Fogueira energética

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Em 2010, Felipe Nasr teve a chance de entrar no programa de desenvolvimento de pilotos da Red Bull, mas não quis, temendo diminuir muito suas chances quando chegasse no funil da Fórmula 1. Seis anos depois, outro brasileiro, Sergio Sette Camara, põe todas suas fichas na parceria recém firmada com a marca de energéticos, simplesmente porque “só eles colocam piloto sem patrocínio na F-1 hoje”, como explicou em entrevista recente que fiz com ele.

Os dois têm sua parcela de razão.

A maneira como a Red Bull trata seu programa de desenvolvimento queimou a carreira de muitos pilotos. Mas também revelou talentos como nenhum outro programa do tipo. A aposta tem sido tirar qualidade da quantidade e, para isso, é preciso fazer a fila andar rápido.

Prova disso é a lista de pilotos que passou pela Red Bull e especialmente Toro Rosso de 2005 para cá: Christian Klien, Robert Doornbos, Vitantonio Liuzzi, Scott Speed, Sebastien Bourdais, Sebastien Buemi, Sebastian Vettel, Jaime Alguersuari, Jean-Eric Vergne, Daniel Ricciardo, Daniil Kvyat, Carlos Sainz, Max Verstappen. Nela, basicamente, há dois tipos de pilotos: os que saíram do grid da F-1 pelas portas dos fundos e os (futuros) astros. Simplesmente não há meio termo.

Do lado positivo, é extremamente saudável para a Fórmula 1 que um investimento pesado como o da Red Bull tenha esse lado de comprometimento com o carreira de jovens pilotos, dando uma segurança que, em tempos nos quais o “pacote talento + dinheiro” é o que conta, seria simplesmente impossível. Porém, ao mesmo tempo, acaba sendo cruel com quem não tem uma linha tão clara de ascenção.

O rebaixamento de Kvyat e a promoção de Verstappen não deveria ser novidade para quem já viu Klien e Liuzzi dividindo o cockpit em 2005 ou Speed e Buemi deminitods no meio do ano. Sim, é cruel, mas a partir do momento em que os pilotos firmam contrato com a empresa e não com uma equipe em particular, como acontece ‘no quarteto’ da Red Bull, eles sabem que poderão ser vistos como peças de um tabuleiro de xadrez.

A peça que vai ganhar o jogo agora é Verstappen. O holandês já deixou muito claras suas ambições e vinha falando para quem quisesse ouvir que não ficaria na Toro Rosso por muito tempo de jeito nenhum. E é difícil que um piloto diga isso sem saber de algo. Ao mesmo tempo, o instável Kvyat já deixava especialmente Helmut Marko insatisfeito desde o ano passado. O homem que mexe as peças do tabuleiro da Red Bull aproveitou a escorregada da Rússia e mudou o jogo.

Mesmo que Kvyat tenha terminado o campeonato do ano passado à frente de Ricciardo, muito em função dos muitos problemas técnicos que se concentraram no carro do australiano, qualquer rápida observação de pista mostra uma propensão muito maior ao erro por parte do russo – tanto na comparação com seu agora ex-companheiro quando com seu substituto. Na verdade, em que pese o histórico das decisões de Marko, Kvyat ainda teve sorte de ganhar uma sobrevida na Toro Rosso, talvez simplesmente porque não haja ninguém preparado o suficiente no programa.

Agora, o piloto terá um embate curioso com Carlos Sainz que, apesar de menos badalado, mostrou tanta velocidade quanto Verstappen. O espanhol, contudo, sofre do mesmo mal de seu novo companheiro e também exagera nos erros. Difícil apostar quem leva.

Do lado de Mad Max, chegou a hora de mostrar na pista tudo o que já cansou de falar fora dela. Deve ter todas as condições de fazer isso, em um duelo intrigante sob vários aspectos com Ricciardo. O menino predígio está, sim, na fogueira. Mas qual dos pilotos Red Bull nunca esteve?

13 comentários sobre “Fogueira energética

  1. Olha! Esta dupla da Red Bull (Ricciardo & Verstappen) éh uma dupla que impõe muito-respeito. Agora os kras no lado no grid, terão de ficar muito-alertas com as manobras do principalmente “novato” Max, pois atributos ele tem para ser a nova atração do campeonato. Além de talentoso éh audaz e às vezes ao extremo. Espero que esta dose de ousadia não venha ser um veneno para ele porque seria triste mais um desperdício de talento que se dar nesta maquina de triturar pilotos que se chama F1. Mas eu tenho boas expectativas. Ah! Não se esquecendo que os carros da Red Bull estão voltando à velha forma de bólidos competitivos.

