Da seleção de futebol para o grid da F-1

Bons tempos que não voltam mais?
Bons tempos que não voltam mais?

Anos sem ver um brasileiro vencendo uma corrida, categorias nacionais de formação de pilotos em frangalhos, economia e cenário político instáveis. É fácil tentar explicar por que o Brasil deixou de ser aquela fábrica que parecia infindável de talentos para a Fórmula 1. Porém, para quem está no olho do furacão, pode-se fazer um paralelo com outro esporte em que o Brasil vem tendo dificuldades nos últimos anos: o futebol.

Ninguém acredita que os pilotos brasileiros, de repente, perderam a mão. E o mesmo acontece com os jogadores de futebol. Não foi o Brasil que mudou. Foi o mundo.

Sergio Sette Camara é hoje o ‘eleito’ para se tornar o próximo brasileiro na Fórmula 1, mais por estar na F-3 e no único programa de desenvolvimento que tem se mostrado efetivo do que por seus resultados até aqui, é bem verdade. Dentro da Red Bull, o mineiro é respeitado pela velocidade pura, mas questionado pelo racecraft, e é o primeiro a ter consciência de que não pode desperdiçar a oportunidade.

Sette Camara não é o único brasileiro correndo na Europa atualmente, mas o número não passa de 10, cenário bem diferente do que tínhamos há cerca de 15 anos. E o primeiro fator para que menos brasileiros cheguem à F-1 é a velha máxima: é da quantidade que se tira qualidade.

O que nos leva à questão-chave: como voltar a ter quantidade?

Conversei longamente com Amir Nasr na Inglaterra sobre o assunto. Com extensa vivência no automobilismo e na administração de carreiras de jovens pilotos, o tio e mentor de Felipe Nasr sabe do que está falando. E observa que o exemplo de Verstappen, ainda que seja um caso bastante difícil de ser repetido, ensina algumas lições sobre as transformações pelas quais o esporte no geral passou nos últimos anos.

Verstappen conseguiu dar o salto do kart para a F-1 em pouco mais de um ano porque sua preparação na base foi feita em um nível muito mais alto que o comum. E é isso que Amir ter observado nos jovens europeus: eles saem do kart, que no Brasil é visto mais como um caso de ‘veremos se é isso mesmo que você quer da vida enquanto foca nos estudos’, muito mais preparados do que em um passado recente. Toda a noção de profissionalismo dentro do esporte, cuidado com treinamento, alimentação e base técnica está sendo aprendida bem antes.

Esse era o grande diferencial dos brasileiros, que costumavam chegar em um nível muito alto na Europa, com seus 17, 18 anos, e logo começavam a ganhar tudo. Como hoje essa ideia de profissionalização começa antes na Europa, os pilotos nacionais perderam essa vantagem.

E acabaram ‘ganhando’ uma desvantagem importante: hoje em dia, quem quiser andar no nível dos jovens europeus precisa ir muito cedo ao Velho Continente, o que gera desafios importantes do lado pessoal e financeiro.

“Não tem como comparar a vida de um menino de 15 anos que vai para casa no domingo depois de correr e outro que vai para um alojamento, longe da família”, compara Amir. Principalmente em uma época tão complicada da vida, não é difícil imaginar a dificuldade de compensar a deficiência de formação em uma situação longe da ideal.

Amir vê duas saídas: ou os brasileiros vão para a Europa ainda nos tempos de kart, ou o país organiza centros de excelência para preparar melhor seus pilotos.

É o mesmo caminho do futebol: com a maior profissionalização do esporte em vários cantos do mundo, a concorrência aumentou para os jogadores brasileiros, que acabaram tendo de sair mais cedo do país para construírem suas carreiras. Não é por acaso que, muitas vezes, vemos nomes na convocação da seleção que nunca tiveram grande expressão dentro do Brasil. Não tiveram tempo para isso.

Mesmo assim, os recentes fracassos da seleção apontam a necessidade de uma maior organização e planejamento, talvez nos moldes do que foi feito na Alemanha, desde a base, uma vez que, em duas das maiores paixões dos brasileiros, a nota de corte ficou mais alta.

6 comentários sobre “Da seleção de futebol para o grid da F-1

  1. Infelizmente a política impera em todo nosso país, e só deseja o dinheiro. Não sei como funciona a confederação brasileira de automobilismo, mas acredito que seja igual aos outros esportes. Essas federações são comandadas por pessoas que não entendem nada do esporte envolvido, ou se vieram deste esporte, não tem o menor interesse em desenvolvê-lo. Só a verba é que interessa. É como você bem disse, até o futebol está ultrapassado. Nem a olimpíada ajudou a tratar do esporte de uma maneira menos amadora.
    A salvação seria os brasileiros, que ainda estão em atividade ou não, assumirem e investirem nesta formação de pilotos. Senão vamos ter que torcer para os estrangeiros mesmo.

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  2. Parabéns
    Sensacional post !

    Você sempre escrevendo coisas que saem do óbvio .
    Por isso entro todos dias para ver se tem um texto novo.

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  3. Todo castigo para uma cultura que se acha demais por ser ”flexivel”, “adaptavel”, “jogo de cintura”, “improviso”.

    Ha tempos que esse bananal faz parte do grupo de sub-paises que estao no mundo. Brasileiro cola na escola, frauda documentos, engana guarda nos outros paises, nao cumpre horario, poe bromato no pao, falsifica leite de crianca, tenta pegar onibus/metro de graca…. etc etc etc.

    O mundo exige trabalho, estudo, etica. Suomi, Japao, Canada, Norge, Sverige, Denmark, Alemanha, Singapore, …. esses sao os exemplos a serem seguidos.

    Brasil merece o desprezo da historia junto de portugal, italia, grecia, argentina….russia e derivados. Os engracadinhos de sempre que estao sempre aprontando.

    Sergio Buarque e Paulo Francis me representam.

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