GP de Cingapura por espanhóis, britânicos e brasileiros: “Parece uma Mercedes vermelha”

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Com a derrota marcante da poderosa Mercedes na classificação, a expectativa era grande antes da largada do GP de Cingapura. Cada um buscava uma explicação: “Não diria que a Ferrari está rápida, mas a Mercedes está lenta, por algum motivo não aquece os pneus por inteiro”, dizia Luciano Burti, na Globo. Para o narrador Antonio Lobato, da espanhola Antena 3, “no papel, as simulações da Mercedes indicam três paradas”, ainda que o comentarista Pedro de la Rosa avise que “três paradas é suicídio porque é muito difícil ultrapassar.” Já o inglês Martin Brundle, na Sky Sports, acredita que o sábado foi atípico. “Acho que uma Ferrari ou Red Bull bem pilotada tem grandes chances de vencer, mas também acredito que a Mercedes será bem mais forte na corrida do que na classificação.”

A largada é tranquila e tem poucas variações de posição, o que chama a atenção dos comentaristas. “Nunca tinha visto uma largada tão limpa em Cingapura. Todos sabem que é uma corrida tão dura que, quem chegar no final, tem grande chance de pontuar”, avalia De la Rosa. Mas quem rouba a cena nas primeiras voltas é Sebastian Vettel, que adota um ritmo alucinante. “Parece uma Mercedes vermelha”, define Reginaldo Leme. “Que tirem as asas de Vettel!”, pede Cristóbal Rosaleny na TV espanhola. “Estamos relembrando o Vettel dos anos de seus títulos, deve ter encontrado um atalho”, brinca Brundle.

De la Rosa, contudo, alerta o alemão. “O que Vettel tem que cuidar é dos pneus porque aqui em Cingapura não vale a pena abrir muita diferença porque sai um Safety Car, você fica exposto com pneus gastos.”

Os espanhóis falam em problemas da Mercedes com o superaquecimento de freios, o que estaria afetando seu desempenho com os pneus. “Sabemos que eles trabalham muito no limite do aquecimento de freios, e os pneus estão do lado, o que me faz pensar que estão superaquecendo os pneus, o que tira muita aderência”, explica De la Rosa. “Eles estão em terra de ninguém”, observa Lobato.

As especulações sobre o que aconteceria na primeira rodada de pit stops já tinha começado, com De la Rosa querendo que a Ferrari chamasse Raikkonen primeiro para pressionar a Red Bull a antecipar a parada de Ricciardo, jogando a favor de Vettel, quando Felipe Massa saiu dos boxes – em uma parada na qual tentava se proteger da tentativa de undercut de Nico Hulkenberg – junto do alemão. Os dois se tocaram e a Force India foi parar no muro.

nico-hulkenberg-felipe-massa-2015-singapore-gp_3353647Todos os comentaristas viram o incidente como algo normal de corrida, ainda que com parcela de culpa maior para Hulkenberg, e consideraram um exagero a punição dada ao alemão mais tarde. “Eles tentaram estar no mesmo lugar ao mesmo tempo. Eu tenho certeza de que Hulkenberg não tinha como saber onde ele estava até ter chegado muito perto, a não ser que a equipe tivesse avisado. Hulkenberg deveria ter dado mais espaço, mas ele daria espaço se soubesse. É incidente de corrida. Massa está pensando que Hulk sabe que ele está lá.” Já Burti diz que “os dois foram para cima. Um viu o outro e nenhum dos dois tirou o pé. Não dá para culpar ninguém. Se ele quisesse, ele poderia ter freado antes. Sem culpar o Hulkenberg, o que poderia ter acontecido era ele ter alargado a curva. Coisa de corrida, não vejo culpa de ninguém.”

De la Rosa, contudo, faz uma ressalva. “Quando estava pilotando e via que era Massa, tratava de deixar um metro a mais porque sabia que ele ia se jogar.”

A batida traz o Safety Car para a pista e os ponteiros fazem suas paradas. Na transmissão inglesa, existe o temor de que a antecipação das paradas faça com que todos tenham de ir para três paradas, enquanto os espanhóis abrem a possibilidade da Mercedes, que colocou pneus macios, ao contrário dos rivais diretos, parar uma vez a menos que os demais. Ted Kravitz, da Sky, concorda em termos. “É de se pensar que esse SC longo ajuda quem está com o pneu macio a fazer duas paradas, mas a degradação da Mercedes é tão grande…”

A tática dos líderes do campeonato, contudo, é identificada por Burti. “Hamilton vai tentar poupar o pneu agora para, quando os outros pararem, podet andar forte.” Enquanto isso, na ponta, Vettel aprende a lição do primeiro stint, quando forçou demais no início e passou a perder terreno para Ricciardo no final, e controla o ritmo. Ou “talvez esteja lento para colocar Ricciardo na mira de Raikkonen”, como aponta Brundle. “Você só faria isso se soubesse que não corre o risco de seu companheiro te ultrapassar”, emenda o narrador David Croft, com ironia.