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  2. Belo texto, a começar pelo título, JULIANNE, um perfeito “portrait” da cultura “redbulliana” ou “markiana”. A entrevista com Sette Câmara já foi publicada? Onde e quando? A meu ver, Sette Camara vai precisar “acelerar mais” para continuar se encaixando nos elevadíssimos e draconianos padrões de exigência de MARKO, e assim possa prosseguir progredindo no universo taurino, pois lá não basta apenas ser melhor que o parceiro de equipe. Por outro lado, acredito que foi até boa e uma sábia decisão a de NASR em não assinar com a RED BULL. Esse negócio de ascensão a categorias mais pesadas, mais velozes e com adversários mais qualificados, mais peneirados, É MUITO SÉRIO, em especial a F 1, topo do topo (isso não vale só para NASR, vale para OUTROS do grid atual – e é um fenômeno, digamos assim, que sempre ocorre com muitos pilotos, em muitas categorias, afinal ir bem em categorias mais fracas, básicas, onde o nivelamento é feito por baixo, É UMA COISA, OUTRA COISA É “CHEGAR CHEGANDO” EM CATEGORIAS MAIS COMPETITIVAS E COM CARROS MAIS POTENTES E PESADOS, MAIS SOFISTICADOS). É aí que se vê quem é quem (e, segundo Nelson, com toda a razão, não vale “matar apenas um leão, é preciso matar um leão TODO DIA) . No entanto, revelar talento na categoria máxima, a F 1, NECESSARIAMENTE não implica em carreiras extremamente laureadas nas categorias de base, vide LAUDA e até mesmo SCHUMACHER. No topo, é preciso mostrar diferenciação, logo de cara (LAUDA, mesmo sem equipamento à sua altura para exibir resultados de “chegar chegando”, impressionou entretanto aqueles que o observavam mais atentamente, como ROBIN HERD e CLAY REGAZZONI). Mudança de categoria é coisa que precisa estar muito bem ancorada.

    E já que se falou em Sette Câmara, e em categorias de acesso, até aqui eu não consigo me empolgar com nenhum dos brasileiros que estão tentando o árduo caminho para a F 1, aí incluídos aqueles provenientes de dinastias automobilísticas nobres. Mas devo dar o desconto daquele fator que citei tomando LAUDA como exemplo, e de que também nunca vi ao vivo nenhum deles correr, porém devo dizer que quando vi pessoalmente – pela primeira vez – Piquet no início de carreira na SuperVê 1.600 e Ayrton ainda no kart, tive imediatamente a percepção de que ambos tinham potencial para grandes façanhas. De resto, essa intuição não foi algo que ocorresse apenas comigo, seria muita pretensão de minha parte, ambos demonstravam qualidades diferenciadas para quem MINIMAMENTE acompanhasse de perto o automobilismo. Surpresa foi ver que Alfredo Guaraná Menezes – o mais duro e naturalmente habilíssimo adversário de Piquet – não tenha se encarreirado nas pistas internacionais, por fatores que eu imagino certamente alheios à sua vontade, pois GUARANÁ também ERA DIFERENCIADO. Uma pena, pois poderíamos ter celebrado mais um grandíssimo nome brasileiro na História da F 1. Isso sem falar na precisão geométrica de trajetórias de Emerson Fittipaldi, que impressionava a todos.

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    1. Boa Aucam!
      Faço um adendo ao seu “matar um leão todo dia”, é preciso ter coragem para se matar um leão todo dia! Vide Rubens Barrichello, que tinha talento para competir com Shumacher, mas lhe faltou para ir para a Williams, quando a equipe de Sir Frank ainda tinha carro e R$ para competir com os italianos. Nesse grupo também podemos colocar o Sr° Mark Webber que fez uma temporada fantástica em 2010, mas na hora do “vamos ver” foi incapaz de abater o leão Vettel.
      Um grande piloto é um pacote completo, tem que ter talento, ousadia e coragem, ousadia e coragem o Max Vertappen tem, vamos ver agora o tamanho do talento!
      P.S.: Seria interessante marcar aquele café e ouvir as suas histórias sobre a F1!
      Bjs pra meninas e abraços pros meninos!

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      1. Nato, sorry, mate, mas o RB nao tinha nem velocidade nem talento nem cabeca para competir com o Schumacher. No Brasil o assunto ”ainda” (sigh) –para minha surpresa –rende alguma controversia, mas o RB era constantemente 0.3 s mais lento que o Schumacher. Como as coisas mudam, hoje 0.3 s por volta he um munnnnnnnndo enorme, mas na epoca, nao.

