Amor e ódio em Interlagos

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Não me lembro quando foi a primeira vez que pedi a meu pai que me levasse a Interlagos. Como a política em casa era: ‘se não pode ter para todos, não tem para ninguém’ – e somos em quatro irmãos – a resposta sempre foi “esse ano tá difícil”.

Até que resolvi que esperaria até ter meu próprio dinheiro. Assim, o sonho de criança foi realizado apenas com muito esforço em 2008. E quase se tornou um pesadelo quando completos imbecis – que estavam longe de ser crianças – sentados atrás de duas mulheres sozinhas no autódromo faziam fotos obscenas com salames (!) e tentavam abrir o nó da minha blusa (!!). Sem brincadeira, foi assim que passei minha primeira tarde em Interlagos.

Depois de colocar e tirar a capa de chuva incontáveis vezes, vi a decisão de campeonato mais improvável que Interlagos já produziu. Quer dizer, vi Hamilton cruzando atrás de Vettel – na minha cabeça, em sexto – e não entendi a comemoração da McLaren até ouvir pelo rádio o que acontecera. E senti aquela emoção de ver a história sendo feita na minha frente. Os imbecis, bêbados demais para entender qualquer coisa, perderam.

Voltaria a Interlagos dois anos depois, no mesmo setor A, para ver uma obra-prima de ultrapassagem de Alonso em cima de Hamilton, logo no início da prova. Interlagos tem disso: de lá do alto, deu para ver como o espanhol começou, na descida do lago, a preparar a manobra que faria no final da reta. São poucos os circuitos que permitem visão tão privilegiada. Porém, para chegar a esse momento, dormi na rua, fiquei horas à mercê do clima imprevisível, pagando caro para comer, usando banheiro entupido… são poucos – talvez nenhum – os circuitos em que é preciso ser tão herói para assistir a uma corrida.

A relação de amor e ódio continuou quando passei para o lado de lá, de dentro do paddock. Na verdade, não conheço nenhum jornalista que goste de seu GP caseiro, seja onde for, mas a realidade é que, em Interlagos, poucos gostam de trabalhar. Tirando o iogurte de cenoura e a paçoquinha eventual da sala de imprensa, claro.

Talvez pelo fato do paddock ser apertado e os pilotos não terem muito como escapar, além da cultura futebolística da imprensa daqui, o comportamento dos repórteres é especialmente predatório em Interlagos. Sobra cotovelada e empurra-empurra e falta educação como em nenhum outro lugar.

Mas também tem a camaradagem e aquele pessoal gente boa que quem cobre a temporada acaba vendo só uma vez no ano. E aquele piloto que te reconhece e lhe dá prioridade. Novamente, amor e ódio.

Tem também o desafio de chegar e sair da pista – e já vi arma apontada para minha cabeça em um domingo à noite, ou seja, perdi todas as entrevistas que fizera no final de semana – em oposição à maravilhosa sensação de correr em uma pista conhecendo cada curva. E não importa que seja uma das mais difíceis de correr do ano, Interlagos é amor e ódio mesmo.

Como se não bastasse tudo isso, sempre tem aquele gringo que tem certeza que vai chover olhando pelo vidro da sala de imprensa, sem perceber que ele é escuro e que o melhor é sair – até porque só então dá para ver as nuvens que vêm da repreeeeesa, amigo! É, tem coisas que só em Interlagos.

11 comentários sobre “Amor e ódio em Interlagos

  1. Sei bem o que você passou, Juliana. Foram muitos GPs ouvindo minha mãe ser chamada de sogra pelos gambás que nada entendiam sobre automobilismo (mal identificavam os carros). Mas resisto e este ano estarei lá pela sétima vez… Vale tudo para acompanhar esses carros incríveis de pertinho!!

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  2. Estou surpreso e contente em ver que as menino as tambem gostam de automobilismo!
    Blog da Julianne, comentários da Daniela e Fernanda, e a propósito, qual o carro/equipe favorita?

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  3. Um relato que pode servir pra Daniela:

    Pois é, na minha primeira vez em Interlagos (2007, também demorei pra me dar esse presente, já tinha 35 anos, acompanho F1 desde os 8, no mínimo) conheci um casal no ônibus a caminho do autódromo que me relatou como é o comportamento de vários homens quando estão em “matilhas” em Interlagos: esse tipo de coisa relatada pela Julianne e pela Fernanda. Com isso, a moça disse que sempre vai com roupa o mais discreta possível, e o cara disse que procura sempre ignorar as provocações, senão fica pior.