As suposições acabam quando Hamilton aparece “em sérios apuros”, sem potência nas retas e perdendo posições rapidamente. “É uma autêntica tartaruga”, define Lobato. “Não está funcionando nada do que dizem para ele mudar”. Enquanto Kravitz crê em problema no Kers e Brundle se alivia por não ver o motor do inglês derramar óleo, é De la Rosa que mata a charada “isso está me parecendo mais mecânico que eletrônico”. Não demora para a Mercedes concordar e chamar o líder do campeonato para os boxes, enquanto os brasileiros destacam que o fato de Hamilton ter saído de mãos abanando após a grande expectativa de igualar as marcas de Senna.

Croft, então, começa sua teoria. “Vimos Sainz tendo o câmbio indo sozinho para neutro, Massa também, Hamilton pisa no acelerador e o carro não acelera. Sabemos que há muitas linhas de metrô aqui em baixo e começamos a imaginar coisas”, diz. “O fantasma do ponto morto”, apelida Brundle.Ut_HKthATH4eww8X4xMDoxOjBzMTt2bJ

A corrida entra em compasso de espera para a segunda rodada de pit stops quando a imagem foca em uma das retas
e o SC entra novamente na pista. O primeiro a notar o porquê é De la Rosa. “Dá uma olhada, Antonio”, chama a atenção do narrador. “Tem um cara andando! Não consigo crer!”, se espanta Lobato. “O que é isso? Do jeito que entrou, vai sair, ninguém faz nada. Bom da cabeça não está”, diz Galvão Bueno, que considera a paralização “boa para Rosberg.” Croft é, de longe, quem demora mais a perceber a situação. “Não tem nenhum carro batido… o que será o problema? É um cara que simplesmente decidiu dar um passeio na pista. Que lunático! Uma coisa é ter alguém correndo na pista, outra é um cara só andando. Incrível. Já vi muita coisa na F-1, mas não creio no que estou vendo agora”, se surpreende.

O fato é que o SC antecipou a segunda parada – e acabou sendo ruim para Rosberg, que se viu obrigado a colocar os pneus macios novamente. Assim, ficaram todos na mesma estratégia e ninguém atacou ninguém. Enquanto isso, os narradores continuavam se divertindo. “Vai saber, estava em um hotel, saiu confuso, e acabou entrando na pista”, aposta De la Rosa. “Acho que não tava ventando muito, porque ele tava andando reto. Mas que tava viajando ali, tava”, crê Galvão.

Nas últimas voltas, coube à dupla da Toro Rosso dar alguma emoção à corrida. Enquanto Galvão enchia o “corajoso” Vestappen de elogios, Lobato vibra tanto com Sainz e suas “intenções assassinas” que, na empolgação, até o chama de Fernando. Croft, por sua vez, pega no pé de Max. “Mas ele não ultrapassou com as quatro rodas fora da pista?”, questiona. “Não podemos punir esse tipo de manobra! Para mim é muito diferente quando o piloto está em batalha e quando o piloto está sozinho e sai da pista para ganhar tempo”, defende Brudle, que destaca como o holandês e o espanhol “parecem não ter medo”.

O protagonismo dos dois só aumenta quando engenheiro de Verstappen lhe pede para ceder a posição ao companheiro no final. Espanhóis e ingleses acreditam que Carlos tenha cedido a posição ao longo da corrida. “Ele não deveria mostrar maturidade aqui e obedecer?”, pergunta Brundle. Mas o piloto de 17 anos se mantém na frente. “Vai ter briga”, esperam os espanhóis, que quase esquecem de Vettel, que cruza a linha de chegada em primeiro, com tranquilidade.

“Vitória da Ferrari é sempre diferente. É uma coisa italiana. Ele sabe o que faz, vai lá beijar o carro. Além de um grande campeão, é muito inteligente esse Vettel. Ele já vê a possibilidade da briga pelo vice e está a duas vitórias de passar para primeiro. Já dá para sonhar”, crê Galvão, enquanto Burti destaca o grande momento de Vettel. “Vamos lembrar que ele vem de uma temporada difícil, foi superado muito pelo Ricciardo, sem grandes resultados. E chegou na Ferrari ocupando a posição do Alonso, algo difícil, e veio como um campeão, fazendo um grande trabalho.

O foco dos espanhóis, por outro lado, era da perda da chance por parte da Red Bull – “se fosse eles, teria tentado colocar pneu supermacio no meio da corrida”, diz De la Rosa – e de Rosberg, como lembra Lobato. “Seja por azar – ou pelo que for –na corrida que Hamilton abandonou, a Mercedes não estava bem e ele não conseguiu descontar muitos pontos.”

Sem esconder a surpresa, Brundle constata o resultado da corrida não tinha como ser outro. “Eles tiveram o domínio desde sexta-feira. Mesmo com dois SC, Rosberg terminou 24s atrás. Não vejo como a Mercedes pode ter acreditado que venceria essa corrida em qualquer momento”.

