Análise da estratégia: A Mercedes poderia ter evitado a vitória de Vettel?

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Há quem diga que a Mercedes perdeu o GP da Malásia quando chamou Lewis Hamilton e Nico Rosberg para os boxes na volta 4, aproveitando o Safety Car causado por Marcus Ericsson para se livrar do primeiro jogo de pneus. Mas os problemas dos alemães apareceram bem antes. E provavelmente uma dose de soberba tenha feito com que os campeões mundiais não tenham levado isso muito a sério.

Eles tinham consciência, mesmo antes da prova, que a Ferrari poderia fazer uma parada a menos e, desta forma, seria uma ameaça real. E os alemães simplesmente não teriam como reproduzir essa estratégia, pois seu consumo de pneus era maior. A saída seria apostar no próprio ritmo para ‘ganhar’ esse pit stop extra e vencer. Porém, quando chegou a hora da verdade, também faltou ritmo.

O maior desgaste vem, em parte, pelas próprias características de um carro mais aerodinamicamente performático, mais ‘no chão’. Mas também tem a ver com o acerto escolhido, demasiadamente agressivo, como reconheceu Toto Wolff.

Esse acerto foi definido nos treinos livres nos quais Hamilton pouco andou devido aos problemas técnicos que teve. E isso comprometeu o nível de informações da equipe para restante do final de semana. A Mercedes fechou a sexta-feira, quando são feitas as simulações de corrida, com 66 voltas, contra 88 da Ferrari.

Como o W05 destruía os pneus, consequentemente era mais consistente com os duros do que com os médios. E eles sabiam disso, tanto que gastaram os médios já no Q1, diferentemente do padrão natural. Afinal, tinham claro que os duros seriam os pneus prioritários para a corrida.

Com tudo isso em mente, a Mercedes foi para a prova com a expectativa de sobreviver com os médios até por volta do 10º giro para depois fazer 3 stints com pneus duros. E sabendo que a Ferrari conseguiria chegar até o 15º e parar uma vez a menos.

É nesse contexto que entra o Safety Car na volta 4. A equipe não tinha escolha a não ser parar: o SC significava que o pelotão se compactaria e Hamilton e Rosberg teriam de fazer suas trocas poucas voltas após a relargada, voltando no tráfego. E teriam que colocar pneus duros porque sabiam que os médios não aguentariam muito com o carro ainda pesado. Só não esperavam que tantos carros decidissem, como a Ferrari, ficar na pista.

Antes de Vettel parar, na volta 17, o prejuízo não era dos piores: 8s7. Apostando que Hamilton poderia forçar mais seus pneus por parar mais, o inglês encontraria o alemão na pista no final, com condições de passá-lo.

Até que veio o segundo stint de Vettel. Conseguindo manter o pneu médio vivo por 20 voltas e com ótimo ritmo, o alemão tinha quase dobrado sua diferença para Hamilton quando parou pela segunda vez (14s). Isso, sem que Lewis estivesse no tráfego. Foi puro ritmo e baixa degradação. Ali, com 20 voltas para o fim, a corrida já estava ganha e, mesmo que Hamilton tivesse pneus médios novos, não chegaria no alemão, que manteve um ritmo bastante rápido mesmo com o composto duro.

O que a Mercedes poderia ter feito de diferente? A maior durabilidade dos pneus na Ferrari fatalmente faria com que Hamilton perdesse a liderança nos boxes se o inglês não tivesse parado no SC. Assim, copiar a estratégia da Ferrari não era uma opção. A única chance talvez fosse colocar os pneus médios na primeira parada, caso houvesse um jogo novo, pois isso ajudaria a vencer o tráfego. Porém, quanto mais se estuda a estratégia do GP da Malásia, mais clara fica a influência do ritmo da Ferrari, e não de algum erro da Mercedes, na vitória de Vettel.

33 comentários sobre “Análise da estratégia: A Mercedes poderia ter evitado a vitória de Vettel?

  1. A última frase do post elucida muito bem, talvez o que venha a ser, a explicação mais razoável. Na medida que os dias vão passando o crédito da vitória vai se aproximando mais da própria Ferrari.

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  2. O que explica esta falta de rítmo da Mercedes? Porque se mesmo parando uma vez mais a Mervedes não foi capaz de ganhar terreno em relação a Ferrari na pista alguma coisa estava diferente. Se um Pit na Malásia dura em média 21s e o Hamilton chegou 9s atrás da Ferrari ele cortou apenas 12s na corrida. Especulando….. Será que a Mercedes achou que poderia bater a todos na corrida e deixou o acerto meio para pista seca meio para pista molhada? Como estava nos treinos? Por este motivo a Mercedes não estava tão preocupada e até dizendo que era bom para a F1?

