Com há 10 anos

Nos últimos anos, não tivemos um campeonato além da disputa interna da Mercedes, mas tivemos grandes corridas, na maioria das vezes do terceiro em diante. Agora, os primeiros sinais dão conta de que podemos ter um grande campeonato, mas as grandes corridas viraram algo do passado.

A maior competitividade em termos de briga por vitórias era um pedido constante dos fãs, que se diziam cansados das ultrapassagens facilitadas pelo DRS e especialmente a degradação dos pneus. Os pilotos também não estavam contentes com carros pouco ágeis, que eles sentiam não pilotar, apenas cuidar para que chegassem ao final com os pneus inteiros e combustível suficiente.

A nova Fórmula 1 que estreou em Melbourne contempla esses dois pedidos, mas mais uma vez demonstra que o aumento da pressão aerodinâmica e a menor degradação de pneus age negativamente nas disputas por posição. Tanto, que quando falei para Sergio Perez que ele fizera a melhor manobra da corrida, ele não pensou duas vezes: “Então deve ter sido uma corrida muito chata!”

Sim e não. As posições por todo o pelotão estiveram consolidadas desde a metade. Porém, lá na frente, tivemos uma batalha direta entre carros que têm características diferentes, algo que pode gerar muita emoção nas 19 etapas que vêm pela frente.

É claro que existe uma grande dúvida sobre a capacidade da Ferrari se desenvolver, em função da descontinuidade de seu corpo técnico, mas o cenário atual aponta para a batalha entre um carro mais curto e que lida ligeiramente melhor com os pneus contra outro que tende a superaquecer mais a borracha, mas é mais longo e rápido em curvas de alta velocidade.

Isso nos remete às últimas temporadas de 2000, o que não é um mau sinal. 2007, 2008 e 2010 foram campeonatos incríveis com corridas chatas, enquanto a tendência se inverteu – com exceção de 2012 – dali em diante. Resta saber se a própria Fórmula 1 vai se acostumar com a nova realidade.

Do lado da Ferrari, além da melhora do carro em si, a vitória de Melbourne com uma boa jogada estratégica significa a redenção após o erro de 12 meses atrás. O time entendeu bem essa nova realidade e viu que os tempos de antecipar a parada para usar o rendimento dos pneus novos ficou para trás. Como nos velhos tempos de seu domínio com Michael Schumacher, a posição de pista voltou a ser a grande busca dos estrategistas.

Na Mercedes, talvez por esta ser a primeira corrida do ano, ficou uma mea culpa dos dois lados. Hamilton diz que pediu para parar e a equipe atendeu sem se atentar ao perigo dele ficar preso no tráfego. No final, fica a avaliação positiva do inglês de que o importante é estar na frente mesmo depois de uma grande mudança de regras. E de fato isso impressiona.

Como também impressiona o abismo dos três primeiros com a Williams – ou melhor, com Massa – e do brasileiro com o resto.

17 comentários sobre “Com há 10 anos

  1. De decepcionante ficou a corrida do Kimi. Chegar a 20 segundos do companheiro sem ter nenhum problema aparente é desanimador. E ainda tomando sufoco de uma RBR que não demonstra estar no mesmo nível. Ju, em certo momento o bottas parou de diminuir a vantagem do Hamilton. Teria aí um dedo dá equipe para ele apenas trazer o carro pra casa?

    Curtir

  2. Eu pouco participo dos comentários, mas seu blog, para quem realmente gosta de Fórmula 1, é uma jóia rara. O teor técnico (e único) de muitos posts e a abordagem isenta de parcialidade ou paixão são muito positivas. Sei que gratidão e elogio de fato não enche barriga como se diz por aí, mas queria registrar minha admiração pelo seu trabalho, porque afinal, é muito bom ter acesso à informação técnica e precisa, ainda mais feita com inquestionável propriedade.

    O grande dilema para a Liberty Media será conseguir o equilíbrio entre corridas interessantes e movimentadas + campeonatos disputados, porque até então, parece que só se pode ter um ou outro, mas não os dois. Isso é possivel?