    Naquele ano presenciei coisas tipo o que a Fernanda relatou. Mas já em 2014 (3a e última vez, já com muitas saudades do barulho dos motores) não presenciei esse nível de desrespeito com mulheres, acho que a turma se aquietou um pouco, ou talvez tivessem menos meninas em volta, sei lá. Nesses dois anos fiquei na arquibancada A, que realmente, dependendo do lugar que a gente escolhe/consegue sentar, é o melhor lugar pra acompanhar a corrida.

    Em 2009 fiquei numa arquibancada coberta no início da reta oposta (fui convencido pelo meu amigo, que tinha passado mal com uma pequena insolação em 2007 quando ficamos no setor A). Ficamos em um lugar mais confortável – pagando bem mais caro por isso, claro – mas com visão pior do autódromo e sem a opção do pequeno passeio pelo setor A que é sempre legal fazer antes, durante e depois do treinos e mesmo depois da corrida. Por isso fiz questão de voltar ao setor A em 2014. E consegui um lugar até interessante no domingo – depois de estudar bem todos os locais no sábado – por chegar bem cedo pela manhã. Mas pra pegar lugar do tipo “ótimo” só mesmo dormindo na rua como a Julianne já fez, ou no mínimo chagando de madrugada na fila.

    Parece que o setor G é o mais problemático quanto ao comportamento dos torcedores homens quando em bandos, e com certeza o setor G é o mais problemático quanto ao conforto, porque lá o sol é inclemente durante todo o dia, porque não tem as sombras das árvores de certas partes do setor A, e pela posição em relação ao sol da tarde…

    Portanto, em resumo: é bom levar boné, protetor solar, capa de chuva, estar com roupa bem confortável e, no caso das mulheres, e pelo jeito especialmente no caso de ir pro setor G, se preparar pra enfrentar o comportamento das matilhas. Um aparelho de rádio é bom levar também, pra ouvir a narração e acompanhar melhor o que acontece na pista.

    Quanto ao acesso, agora com a linha amarela pra baldeação acho o metrô a melhor solução. Desde que seja de dia, junto com o resto do público, já que no percurso a pé que fazemos entre o autódromo e a estação do metrô tem policiamento.

    Nas duas vezes que fui a Interlagos pra ver as “6 Horas” – um pecado que não tem mais, nessa corrida a gente pode passear pelo o miolo do autódromo – a volta acabou sendo de táxi, porque fiquei enrolando pra sair, e já estava escuro e sem policiamento.

    No caso da turma que está a trabalho, como a Julianne, deve ser osso mesmo achar um meio seguro e economicamente viável de voltar pra casa/hotel, lembrado que quem trabalha não vai só no domingo e sábado…

    Mas caramba! Assalto a mão armada, Julianne! Pelo menos os danos se resumiram ao equipamento e às horas de trabalho – não que isso seja pouco. Tomara que hoje em dia você já tenha conseguido um esquema mais seguro de voltar pro hotel/casa.

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  4. Cara Julianne,
    Em 2008 estava em Interlagos com meu filho. Minha primeira vez foi em 1976!!.
    Fui com meu irmão e desisti porque o retão (Interlagos antigo) estava tomado por um bando de sulistas (nada contra os sulistas normais) que encheram o alambrado com papelão tampando a visão da pista. Cobravam para retirar os papelões. Pode, Arnaldo?
    Lembro que o barulho dos V-12 da Ferrari enchiam, literalmente, os ares. Fiquei com dor de cabeça. Enfim, fui embora depois do warm up.
    Jurei não voltar. Mas, voltei.
    E, desisti de novo após 2008. Íamos na área G e os mesmos sulistas bêbados tomando conta dos melhores lugares.
    Em 2008, no setor A e outros bêbados e banheiros entupidos e bunda quadrada por ficar sentado o dia inteiro (a almofada de ar estourou).
    Muita grana para pouca satisfação.
    Portanto, talvez nunca volte.

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  5. bom, está sendo ótimo ler os comentários sobre as experiências aqui.. irei pela primeira vez esse ano e ficarei no setor A! pra mim, foi bem difícil por vários fatores realizar esse sonho, passagem, hospedagem, trabalho, etc. pois então, gostaria de saber se posso levar uma mochila normal, “colegial”, pois não encontrei informações claras quanto à isso! no mais, se tratando do setor A, qual o melhor horário para eu chegar no domingo?

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    1. Neto, nas 3 vezes que fui sempre levei mochila, nunca foi problema.