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    1. A explicação seria calor (eles têm de ‘abrir’ mais o carro, para garantir mais refrigeração, do que a Ferrari, que evoluiu muito nesse sentido) + um acerto agressivo demais, escolhido devido à pouca quilometragem da sexta-feira.

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      1. Entao Julianne, (apesar de nao estar explicito no texto), o Nico nao é um bom acertador de carro. Pois o único que nao andou nos treinos foi o Lewis. Certo ??? Pode me corrigir se eu estiver errado…ehehe abrçs

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    2. A Mercedes não tinha muita opção sobre o acerto do carro já que não pode contar com as observações do Lewis no TL1 e em quase todo o TL2, ficando apenas com as observações do Rosberg, que é um ótimo piloto mas não é um exemplo de ajuste de carro para corrida.

      Apenas lembrando que tanto o pessoal da Globo quanto do SporTV passaram 100% da corrida dizendo a mesma coisa sobre o Nasr: “ele foi prejudicado por não ter ido para a pista no TL1”.

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  3. Ju, caso não tivesse o pneu furado no inicio, Kimi teria chances de lutar com Rosberg pelo terceiro lugar? Quanto ao ritmo, aparentemente Vettel sempre teve mais do que Kimi. Foi isto mesmo?

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    1. Ele poderia lutar sim, até porque tinha dois jogos de macios novos, já que ficou no Q2.
      E o ritmo dele foi afetado pelo furo no pneu, que afetou o assoalho. O ritmo dos dois tem sido muito igual e Kimi teve a vantagem até a classificação na Malásia.

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  4. A questão que fica, é que tenho minhas dúvidas quanto à capacidade de desenvolvimento da Ferrari ao longo do ano. O salto foi grande, mas chegar na Mercedes é muito improvável. Só que pra quem deu um salto deste tamanho e teve uma injeção de mais de 100 milhões de Euros no orçamento, que já era gigante, não pode ser descartado. Se fosse só a italianada pensando, não teria dinheiro que chegasse, mas Allison não é bobo e com dinheiro pra investir, fico pensando se não alcançam, ou ao menos chegam ao nível em que estratégia e braço podem equilibrar a disputa.

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  5. Julianne, a visita de Vettel ao Briefing da Mercedes aconteceu de fato? Se sim, há alguma informação que o poderia ter ajudado na estratégia da corrida?

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  6. Fantásticamente lúcida a sua abordagem kríssima Julianne! Nesta tua vizão sobre o GP Malaio vc nos trouche a claresa de que a Scuderia éra superior sim a Mercedes e por isto a vitória era inevitavel. Agora sim! Hoje a Mercedes “ganhou” um adversário a altura na disputa do título de construtores e pilotos. Que ano que vai ser este de 2015!

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  7. Os carros do Allison são um foguete no calor pq a janela deles é alcançada com a pista pelando. Só lembrar da Lotus em 2012 e 2013. No Bahrein, Kimi quase ganhou do Vettel quando a corrida ainda era durante o dia. Em pistas frias ele se torna um carro normal (q briga com a Williams, como na Austrália e toma uns 20s da Mercedes ao fim da corrida). Na temperatura q estava, os carros da Mercedes saíram da janela. Junte-se a isso as duas longas retas de Sepang.
    Na China, se nada de especial acontecer deve dar Mercedes pq a primavera chinesa ainda é fria.

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    1. Kro LM! E quanto a informação de que os projetistas do W06 deram prioridade ao bólido serem rápidos em curvas e não em retas? Isto também de certa forma influenciou no resultado?

