Um domínio com altos e baixos

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A Mercedes selou a conquista de seu terceiro título seguido com os 40 pontos do GP do Japão, com quatro corridas de antecipação. Desde o GP da Austrália de 2014, perdeu cinco corridas para a Red Bull e três para a Ferrari. E nada mais. Chato, não? Nem tanto. Mesmo que a disputa tenha ficado na grande maioria das corridas restrita a seus pilotos, a equipe alemã tem garantido uma bela dose de entretenimento.

Primeiro porque o conceito que acabou levando a Mercedes a um domínio raro na história é levar tudo ao limite, e isso traz consigo alguns riscos. O carro não funciona muito bem quando está no tráfego, tendo tendência a sofrer superaquecimento. A unidade de potência também costuma sofrer mais no time principal do que em seus clientes, fruto das configurações mais ousadas. E isso também trouxe incertezas em várias provas.

Mas a grande fonte de emoções vem do fato dos pilotos estarem liberados para disputar. Os dirigentes da Mercedes demonstram ter consciência de que seria muito pior para a imagem da marca vencer sempre, mas de forma engessada. Ainda que tenham ligado o sinal amarelo após a série de toques entre Espanha e Áustria neste ano, criando as tais ‘regras de conduta’ que até hoje ninguém sabe direito o que são, Wolff e Lauda de certa forma preferem correr o risco de verem seus pilotos quebrando a cara de vez em quando do que conviver com a mancha negativa das ordens de equipe e dos resultados pré-determinados. Afinal, com tamanha vantagem, não precisam disso, mas este não foi o pensamento de outros times dominantes no passado.

Mas talvez a melhor parte seja a liberdade dada a Lewis Hamilton. O inglês trocou as amarras da McLaren pela permissividade da Mercedes e, como qualquer um que tateia uma vida sem tantos nãos – na verdade mais do que isso, uma vida sem tantos nãos e com muitos milhões no bolso, que multiplicam as possibilidades – às vezes perde a mão.

Foi o que aconteceu no Japão. Hamilton passou a semana inteira na defensiva – e tentarei explicar melhor a atual guerra que vive com um setor específico da mídia inglesa ao longo da semana – e ainda saiu escancarando uma falta de comunicação interna, quando escreveu que “algum idiota disse que entramos com protesto contra Verstappen”. De fato, houve um protesto formal, do qual o inglês não foi informado e com o qual obviamente não concordava.

Da mesma forma, essa liberdade também foi importante para várias grandes performances que vimos nos últimos três anos, em que Hamilton cresceu bastante como piloto. Então, mais uma vez, é um risco que a Mercedes corre – e que vez ou outra vai fazer o time entrar em ebulição – mas que é importante para tornar uma vantagem técnica considerável o mesmo monótona possível.

A parte deles está sendo feita. Agora cabe aos rivais elevarem seu nível.

Nível, aliás, que foi bastante alto da parte de Nico Rosberg neste final de semana. O alemão sempre andou bem em Suzuka, mas ainda não tinha conseguido converter isso em vitória. Em um GP no qual brigou de igual para igual com Hamilton, ganhou de forma convincente, calando aqueles que pregam que o piloto só bate o companheiro quando este tem algum tipo de problema. Com um carro muito bem equilibrado, quaisquer diferenças de performance são minimizadas, e é isso que Nico tem conseguido usar para abrir uma vantagem importante a quatro provas do fim.

4 comentários sobre “Um domínio com altos e baixos

  1. Ju, mudando um pouco de assunto, mas ainda falando do GP do Japão, ao que se deve o baixo desempenho da Mclaren em Suzuka?
    Teoricamente, o carro tem um bom downforce com o conceito “size zero” da traseira, mas o que pecava era o motor. Suzuka tem os dois primeiros setores que exigem demais da aerodinâmica, mas um terceiro que exige demais do motor.

    O Motor Honda ainda tem um gap muito grande para os demais, ou ainda falta alguma coisa em termos de equilíbrio de chassis par a Mclaren?

    A propósito, você descatou muito bem a esportividade da equipe Mercedes.

    Atenágoras

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  2. Obrigado pela resposta.
    Seus comentários e análises mostram um jornalismo bem conectado com engenharia e evolução técnica do esporte sem parecer incompreensível para leitores relativamente leigos.

    Atenágoras.

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