      Sobre horário de chegada domingo: chegue o mais cedo possível.

      Não só porque aí vc tem chance de escolhe um lugar um pouco melhor (os melhores mesmo a turma que acampa na fila ocupa primeiro, logicamente), mas também porque as corridas preliminares também são legais de assistir. E convenhamos, o ingresso é caro pra cacete, então o negócio é aproveitar ao máximo o evento.

      Mas se for possível pra você, não perca o treino de sábado. Você terá chance de passear por toda a área do setor A, visitar as lojas com o merchandising das equipes (na minha opinião, tudo muito caro, também) e, tão importante quanto, vc terá chance de experimentar vários lugares pra assistir a corrida. (fora que, de novo, o negócio é aproveitar ao máximo o evento).

      Por exemplo: bem na frente do grid, bem na ponta do setor A, é interessante, pois dá pra acompanhar bem de perto todo o trabalho das equipes nos minutos antes da largada pros carros a partir da 14 colocação, mais ou menos. Eu digo de perto mesmo, se vc desce até a grade na hora do grid, fica a alguns metros dos carros. Mas não dá pra acompanhar direito a corrida propriamente dita, pois a visão das outras partes do autódromo não é boa. Já na parte do setor A exatamente no início da “bifurcação” da pista que dá pra entrada dos boxes (bem no ponto daquela última curva suave à esquerda, não sei de cor os nomes das curvas todas) é muito boa pra ter visão geral do autódromo, e dá pra ver os carros até o fim da reta dos boxes, caso você consiga sentar mais pro alto da arquibancada.

      São os dois lugares que já fiquei, mas o legal é vc mesmo experimentar e escolher.

      Mas como disse, leve aparelho que pegue rádio, com fone de ouvido. Aí vc consegue acompanhar melhor o que acontece na pista.

      Ver corrida “in loco” é quase uma nova experiência em relação à TV, porque a gente tem muito menos informação pra acompanhar o desenrolar da corrida.

      E isso nem é tão ruim. Na primeira vez eu aluguei um aparelho que dava os tempos de volta, algumas câmeras on board, narração – se me lembro bem, acho que só em inglês – mais uns dados, e a certo ponto não usei tanto, porque aí a gente perde a graça da coisa, que é poder escolher quem acompanhar por certo tempo, por exemplo, reparar em certos detalhes da pista…

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      1. nossa, Pedro, muito obrigado por suas dicas.. as li hoje pela manhã, pois queria ver se alguém havia respondido. elas
        foram bastante esclarecedoras, levei mochila e foi tranquilo, cheguei por volta das 11 hoje em especial.. pude observar várias posições com. o primeira, segunda e terceira opção, para o caso de não conseguir ocupar esses locais. amanha pretendo chegar por volta das 9, espero que esteja tranquilo ainda! no mais, boa corrida para todos nós.

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      2. disponha, Neto!
        divirta-se aí! e aproveite bem, sei lá se o GP continua no Brasil nos próximos anos…
        espero que 9 da manhã seja cedo o suficiente pra pegar um bom lugar. (eu costumo chegar ainda mais cedo…)

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  6. Minha primeira vez foi em 2007 no setor S, fiquei maravilhado pelo ronco dos motores que já ouvia na rua antes de entrar no circuito. Detalhe: ganhei o ingresso!!!! Um amigo trabalhava no setor de vendas de uma empresa. Ano seguinte, em 2008, ele foi promovido (pra caramba) e o convite passou do setor S para, pasmem, no Terrace Club!!!! Cara, arquibancada coberta, bebida, comida, serviços, tudo do melhor. Até determinado horário, podíamos visitar os boxes. Lá, em 2008 tirei uma foto a 30cm da linda Nicole Pussycat. Aí foi demais pra mim. Fórmula 1, área Vip, mulher bonita, elite, etc,, etc…
    Isso se repetiu em 2009, em 2010 e 2011, a empresa resolveu cortar algumas coisas e o convite passou para o muito bom setor V, com comida e bebida, mas sem serviço, você tem que buscar, não tem garçom, mas fica no fim da reta oposta, do lado da área da Globo e oferece um ótimo espetáculo.
    Agora fiquei curioso, JuCera. Você, a Fernanda e a Daniela também gostam de carros desde pequena e numa exposição tipo Salão do Automóvel piram nos carros? Gostam de Fórmula 1, independente de ter brasileiros vencedores? Só faltam dizer que aceitam assistir Fórmula 1 sem protetores auriculares. Aí quem pira sou eu.

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