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  8. Então na quarta volta Ericsson roda e a Mercedes comete seu primeiro erro ao mandar seus dois pilotos pararem para a primeira troca, enquanto seus pneus de composto médio ainda estavam bons. A Ferrari fez o certo e manteve Vettel na pista. Quando a corrida recomeçou Vettel estava em primeiro, Hamilton em sexto e Rosberg em nono.Vettel então aproveitou e começou a abrir do pelotão, que era 1.5s mais lento por volta. Hamilton e Rosberg – ambos agora com pneus duros e mais lentos – tinham evidentemente certa dificuldade em ultrapassar. Quando Hamilton se livrou de Hulk e assumiu a segunda posição, Vettel já estava 10s à frente e com pneus mais rápidos que os do inglês. Os pneus de Vettel não eram mais rápidos apenas por serem mais macios, mas também porque Vettel estava o tempo todo de cara para vento, enquanto Hamilton esquentava demais seus pneus duros atrás de carros mais lentos.O resultado disso é que Hamilton não conseguiu diminuir a diferença para Vettel,nem naquele momento e nem depois, quando colocou pneus médios. Em sua última parada, a Mercedes colocou pneus duros novamente no carro de Hamilton, que chegou a dizer no rádio que a equipe havia colocado os pneus errados em seu carro. A Mercedes realmente estava muito confusa, não percebeu o óbvio – que Vettel era tão rápido quanto seus pilotos –e disse a Hamilton que ele chegaria em Vettel 5 voltas antes do fim da corrida. Pior, disse isso num momento que ambos viravam praticamente o mesmo tempo. O resto é conversa fiada

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      1. Claro que ajuda, mas não faz milagre. A expectativa deles era parar no máximo na volta 10, sem SC. Você está dizendo que eles parariam no mínimo na 14 e isso não me parece factível. Ainda mais lembrando que Vettel estava na zona de DRS quando o SC foi acionado, já tinha mostrado ritmo, então é de se supor que Hamilton não tinha como economizar pneu para tentar estender o stint.

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      2. Pois é Ju tomei por base a capacidade de Hamilton em ser rápido e ao mesmo tempo economizar pneu vide o gp da Austrália

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    1. Isso depende das circunstâncias, cara. Quando a Mercedes corre “sozinha”, Hamilton tem as mesmas armas que Nico, e aí é mais fácil “controlar” o companheiro. Na Malásia, a Ferrari simplesmente tinha mais ritmo de corrida, não havia como economizar nada.

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  9. Já estou começando a acreditar que o Vettel ganharia de qualquer modo.
    Se o Hamilton parasse na volta 10, iria pegar algum tráfego também perdendo um pouco de tempo. E o Vettel parando na 18a volta, depois de todos os carros mais rápidos, deveria voltar atrás do Hamilton, mas sem perder tempo atrás de um carro mais lento. E iriam alternar a liderança até a última parada do Hamilton que voltaria atrás, também de pneus duros. E mesmo que chegasse no Vettel, seus pneus também estariam desgastados.
    Fora que não sabemos se o Vettel não poderia andar uns 0,2s mais rápido, caso fosse necessário.
    E o Vettel não perderia a liderança fácil, e sem muita briga, só se o Hamilton chegasse muito mais rápido. O que não era o caso.

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  10. Se o Rosberg continuar atrás do Hamilton, ainda vai ter a presença incomoda da Ferrari podendo roubar alguns pontos importantes dele.

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  11. Ótima análise Julianne. Tem ainda o fato de que Vettel poderia provavelmente tirar mais da Ferrari se quisesse, em nenhum momento foi realmente ameaçado pelas Mercedes e não precisou forçar o ritmo. Ainda que tudo sejam suposições. Sem o safety car nunca saberíamos em que posições os carros estariam na pista na hora da troca, nunca se sabe se as Mercedes não teriam aberto suficiente no começo da corrida e voltassem na frente mesmo depois das paradas. Só que SE é sempre SE!!!

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  12. Aleluia! Primeira(o) jornalista que vejo e não diz: “Erro da Mercedes deu vitória à Ferrari”.

    É claro que o SC pode ter prejudicado um pouco a “normalidade” da corrida, mas com ou sem o mesmo, a equipe italiana brigaria pela vitória.

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  13. O que aconteceu na Malásia foi completamente atípico, safety car, erros de estratégia da Mercedes, pneus duros em sequência, ninguém me tira da cabeça que foi uma derrota política da Mercedes devido ao tanto que se falou que a f-1 tava desigual e precisaria de uma manobra nos bastidores tipo deixa os caras ganharem uma, não creio que a Mercedes simplesmente errou não, para mim foi política.

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  14. Penso que seria bem mais fácil a Mercedes entregar uma por causa da choradeira das outras equipes e faturar o resto, tão dando enfase demais a vitória da Ferrari.

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  15. É óbvio que a vitória da Ferrari sobre a Mercedes ocorreu por um erro de estratégia da equipe alemã: foram duas paradas da equipe italiana contra três da Mercedes que perdeu a liderança da prova na primeira parada. A Mercedes foi ultrapassada no pitstop – fora isso Hamilton andou mais rápido que Vettel. Errou a Mercedes em fazer um pitstop a mais sem necessidade alguma: na quarta volta(!).

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