Por dentro da F-1 e da dieta dos pilotos

Ele podia ter ganhado ou perdido a corrida, estar de mau ou bom humor, mas uma cena sempre se repetia nas coletivas de imprensa escrita de Lewis Hamilton nos últimos anos: antes de se sentar para responder as perguntas, sempre passava pelo pote de doces que sempre está à disposição no motorhome da Mercedes e pegava dois ou três chocolates. Ficava escolhendo até achar seus queridos Kinder Ovo.

Neste ano, os chocolates deram lugar a postagens como “odeio dieta” nas mídias sociais e, mais recentemente, à adoção de uma dieta vegana, e isso não é por acaso. Apesar do grande foco dos pilotos neste ano inicialmente ter sido a preparação física – e muitos deles claramente ganharam peso (neste caso, músculos) na pré-temporada – de lá para cá houve casos em que foi preciso emagrecer. E Hamilton está entre estes casos (ainda que muita gente vê modismo na recente “conversão”, mas isso é outra história).

Os problemas do inglês com a balança nunca tiveram tanto a ver com os chocolates em si: Hamilton tem a tendência de ganhar músculos com mais facilidade, e tinha de dosar seus treinos para não acabar ficando pesado demais nos últimos anos. Agora, tendo de treinar mais pesado para aguentar pilotar um carro mais difícil nesse sentido, inicialmente se pensava que isso não seria mais um problema, mas as coisas acabaram não sendo tão simples assim.

A Mercedes, assim como a grande maioria das demais equipes, tem um carro mais perto do limite mínimo do que gostaria e pediu aos pilotos que fizessem o possível para pouparem peso, um equilíbrio difícil quando se precisa dos múculos para aguentar o tranco.

O regulamento diz que cada carro deve pesar, no mínimo 728kg, contando o piloto, e sem o combustível. Como 10kg equivalem, na maioria dos circuitos, a cerca de 0s4 por volta, uma eternidade na Fórmula 1, as equipes tentam se manter o mais perto possível do peso mínimo – e isso tem sido mais complicado do que se esperava.

Segundo a McLaren, a maioria das equipes está com problemas não exatamente de excesso, mas de distribuição de peso. Menos o time de Woking, devido ao posicionamento de sua caixa de câmbio, ligeiramente mais baixo do que os rivais.

Quando falo ligeiramente, são 20 centímetros, mas, na escala da Fórmula 1, isso faz uma diferença enorme. Assim como sacrificar a hidratação de um piloto durante a prova, como o próprio Hamilton já fez nesta temporada. A garrafa do piloto pesa cerca de 1kg geralmente contém uma mistura de isotônico com outros suplementes, que variam de acordo com as necessidades de cada organismo. O preparador físico de Carlos Sainz, por exemplo, tem quatro garrafas diferentes, cada uma para um momento do final de semana.

Engana-se quem pensa que é apenas água pois a função destas bebidas é repor a perda hídrica, junto com os sais minerais, além de impedir que os níveis de energia também caiam depois de horas sem comer.

Os pilotos almoçam cedo relativamente cedo, antes que todas as atividades comecem para a corrida cuja largada é geralmente às 14h. Ao meio-dia e meio, eles já têm de estar no desfile dos pilotos, então o almoço é ainda antes disso. E eles só voltarão a comer por volta das 17h.

A preocupação, portanto, é manter os estoques de glicogênio cheios. São eles que vão fornecer a energia de melhor qualidade – melhor do que a energia vinda da quebra de proteínas, altamente indesejável para um atleta, pois isso significa perda de massa muscular, e de gordura. É diferente, por exemplo, de quando buscamos o emagrecimento. Neste caso, o melhor é manter os estoques de glicogênio baixos para que a gordura seja utilizada prioritariamente.

Mas voltando aos pilotos: para manter estes estoques em alta, é preciso usar carboidratos de digestão lenta. Porém, ao mesmo tempo, não podem ser aqueles sobre os quais costumamos ler, como a aveia, que tem alto teor de fibras. Por isso eles utilizam suplementos de carboidrato específicos para liberação lenta de energia, como maratonistas e triatletas também fazem, além de bebidas isotônicas, que garantem uma hidratação mais completa do que a água por conterem os mesmos sais minerais liberados pelo corpo por meio do suor.

Dependendo do piloto, ainda são adicionados aminoácidos a esta mistura, para garantir que não haverá perda muscular durante todo esse período sem comer e fazendo uma atividade física – sim, pilotar um carro de F-1 mantém os batimentos na zona de condicionamento cardiovascular, ou seja, mais perto de quando você corre do que quando você faz uma caminhada rigorosa.

Todo esse cuidado vai além da parte física em si. Não gastamos calorias apenas fazendo exercícios. Nosso corpo usa essa energia para se manter e, inclusive, para pensar. Assim, quanto mais equilibrados estiverem o gasto e a ingestão de calorias de qualidade, melhor será a capacidade do piloto tomar decisões ao longo da corrida.

É claro que a importância de uma boa hidratação durante a corrida depende do GP – mas ver o sistema quebrar em uma prova como Malásia por exemplo só não é um pesadelo maior do que uma quebra no freio para os pilotos.

10 comentários sobre “Por dentro da F-1 e da dieta dos pilotos

  1. É cada vez maior o número de pilotos que reclamam desses sacrifícios físicos que são obrigados a suportar e acredito que isso mas que o estresse e a queda de competitividade que vão fazer os pilotos aposentarem como o Button.

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  2. Existe algum caso de doping conhecido entre os pilotos? Ou a alta exigência física atual faz com que eles nem pensem em usar? A FIA faz anti-doping?

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  3. Acredito que o Vettel seja no momento o piloto melhor preparado fisicamente ou no mínimo um dos mais, não vejo nenhum sintoma de desgaste físico depois das provas e numa das mais desgastantes do ano ele depois da entrevista subiu as escadas correndo enquanto os outros dois esperavam sua vez de ser entrevistado sentado, estou errado Julianne

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  4. “Quando falo ligeiramente, são 20 centímetros,”

    São centímetros mesmo ou seriam milímetros? Uma diferença de 20cm é significativa até em carros de rua normais…. ;~)

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  5. Ju, o peso mínimo dos carros aumentou, mas não existe uma pressão dos pilotos, ou da GPDA para que esse valor aumente um pouco mais, evitando esse tipo de esforço não ?

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