Como um grid invertido

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A dica foi dada ainda nos previews do GP da China, quando o diretor técnico da Mercedes, Paddy Lowe, alertava que ‘os pneus supermacios não vão durar quase nada’ no início da prova e ‘devemos ver estratégias bastante diferentes’. De fato, Nico Rosberg ganhou a corrida mais no sábado do que no domingo, independentemente da selvageria da primeira curva, ao esnobar os supermacios e usar a vantagem de performance para escolher a melhor estratégia para a corrida.

É claro que o alemão foi ajudado pelo fato de seu companheiro ser colocado fora de combate já na primeira parte da classificação, com problemas de motor. Mas a opção de fazer o Q2 com o pneu macio – e, com isso, alargar o primeiro stint na corrida – talvez funcionasse mesmo sem a quebra, levando em consideração que Hamilton largaria, no máximo, na terceira fila, devido à punição pela troca de câmbio.

A Ferrari poderia ter tentado algo semelhante – e talvez fique a lição para as próximas provas – mas os italianos tinham motivos para duvidar de seu ritmo com os pneus macios, especialmente com a pista bem mais fria no sábado em relação à sexta-feira, quando seus pilotos relataram que o carro ‘ganhava vida’ apenas com os supermacios – aliás, a variação do rendimento do carro x temperatura de pista na China indica que, em etapas mais quentes, será possível termos uma efetiva luta pela pole entre mais de dois pilotos. Além disso, a Scuderia havia optado por ter menos jogos de macios durante o final de semana, em um claro exemplo de como a nova regra determina toda uma filosofia estratégica no GP.

Voltando à Mercedes, o único risco era a largada, pois o composto macio daria menos aderência. Na verdade, toda a tática do time pode ser vista como uma forma de evitar os danos das largadas ruins já previstas, uma vez que, mesmo se tivesse perdido várias posições, Rosberg teria o trunfo dos pneus melhores. Neste cenário, perder apenas uma posição – ainda mais para um carro com menos velocidade de reta como o Red Bull – foi um lucro para o alemão, que se transformou em liderança com o pneu furado de Ricciardo.

O furo foi uma das várias consequências da série de batidas da primeira curva. Todas, ao mesmo tempo, beneficiaram Rosberg e serviram para movimentar a corrida, ao tirarem Vettel e Raikkonen das primeiras colocações e atrapalharem a recuperação de Hamilton. Mais adiante, as batidas ainda causariam indiretamente o SC que serviu para que Kimi e Lewis voltassem à disputa e para colocar carros mais lentos – aqueles que, largando fora do top 10, puderam copiar a estratégia vencedora da Rosberg – nas primeiras posições. Na prática, tirando Rosberg, o que se viu foi como a F-1 seria se tivéssemos grids invertidos.

Em termos de estratégia, a prova de que o pneu macio era melhor veio com o SC, quando todos os ponteiros, tirando Vettel, que tinha um jogo de supermacios zerado e o usou para ganhar terreno no meio do pelotão, copiaram a tática de Rosberg.

Muitos estranharam a dificuldade de Hamilton em se recuperar, mas o fato é que, tirando o SC, tudo o que poderia dar errado para ele aconteceu na China. O fato de sua asa dianteira ter ficado entalada no assoalho prejudicou muito a aerodinâmica do carro – muito mais do que qualquer toque sofrido por Vettel ou Ricciardo, por exemplo. Sua tática também não foi a ideal depois da equipe descobrir que o pneu macio que fora colocado ao final da volta 1 e tirado logo que o SC entrou – e que deveria voltar ao carro ao longo da corrida, uma vez que o segundo pit stop (troca do macio pelo supermacio, aproveitando o SC) só foi feito para que ele usasse os dois compostos, estava furado. Isso o obrigou a usar os médios, pois não tinha macios suficientes para terminar o GP.

Por outro lado, Ricciardo conseguiu uma ótima recuperação, justamente por ter o carro mais equilibrado que Hamilton e, com isso, fazer seus pneus durarem por muito mais tempo na segunda parte da prova, o que lhe deu a chance de atacar no final. O mesmo aconteceu com as Ferrari, que mais uma vez mostraram seu bom ritmo de corrida aliado à preservação dos pneus – mesmo com o turbo ainda limitado.

Do que Hamilton será capaz com uma corrida limpa? O quanto a Ferrari pode incomodar em corridas mais quentes e sem as limitações do turbo? O que a prometida atualização do motor Renault – que tem mais tokens para gastar do que os rivais – pode fazer pelo ritmo da Red Bull? Por questões como estas, ninguém acredita que o domínio atual de Rosberg será a tônica da temporada.

2 comentários Adicione o seu

  1. dvdbraz disse:

    “Do que Hamilton será capaz com uma corrida limpa? O quanto a Ferrari pode incomodar em corridas mais quentes e sem as limitações do turbo? O que a prometida atualização do motor Renault – que tem mais tokens para gastar do que os rivais – pode fazer pelo ritmo da Red Bull? Por questões como estas, ninguém acredita que o domínio atual de Rosberg será a tônica da temporada.”

    Éh isto aí caríssima Julianne! Este éh o “tempero” que ta faltando pra esta temporada se tornar inesquecível. Já esta sensacional com esta regra dos pneus porque esta possibilitando “n’ estratégias e, o banimento das saídas-automatizadas também possibilitou que as antes imbatíveis Mercedes fosse exposta no seu ponto mais vulnerável. Eu creio que os fatores que você delineou lá em cima (Hamilton, Ferrari e Renault & Red Bull) sem dúvida darão uma realçada e tanto nesta temporada 2016!

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  2. Alexandre disse:

    Parece que na disposição de forças nas equipes mais fortes, só a Willians perdeu espaço para a RedBull. A Mercedes ainda está na frente da Ferrari. Mas não tem como saber ainda o quanto cada uma está a frente. E como disse a Ju, são algumas variáveis que tirando a previsibilidade das corridas. E, por enquanto, quem ainda saindo ileso é o Rosberg. E que bom que o ponto fraco da Mercedes tem sido a largada.

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