    Curtir

  3. Essa é a minha grande preocupação: a própria Fórmula 1 vai se acostumar consigo mesma?

    Foi a primeira corrida, ainda é muito cedo, o Albert Park tem muitas particularidades que não se veem nos circuitos permanentes e todo ano é a mesma coisa, dizemos isso. Ao mesmo tempo, todo ano a gente já quer fazer prognósticos após a primeira corrida. E a julgar pelo que vimos na Austrália, a F1 voltou mesmo a ser o que era há 10 anos: predomínio da t´ática sobre a ação de pista.

    Isso é ruim? Não necessariamente. O GP da Austrália tem mais cara de F1 clássica do que os campeonatos a partir de 2009. Ficou devendo sim em ação de pista, mas, historicamente, é essa a categoria que tivemos até mesmo nos anos 80, ao contrário dos que os relatos dos saudosistas podem sugerir.

    Ultrapassagem tem que ser tramada, tentada, pensada e isso me agrada muito. Eu só acho que o reabastecimento não pode voltar, porque aí vai ser a morte total da ação na pista. Resta saber como a F1 sob nova direção vai reagir ao reencontrar consigo mesma.

    Porque por mais que esse tipo de corrida tenha mais cara de F1 clássica, o mundo e as exigências do mercado do entretenimento também mudaram muito em 10 anos. Se quer ganhar novos e jovens fãs, dificilmente a F1 vai conseguir com corridas mais táticas. Na verdade, dificilmente uma competição automobilística nesses moldes conseguirá, já que o próprio valor simbólico do carro à combustão está sendo alterado e isso impacta na forma como um produto como a F1 chega para as novas gerações. Afinal, para um jovem de 20 anos de hoje (que muitas vezes nem tem o carro como objeto de desejo), um carro significa algo muito diferente do que era para um jovem de 29 anos da década de 80.

    São poucos os millennials que vão se seduzir por 20 carros dando voltas em círculos por 90 minutos com ação mais tática do que de fato. E mesmo entre o público aficionado, já deu para perceber gente sem paciência com a corrida no Twitter, durante a transmissão. E é de diagnósticos apressados que muitas decisões sem pé nem cabeça foram tomadas na F1 (vide aquela classificação eliminatória do ano passado) e ninguém na gestão anterior tinha uma ideia de longo prazo para onde levar o esporte.

    Espero que o pessoal do Liberty esteja tendo cuidado com isso e encomendando muitas pesquisas, não só de mercado ou de cunho técnico, mas até sociológicas sobre o tema para não fazerem cagada.

    Quanto à corrida em si, fiquei com a impressão de que a Ferrari fez o que quis com o ritmo de corrida. Vettel escoltou Hamilton nas primeiras cinco voltas, percebeu que o ataque seria difícil por causa do ar sujo, manteve distância de 2s e apertou de novo quando chegou a janela de pits. A impressão que eu tive foi que essa segunda aproximação forçou a Mercedes a chamar Hamilton para tentar reagir e ter um rendimento superior com os pneus novos e, voilá, os tricampeões cometeram um erro.

    O ritmo de corrida do Vettel depois foi sempre superior. Não acho que seja pouca coisa alguém aplicar um golpe desses na equipe que dominou a categoria de forma sem precedentes como a Mercedes fez nos últimos anos. Pareceu que dessa vez a vitória da Ferrari não foi tão circunstancial como as de 2015.

    Curtir

  4. Ju, gostaria que você comentasse a queda de desempenho do Hamilton depois da parada, fiquei sem entender se ele realmente teve problemas de rendimento ou se é conomizou pneu pra fechar ao final.
    Gostaria, também, de saber a sua opinião sobre a crise no cansamento McLaren – Honda, e os boatos de separação.

    Curtir

    1. Chrystian, falei sobre a McLaren em um dos comentários abaixo. Sobre Hamilton, parece que realmente o ritmo da Ferrari com os macios era superior, mas ele também não deve ter tirado tudo do carro sabendo da dificuldade de ultrapassar.

