Caminhos perigosos

Há um ano, a Fórmula 1 vivia a expectativa da maior revolução tecnológica de sua história, que traria consigo um novo panorama na relação de forças da categoria, destronando os então imbatíveis da Red Bull e promovendo a ascensão da Mercedes e sua competente integração entre a unidade de potência e o chassi.

Há quem diga que toda essa revolução foi um tiro no pé. Muita gente torceu o nariz para o som menos potente e mais “melódico” dos novos motores, os custos das equipes foram às alturas sem que os dirigentes entrassem em acordo sobre uma consciente redução de gastos, que se faz necessária e “mofa no escaninho” há anos a exemplo da reforma política no Congresso brasileiro, e, na prática, a dinastia de uma equipe foi transferida para outra.

Porém, o importante, e de muitas formas corajoso, passo dado em direção a tecnologias mais sustentáveis e diminuição de pelo menos 35% no consumo de combustível nunca seria algo absorvido facilmente em tão pouco tempo. Se a adoção de carros que poluam menos enfrenta resistências até entre os consumidores comuns, o que dizer de quem passou a vida inteira jogando poluentes no ar somente para saciar seu gosto pela velocidade?

Toda mudança cultural é lenta. E, na Fórmula 1, há mais do que a cultura do culto a motores beberrões e barulhentos que precisa ser mudado. Afinal, uma categoria que rivaliza em termos de lucro com eventos com muito mais datas ao longo do ano, como o campeonato inglês de futebol ou as grandes ligas norte-americanas, e só fica atrás das Copas do Mundo de futebol e dos Jogos Olímpicos vive a séria ameaça de ter um grid de apenas 18 carros, fruto da distribuição escusa e desigual dos recursos.

Apesar das mudanças sutis no regulamento de 2015 significarem que as equipes terão menos desafios técnicos, isso não quer dizer que a Fórmula 1 esteja navegando por mares mais calmos. E é nesse clima de instabilidade que mora o perigo.

A história é prova disso. Não foram poucas as vezes em que o promotor da categoria, Bernie Ecclestone, se aproveitou – e até fomentou – esses momentos de crise para ganhar poder. E, mesmo aos 84 anos, o ex-vendedor de carros usados não parece disposto a largar o osso. E faz campanha para que a Fórmula 1 retroceda até na questão dos motores, jogando com os interesses de quem tenta derrubá-lo, como sempre fez com maestria. Uma nova vitória de Bernie seria outra derrota para a competição, que precisa de estabilidade para acertar as contas e desenvolver uma tecnologia importante para o futuro.

 

3 comentários sobre “Caminhos perigosos

  1. É isso mesmo, Julianne, se Bernie conquistar mais esta “vitória” (derrota para a F1) vai ser um recado ainda mais claro às montadoras que estão (com exceção da Ferrari) de que a categoria é máxima em gastar dinheiro e, em virtude da atual realidade econômica (coisa que Bernie provavelmente ainda não se atentou), não vale o esforço para estar no grid.
    O futebol: as regras são as mesmas para todos.
    No basquete: as regras são as mesmas para todos.
    Na natação: as regras são as mesmas para todos.
    Na F1: as regras dependem da interpretação do regulamento pelos advogados e se não tiver jeito, a equipe mais forte (em marca e dinheiro) consegue até mudar um campeonato para benefício próprio.
    As regras da F1 são voláteis e isso não só confunde os fãs como parece campeonato bairrista de qualquer competição, onde quem grita mais e o “dono da bola” podem mudar tudo a qualquer hora para não “fazer feio”, mesmo fazendo.
    Se continuar desse jeito, a F1 será a categoria máxima do automobilismo, mas não será acompanhada por esta multidão que ainda vê graça (eu estou nessa turma) em uma competição. As grandes emissoras abertas não transmitem mais, a F1 não se abre para a internet, e a própria categoria não respeita os fãs que a respeitam.
    O futuro da F1, se não tomar cuidado, será tão medíocre quanto quem a comanda com Deus, não com rei, na barriga.

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  2. Reconheço o mérito de Bernie Ecclestone Na F1, imenso, mas 84 anos e uma idade
    que as vezes a pessoa vira criança e faz merda, isso tem acontecido com muita frequência com o dirigente máximo da F1. Ficar falando em volta dos motores aspirados é um absurdo, com tanto investimento em tecnologia que as equipes fizeram, só mesmo na cabeça de uma criança.

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  3. Ou as equipes se unem para administrar a categoria, as grandes não estão a fim, ou teremosque aguardar a ida do Bernie para o além. Ou pelo menos um asilo.

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