A turma do ‘não vai dar nada’

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Sabe quando a gente vê uma criança sentada na cadeirinha dentro do carro e lembra dos tempos que andava no porta-malas de uma Brasília? É mais ou menos a mesma sensação de ver como as pistas puniam os pilotos em um passado nem tão remoto assim em oposição às intermináveis polêmicas sobre quem deveria ser punido.

No GP do México, até em função de consequências da altitude, como a menor eficiência do vácuo e a maior instabilidade dos carros, mesmo carregando alta carga aerodinâmica – e ainda assim andando a mais de 370km/h como a Williams conseguiu durante a prova – tivemos uma corrida recheada de lances polêmicos.

Com os freios com uma diferença de 150 a 200ºC entre a direita e a esquerda no momento da largada, Hamilton não conseguiu fazer a primeira curva e passou reto, ganhando uma vantagem que seria eliminada com o Safety Car – e o regulamento fala em punição para “vantagem duradoura”. Há quem diga, contudo, que o ganho foi não ser ultrapassado por Rosberg, uma suposição, e por isso o inglês deveria ser punido.

Quando o alemão viu o replay da largada, soltou um “como ele se safou disso?”, mas não ficou claro se falava de uma punição ou do fato de não ter tido (por pouco, aliás) de trocar os pneus naquele momento, lembrando do que aconteceu com o próprio Nico na Rússia em 2014. Perguntei a ele se achava que o companheiro deveria ter sido punido e o alemão se limitou a dizer que ficou “feliz quando viu a travada porque achei que ia pegá-lo, mas não sou eu quem tem de decidir sobre punições”.

O próprio Rosberg, inclusive, vivia seus dramas um pouco mais atrás, dividindo, com direito a toque, a curva com Verstappen, em um tipo de choque que resultou em punição no passado mas que, dessa vez, foi considerado normal.

Com o pneu médio com a chamada degradação negativa (quando o pneu não tem grande perda de performance e os pilotos conseguem ser mais rápidos à medida que têm menos combustível), a estratégia da maioria se uniformizou e a dificuldade de ultrapassagem também fez com que a corrida fosse cozinhada ao banho-maria até as voltas finais, quando Verstappen, que trocara os pneus 20 voltas antes de Vettel, sofria pressão do alemão e via o companheiro, Ricciardo, com macios novos, também chegar na briga.

Verstappen travou os pneus na freada, saiu da pista, e manteve a posição. Escolheu não ouvir quando a equipe pediu que deixasse Vettel passar justamente porque havia assistido de camarote a cena da primeira curva. Mas esqueceu que seu caso foi bem mais claro e levou a punição.

Vettel, em um final de semana de fúria, em que chamou Alonso de idiota, xingou Massa, disse que Verstappen é um imbecil e mandou Charlie Whiting para aquele lugar. Mas a ‘ofensa’ mais grave foi descumprir justamente uma regra criada há uma semana por muita pressão dele próprio, ao mover-se quando já freava para defender-se de Ricciardo.

Depois de tanta confusão, pode-se apontar os dedos para os comissários, que tomaram várias decisões inconsistentes ao longo do ano, ou pode-se tentar entender a fonte de tanta reclamação.

A FIA tem tentado aprimorar os textos das regras para torná-las mais eficientes no papel, uma vez que os códigos de cavalheiros dos pilotos são ignorados por alguns. Esse termo “vantagem duradoura”, por exemplo, é relativamente recente, e nem é preciso citar a chamada “regra Verstappen” que acabou pegando Vettel no domingo.

Existe todo um sistema de coleta de dados e estudo do histórico de decisões para definir as punições, mas daí começaram a reclamar da lentidão. Pediram que ex-pilotos fizessem parte das decisões, mas hoje reclamam de relações pessoais interferindo – o que seria ainda pior se outro pedido, de formar uma comissão estável para todas as corridas, fosse atendido.

Se olharmos a raiz das discussões sobre punições, elas estão no abuso dos limites de pista – e na crença que os pilotos criados na geração sem caixa de brita têm de que vão escapar ilesos de qualquer toque mais agressivo.

A troca das caixas de brita por áreas de escape asfaltadas aconteceu por questões de segurança após inúmeros estudos. Mas nenhum deles levou em consideração que o próprio nível de pilotagem fica mais baixo quando se pode errar sem maiores consequências. As regras podem estar escritas do jeito que for: F-1 não é igual futebol, não é sempre o mesmo campo, as mesmas condições, e isso torna o julgamento muito difícil. A pergunta que se deve fazer é o quanto a categoria quer perder em termos de nível técnico em nome da segurança.

13 comentários sobre “A turma do ‘não vai dar nada’

  1. um cachorro perdido com muitos donos (F-1), um chefe de saida (bernie) quase sem lideranca no momento, pilotos que nao sao mais pilotos, mas sim empregados de corporacoes que exigem compliance e etc, acoes listadas em bolsas (mais compliance para todos), lawyers-ridden companies,… e a geracao de criancas mimimi para dar um toque de classe a esse caldo que so desanda.

    eu leio sobre F- ainda, mas nao sinto minima falta das corridas. ainda bem que tem internet para assistir corridas de verdade.