11 comentários sobre “GP de Cingapura por espanhóis, britânicos e brasileiros: “Parece uma Mercedes vermelha”

  1. JU ,muito obrigado esse post são sempre os meus favoritos , adoro ver a corrida de vários ponto de vista, e acho q só lewis no auge da forma e da confiança achou q poderia vencer essa corrida, duas intervenção na corrida e foi 24s imagina se num tivesse teria cido uns 40s pra lá

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  2. Tem um peso simbólico o Vettel ultrapassar o número de vitórias do Senna antes do Hamilton alcançar tal número. Por tudo o que o brasileiro representa pro inglês e por toda a expectativa após o passeio na primeira corrida da temporada. Mas isso é muito oba-oba de torcida e imprensa. Considerando que atualmente tem bem mais corridas, considerando o início precoce dos atuais ídolos e do fim precoce do ídolo de outrora, que esperamos não aconteça com mais ninguém, era previsível há anos que tanto Vettel como Hamilton em algum momento superariam o número de vitórias do Senna. Quiça até Alonso chegue neste número se a Honda acertar a mão nas próximas temporadas. Vettel chegou e Hamilton deverá chegar nas próximas semanas.
    Ai finalmente param de tocar nesse assunto, que, confesso, me dói toda vez que ouço falar de alguém alcançar algum número do Senna. Mas paciência, isso também faz parte.

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    1. Caro Tramarim, é por isso que eu digo sempre: não dou valor demasiado a números e estatísticas, por mais superlativos que sejam. Recordes também são feitos pra serem batidos, e sempre o são, por mais estelares que sejam, isso é inexorável. O recorde de precocidade do título mundial de Emerson Fittipaldi perdurou por 34 anos (!) e quando foi batido por Alonso foi pulverizado logo em seguida, sucessivamente, por Hamilton e Vettel. O espanhol quase não teve tempo nem de degustá-lo, e não foi pouco o que ele fez na ocasião, derrotando um heptacampeão mundial no auge de sua forma.

      Mas o que fica indelevelmente nos corações e mentes são as performances épicas, a demonstração de inequívoca e sobeja de habilidade natural, a extrema velocidade, o arrojo, a coragem – esses são os fatores que levam um piloto a ser lendário. Como Georges Boillot, Tazio Nuvolari, Ronnie Peterson, Jochen Rindt, Gilles Villeneuve e tantos outros, para ficar apenas em alguns poucos exemplos de épocas mais passadas, e não entrar em polêmicas estéreis sobre alguns pilotos da atualidade, que serão, sim, lendários no futuro. O tempo põe tudo em perspectiva histórica, evidenciando grandezas.
      Um abraço!

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      1. Valeu, Pedro! E me esqueci de dizer que Verstappen tem muita possibilidade de detonar o recorde de precocidade do título mundial de Vettel. Max já detonou o recorde de precocidade de entrada na F 1. Tem 4 anos para fazer isso, ser campeão mundial. Se pegar um carro de ponta, eu não me surpreenderia. Nunca houve alguém como o holandês, que saiu praticamente direto do kart para a F 1, fazendo apenas uma temporada incompleta na F 3, e muitas vezes derrotando os cobras (Esteban Ocon, Tom Blomqvist e outros). Se bem me lembro, Raikkonen fez 20 corridas em monopostos, mais que Verstappen, e tinha 20 anos.

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    2. Eu até entendo o seu argumento, mas mesmo na visão dos pilotos, isso não é uma coisa superficial.

      O principal exemplo aconteceu quando o Schumacher igualou a marca do Senna:

      Em 2000, o Schumi vinha dominando o campeonato com tranquilidade, até chegar a vitória 40. Então, o alemão teve uma sequência ruim de resultados e até perdeu a liderança do campeonato.

      Quando conseguiu a vitória que o igualava ao Senna, em Monza, a primeira pergunta após a corrida foi sobre a marca. O Schumacher simplesmente desabou em lágrimas e não conseguiu falar mais nada. Ele ficou muito emocionado.

      Olhando de fora, pode parecer uma falácia, mas mesmo para os pilotos, atingir a marca de um piloto histórico é extremamente especial. Especialmente para o Hamilton, que sempre se inspirou no brasileiro.

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  3. “Croft, então, começa sua teoria. “Vimos Sainz tendo o câmbio indo sozinho para neutro, Massa também, Hamilton pisa no acelerador e o carro não acelera. Sabemos que há muitas linhas de metrô aqui em baixo e começamos a imaginar coisas”, diz. “O fantasma do ponto morto”, apelida Brundle.”

    Interessante. Já tinha lido algo parecido, em algum lugar, infelizmente não lembro onde – ANTES DA CORRIDA – que existiria alguma coisa no subsolo que poderia interferir magneticamente com os controles eletrônicos dos carros, causando problemas ou mesmo quebras. O metrô pode ser uma boa explicação.

    Julianne, parabéns por mais um Raio X (ou ressonância magnética?) em 3 D de um GP.

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  4. Dois safety cars e ainda assim Rosberg termina 24 segundos atrás do líder. E Hamilton ainda vem dizer que estava com a corridas nas mãos?

    No mais, Hamilton, este fim de semana, pagou pela língua. Disse que “estava voando” e só falava em igualar as marcas de Senna antes mesmo que os carros fossem à pista. O fim da semana só não foi pior do que a corrida desastrada na Hungria

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