      Curtir

  5. Realmente aquela manobra do Sergio Perez foi incrível! No lugar da Mercedes teria contratado ele. Bottas fez bonito e mostrou que realmente tem ritmo forte na corrida, deve ser uma campeonato interessante.
    Julianne, não seria possível encontrar um meio termo entre menos pressão aerodinâmica e menor degradação dos pneus para termos campeonatos e corridas emocionantes?
    Foi somente eu que ficou com a impressão de que o Giovinazzi andou melhor com esse carro novo do que Occon, Stroll e Magnussen?
    Abraços pros meninos e beijos pras menianas!
    Abraço e beijo especial pra Julianne!

    Curtir

    1. O grande problema dos regulamentos é que eles são feitos com pouca ciência. Não vale a pena as equipes desviarem recursos para isso, o que eles querem é ganhar. Talvez agora com Ross Brawn a mecânica da concepção das regras mude.

      Curtir

  6. Ou você tem um grande campeonato com corridas chatas ou você tem grandes corridas num campeonato chato, já decidido (com exceção de 2003 e 2012), por que é tão difícil para os gênios da engenharia encontrar uma solução para isso?

    Curtir

  7. Erros grosseiros do passado se repetem: O/a grip tem que ser mecanico/a e nao aerodinamico/a. Com grip vindo em maior parte da aerodinamica da nisso…turbulencia, falta de grip nas curvas, menos ultrapassagens.

    Poupei meu sono precioso. Contente de saber que Vettel ganhou mais uma, chateado pela possibilidade de perder Alonso logo. Quem nao enxerga o que ele he capaz, esta perdendo chance historica. Deixem julgamentos de carater de lado.

    Assisti a corrida de neckcar nos USA hoje. 2 minutos enfadonhos. Se Liberty quer imitar a neckcar para promover a F1-, me resta assistir mais curling.

    Acho que vou pedir atestado medico e nao trabalhar amanha.

    Curtir

  8. Julianne, você fez uma série de posts sobre os melhores GPs do ano em vários quesitos.
    Questionei sobre Melbourne e agora é a hora da verdade: Custo x Benefício, como avalia?
    Obrigado!

    Curtir

      1. Não tinha visto, Julianne. Obrigado pela opinião, mas cada vez mais gostaria de ir para Australia em algum evento como F1, MotoGP ou Australian Open.

        Curtir

  9. Corridinha norma como sempre acontece na Austrália. Valeu pela vitória da Ferrari.
    Mas algumas perguntas vão continuar:
    Será que as ultrapassagens serão bem escassas mesmo?
    Aonde realmente está a Ferrari?
    Quando será o divórcio McLaren/Honda? Ei que fará o espanhol?
    Fica a surpresa do bom rendimento da Toro Rosso, que andou pouco na pré temporada.

    Curtir

  10. Não vi nenhuma declaração do staff da McLaren para explicar o vexame no fim de semana na Australia. Acho que estavam escondidos de vergonha. Baseado no que Alonso disse, o motor além de ser fraco ainda tem problemas de consumo, o que seria aberrante. E parece que o resto tb é muito ruim, colocando a equipe no mesmo nível da Sauber. Acho que já é o caso de começar do zero de novo, como uma equipe pequena, com uma equipe técnica totalmente nova como fez a Ferrari e sem pilotos estrelas e claro, com um motor Mercedes.

    Curtir

    1. Foi interessante observar a McLaren em Melbourne: às vezes eles falavam como equipe, mas a maior parte do tempo eram “nós = equipe” e “eles = Honda”. Uma melhora só é esperada para Barcelona, mas não uma revisão completa do motor. E continuo insistindo que os problemas deles não são só por causa dos japoneses. Vou escrever melhor isso nas próximas semanas, mas existe uma falha de comunicação que impede a parceria de funcionar.
      E essa história de ter motor Mercedes ainda neste ano… se já tivessem começado o projeto, seria para o final do campeonato e custaria uma fortuna. Quem vai pagar sendo que parte fundamental do orçamento da McLaren vem justamente da Honda?

      Curtir

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s