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    1. Faz isso não, Plow King. Estamos precisando urgente de audiência, ou, o que é bem mais difícil, de um brasileiro fera. Liga a TV e assista a F-1 pra depois vir aqui e comentar. Já tá ruim das pernas e só escuto pessoas dizendo que não assiste mais ou que querem deixar de assistir. Daqui a pouco emissora nenhuma transmite e aí? Como faz?
      Repense sua decisão e volte a assistir F-1 com outros olhos. Abs.

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  2. Todos sabem que Hamilton é protegido dos comissários principalmente do Charles Whiting. Então óbvio que se fosse outro na ponta que tivesse feito o erro que o Hamilton fez, seria punido. Verstappen tem todo a razão em dizer que fez igual pq não aconteceu nada com o Hamilton então pq aconteceria com ele? A situação era a mesma, piloto atrás querendo passar, fritada de pneu, escolha de cortar claramente as 3 curvas. A solução ai era bem simples, saiu da pista e perdeu curva sem ter sido empurrado por outro ? Punição simples de 10 segundos.

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  3. Todo mundo sabe que Bernie é fã do Hamilton e por tabela Charlie Whiting, empregado desde os tempos da Brabham, não iria contrariar seu chefe. Houve sim 2 pesos e 2 medidas nas punições, e ficaria mais bonito a penalização do Vettel ser pelos xingamentos. Achei boa a ideia do Dennis de punir em 10 ou 5 segundos que sair da pista, nos tempos da brita quando não atolava perdia-se bem mais.

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  4. Só para citar outro exemplo claro: na Rússia, Hamilton largou em 10º, não fez a apertada curva 1 do circuito (saiu pela área de escape) e já aparecia e, 5º ao fim da primeira volta. Muitos podem argumentar que, devido ao safety-car, ele “perdeu” a vantagem de 7 carros que abrira por cortar a primeira curva. Mas a questão não é essa: que corrida faria o inglês se tivesse de andar no vácuo de outro piloto? Certamente, não faria a corrida tranquila que fez sabendo que havia um adversário a ser superado. Uma punição com 10 segundos ao tempo de corrida poderia ser a solução.

    Acho que o mais grave da atitude do Verstappen é que claramente ele levou uma vantagem e recusou-se a devolver a posição, sabendo que estava errado. A pena foi muito branda considerando não apenas a vantagem obtida, mas a “insubordinação” em si. Até porque foi mais fácil para Ricciardo chegar em Vettel, visto que o alemão estava contido pelo holandês.

    Quanto à manobra do Vettel, entendo a punição, mas não entendo de que forma ela possa ter sido mais grave do que a de Verstappen. Mas acho que falta um pouco de sensatez: não basta apenas olhar a telemetria; é preciso analisar também o contexto. A disputa provavelmente nem teria acontecido se Vettel já estivesse em 3º, como deveria ser.

    Enfim, tudo isso para dizer que a F-1 cai cada vez mais no meu conceito. E não sou um torcedor aventureiro: estou nisso há mais de 25 anos. Mas uma hora cansa, deixa de dar prazer! A verdade é que a F-1, com seus regulamentos engessados, comissários controversos e pistas pouco desafiadoras, está chegando ao limite do suportável.

    E a Motogp com seus 9 vencedores em 17 etapas…

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    1. Veja bem Billy, seu exemplo corrobora exatamente com meu argumento. Não seria necessário pensar em punições caso a opção da área de escape não existisse.
      E tem um detalhe: faz muito tempo que os pilotos estão mais liberados das regras em largadas e todos eles sabem disso.

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  5. Concordo com o Billy em relação a punição do Vettel. É o Verstappen continua quebrando os códigos de ética e até as regras.
    A área de espape deveria servir para desacelerar o carro em caso de saída de pista e não ser explorada para se ganhar vantagem. Ou coloca brita ou acrescenta punição de tempo,

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    1. NV, A ideia he engracada, meio corrida maluca…mas eu faria o seguinte: Em nome da seguranca manteria as saidas de pista como estao…mas quem saisse da pista perderia automaticamente uns 10 segundos (alem do tempo perdido naturalmente caso a saida fosse bem forte com direitos a rodadas e afins).

      Quer arriscar ir ate o limite do limite como era antes? Otimo, mas cuidado que vai perder um tempao se errar.

      Imagino se numa quadra de tenis houvesse uma ”area de seguranca” para as tentativas de passadas na linha que nao fossem na linha…

      .ah, vamos dar uns 10cm a todos da geracao mimimi e dai todos acertarao as passadas com boa margem de seguranca. Pfui. Lame.

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  6. Eu já achava o Ricciardo bom, mas depois do domínio que ele teve com o pedal do freio quando Vettel estava do lado dele foi demais! Sensacional! Sou fã do estilo Lewis de pilotar, só que daquele Lewis de 2007/2008 que precisava provar a que veio. Agora que ele não precisa provar nada mais pra ninguém, parece que seu estilo deu uma apagada.
    Se Ricciardo tivesse feito com o freio o que Lewis fez na primeira freada, era fim de prova pro Vettel. Conhecido como o rei da freada, pra mim, Lewis perdeu o posto para Ricciardo.

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