Estratégia do GP da Espanha e o triunfo das novas regras

O GP da Espanha marcou o triunfo das novas regras no circuito para o qual, pode-se dizer, elas foram feitas. Afinal, era em Barcelona que a meta de 5s em relação à pole de 2015 teria de ser batido e, de quebra, ganhamos uma corrida pé embaixo com duas paradas, exatamente como nas previsões.

Já sabemos pelas etapas anteriores que não será sempre assim, pois a F-1 não é como um campeonato de futebol, com cada jogo disputado sempre dentro de variáveis mais estáveis, e justamente uma viagem nos meandros desta batalha estratégica e de pilotagem nos mostra o nível de complexidade deste esporte.

Voltando à classificação, o aumento significativo da velocidade em uma volta lançada já vinha sendo observado desde a pré-temporada. E, mesmo com uma volta que esteve bem longe de ser perfeita, Lewis Hamilton bateu a meta de abaixar em 5s a pole position do ano retrasado, sendo 5s532 melhor do que Nico Rosberg fora em 2015.

Mas o que realmente chamou a atenção na Espanha foi a capacidade dos pilotos adotarem um ritmo forte durante a corrida. A melhor volta da prova, também de Hamilton, foi um pouco mais lenta que a melhor de cinco anos atrás, mas com uma diferença marcante: foi feita na parte final da corrida, depois de 28 voltas com o mesmo jogo de pneus, mostrando que ele teve de forçar o ritmo o tempo todo e só conseguiu o melhor giro quando o nível de combustível era mais baixo.

Nos anos anteriores, a alta degradação trouxe mais ultrapassagens, mas também significou que, logo depois de suas paradas nos boxes, os pilotos tivessem de começar a dosar o ritmo, focando apenas em não destruir seus pneus até o final da prova.

O fato de Hamilton ter que forçar o tempo todo, e até acabar o GP bem mais cansado do que de costume, também tem outro motivo: para vencer na Espanha, o inglês teve que superar uma Ferrari mais rápida e com Sebastian Vettel em uma performance bastante forte.

Com isso, a corrida foi decidida em detalhes – e até decisões que pareceram erros em um primeiro momento fazem sentido em uma corrida bastante complexa do ponto de vista estratégico.

 

A cartada da Ferrari

Antes da largada, a Pirelli falava em três paradas como o caminho mais rápido, mas isso dependia do tráfego e do ritmo com o pneu médio. E o ritmo da Mercedes com o composto de faixa branca fora pior que o da Ferrari na sexta-feira. Por isso, quando os alemães começaram a pedir que Hamilton aumentasse o ritmo na volta 12 e Vettel, líder, pegava tráfego e via a diferença cair para 1s8, o risco de um undercut era iminente e a Ferrari o chamou aos boxes.

O único caminho para Hamilton, portanto, seria continuar na pista e entrar na janela de duas paradas, parando lá pela 20ª volta, o que não foi nada fácil para o inglês, visivelmente sofrendo com os pneus. Com isso, Lewis perdeu muito tempo no stint inicial e a corrida parecia estar nas mãos de Vettel.

Isso até que Hamilton parou e o piloto alemão se viu logo atrás de Valtteri Bottas. Foram apenas quatro voltas, mas o suficiente para o líder do campeonato perder pelo menos 4s, basicamente um terço da vantagem que tinha construído. Isso daria margem de manobra para a Mercedes logo depois mas, naquele momento, a Ferrari continuava em vantagem, até porque o segundo stint de Vettel fora muito bom, o rendimento do pneu médio não se mostrara tão desastroso assim em outros carros e seria possível reverter sua estratégia de volta para duas paradas.

 

A virada da Mercedes

Até que surgiu o SC Virtual com mais de 30 voltas para o fim. E uma decisão complexa para tomar. No caso da Ferrari, seria mais óbvio parar Vettel e colocar os médios. Mas e se eles não se aquecessem, como vimos inúmeras vezes neste ano?

Além disso, a diferença entre uma parada normal e uma com SC Virtual em Barcelona é de 9s, exatamente a vantagem que Vettel tinha, e, diferentemente de um SC normal, é impossível saber quando o Virtual vai terminar.

