não é meu caso.

    Tenho achado o campeonato ótimo, boas brigas dentro da pista, novos talentos aparecendo bem… os bicos dos carros são feios, mas já nem ligo mais.

    Acho que quem reclama não entende P nenhuma de F1 ou é um nostálgico contumaz da era Schumacher.

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