        E outra, o Schumacher era um monstro que fazia uma volta de qualifying atras da outra durante a corrida. O RB no maximo podia fazer uma ou outra volta no mesmo ritimo, mas ninguem aguentava o homem durante uma corrida. Schumacher foi mesmo um gigante em talento, hard work, capacidade de lideranca…etc etc. Um Dick Vigarista? Who cares, isso nao apaga o monstro que foi. O chato to Xenna tinha odio do Schumacher porque sabia que ele seria o cara. Assim como Alonso aposentaria o Schummy. A fila anda…

        Dois caras que falaram muito sobre o Schumacher: Livio Oricchio e aquele um, tal de Nelson P Souto Maior. O Livio continua por ai, o Nelson fala do Schumacher no youtube.

        Sabe quem tem otima cabeca (mindset e afins), mas nao tinha tanta velocidade quanto o RB? O Massa. O Rubens com a cabeca boa do Massa (nem de longe tao mimadinho) teria feito bem mais. No minimo ter 5 vices em casa, ao inves de somente 2. E olha que o Massa na Sauber era audacioso, abusado…era gostoso ve-lo correr.

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      2. Mike,
        Não estou dizendo que Shummy não era um monstro, pq ele o era de fato! Um dos motivos que colocou Ross Brawn como o “gênio das táticas” é exatamente esse citado por você, Brawn dizia pelo rádio:
        “Shumacher, podemos mudar para uma tática de uma parada só, mas preciso de 5 voltas em ritimo de classificação”
        Schumacher respondia:
        “Ok”
        E fazia as 5 voltas!
        Não discuto isso, mas Schummy também era humano e errava, tanto que em 1996 perdeu para Jacques Villeneuve, que tinha uma Williams tão boa quanto a Ferrari e do meu ponto de vista (corrija-me se estiver errado) Villeneuve era piloto bem menos capaz que Rubens Barrichello, é com apoio nesse fato que afirmo:
        Se RB confiasse em si mesmo, Shumacher teria pelo menos um título a menos, claro que nunca saberemos se estou certo ou não, já que o passado não muda, mas a menos que alguém me mostre que Villeneuve era muito mais piloto que RB, minha opinião é essa.
        Com relação ao Massa, não sei se foi por causa da mola em 2009, se foi por causa do nascimento do filho ou uma mistura dos dois, mas ele nunca mais voltou a ser de fato o piloto de 2008 que disputou o título palmo a palmo com Hamilton. Quando Alonso foi para a Ferrari, pode-se notar em seus olhos que ele já se julgava derrotado pode pegar as fotos e observar, a confirmação veio no “Alonso is faster than you”.
        Na F1 ser bom piloto não garante nada, tem que ter vontade e gana de vencer, ganhar até mesmo em par ou ímpar!
        Abraços pros meninos e bjs pras meninas!

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      3. Nato, eu considero o RB como um cara que se apresentava iluminado e impossivel de ser batido algumas vezes por temporada. E ai estava um dos problemas dele. Voce tem que ser consistente ao longo de uma temporada inteira…. e Jacques tinha mais disso, alem da cabeca melhor. Rubinho era um gente boa criado por avoh, como dizem no interior do Brasil. Os meus amigos sempre me perguntavam porque brasileiros ganhavam e choravam no podio. Piquet e o Ratto nao choravam. Campeoes nao choram.

        Nao era um cara cheio de testosterona. Mark Webber era bem menos capaz, mas muito mais ”machao”.

        Eu esperava bem mais do Jacques…. um campeao que teve uma carreira bem modesta.

        Gosto mais de falar do passado que ficar prevendo corridas e carreiras. Deixa elas acontecerem. SDS.

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  3. Sinceramente eu acho q talento mesmo é o Ricciardo. Só falta pra ele um carro mto bom pra ser campeão. Em 2014 com um carro “mais ou menos” faturou 3 e o “talentoso” Vettel, ganhou nenhuma.

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  4. Por pior que parece, não achei tão ruim para o Kvyat. No fim do ano, era bem provável que fosse dispensado. Agora vai guiar um carro bom, não tão quanto a RedBull, e vai ter um companheiro de equipe, promissor, mais fraco que o Ricardão. Se for bem, ainda pode conseguir uma vaga em outra equipe.

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  5. caramba, direto no ponto. muito boa a análise da Julianne.

    dessa lista que a Julianne citou que passou pelo moedor de gente da red bull, pelo jeito só o Buemi hoje está se destacando em alguma categoria, estou certo?

    parece que a Red Bull “suga” a combatividade dos seus ex-protegidos, o alguersuari até abandonou a carreira…

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  6. Independente de andar mais que o Ricciardo ou não, eu gosto do estilo Max de pilotar. Ele vai pra cima, não gosta de ficar pra trás, ignora ordens de equipe. O moleque leva jeito.
    Já pensou se Max andar mais que Ricciardo? Acho difícil. Mas ficaria assim:
    Max anda mais que Ricciardo que anda mais que Vettel…..

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