A Mercedes, por sua vez, ficou esperando a Ferrari parar para responder. Isso não aconteceu e eles arriscaram o último instante para parar Hamilton, perdendo um pouco de tempo porque o VSC acabou assim que ele entrou nos pits, mas sem o risco de perder com o aquecimento dos pneus.

Depois de perder sua oportunidade (e vamos lembrar que a dúvida só aconteceu devido ao tempo perdido atrás de Bottas), à Ferrari, restou reagir e parar Vettel na volta seguinte. Foi então que entrou em ação o fator Hamilton: a estratégia não teria sido suficiente não fosse uma volta espetacular de Hamilton no retorno à pista: seus setores 2 (30s792) e 3 (28s367) foram tão fortes que são comparáveis aos carros que entraram no top 10 na classificação. E isso com combustível para cerca de 30 voltas ainda no carro.

Foi por conta disso que ele e Vettel dividiram a primeira curva e o inglês esteve próximo o suficiente para ultrapassar o rival poucas voltas depois. Além disso, naquele ponto, também fez diferença o fato da Mercedes ter optado por colocar os médios no meio da prova, enquanto a Ferrari usou-o no final.

Vettel está certo quando diz que deveria ter ganho o GP da Espanha, mas não é daquelas provas em que dá para crucificar a estratégia da Ferrari. Afinal, foi uma série de fatores – incluindo o trabalho dos dois pilotos da Mercedes – que deu a vitória a Hamilton.

8 comentários sobre “Estratégia do GP da Espanha e o triunfo das novas regras

  1. Acho que o Botas foi decisivo para a vitória do Hamilton, somado ao SC virtual. Os SCs andam atrapalhando as estratégias do alemão neste ano. Mas o que importa é que a Ferrari continua forte e devemos apreciar está disputa por toda temporada.

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  2. Muito me impressionou o último stint do Hamilton. Achei que seria muito difícil aguentar o ritmo até o fim, ainda mais com a Ferrari do Vettel de pneus médios. Mal comparando o ritmo, o médio novo na Mercedes era equivalente ao macio de algumas voltas (8, acho) da Ferrari no primeiro stint.

    E muitas palmas pro Wehrlein e a estratégia da Sauber, extremamente certeira. E poderia ter sido até um 6° lugar se tivesse saído na frente do Hulkenberg, já que passar tava complicado, como dever saber bem o Sainz

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  3. Como somente numeros nao bastam para convencer os fans que o cara he muito bom ou completo (ate hoje tem gente que menospreza os stats do Schumacher), para mim Hamilton tem que ganhar varias algumas corridas a la Schumacher/Alonso de outrora tambem… quando tera que colecionar voltas de classificacao em massa, uma atras da outra para compensar algum deficit de tempo em relacao a um Vettel da vida.

    Parece que a nova F-1 pos Bernard esta se tornando mais atraente mesmo, ou seria mais um caso de confirmation bias?

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  4. A volta de Luís Amilton foi realmente incrível! Fez relembrar Michael Shumacher e suas voltas voadoras antes das paradas nos boxes.
    Julianne, li em algum lugar que a perda de tempo do Sebastião Vettel, teria chegado a 9s atrás do Bottas, você utilizou 4s, pq uma divergência tão grande? Desculpe ser chato, mas é pq confio beeem mais na sua informação do que na de outros jornalistas da categoria.
    Rs
    Abraços pros meninos e beijos pras meninas!

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    1. Até onde lembro, Hamilton saiu a quase 10s de Vettel. No momento que Vettel passou Bottas, Hamilton estava na casa de 3,5s de Vettel.

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  5. Parabéns por mais uma impressionante descrição das estratégias e táticas do GP, Julianne!
    Mas uma coisa me chamou a atenção neste GP: o grande número de ultrapassagens nesta pista em todos os pelotões. Com mais aerodinâmica, pneus mais duráveis, e em uma pista com várias curvas de raio longo, é difícil entender.
    Será que teve haver com a variabilidade estratégica que as circunstâncias específicas da edição de 2017 propiciaram, como este Safety Car virtual?

    Abraços,
    Atenágoras Souza Silva.

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