Vettel incomodado e o fantasma de 2014

Durante toda a temporada de 2017, Sebastian Vettel adotou um discurso otimista em relação ao desenvolvimento da Ferrari e ao que cada resultado significava. E, aperfeiçoando a arte de encontrar pontos positivos até em uma lavada em Monza, conseguiu manter a chama ferrarista acesa mesmo quando já estava claro que a Mercedes tinha se encontrado, superando o time italiano em termos de conjunto na segunda metade do ano.

Pode ser que seja uma nova roupagem para a mesma estratégia, assim como pode ser o presságio de um ano muito difícil para o alemão. Mas o fato é que por todo o final de semana na Austrália ele fez questão de dizer que não está à vontade no carro.

Até mesmo no pódio, sendo entrevistado pelo ex-companheiro Mark Webber, Vettel disse algo como “não estou à vontade e você sabe bem como é.” É questionável se o australiano, alguma vez, teve braço para bater Vettel em condições normais, mas também é fato que a diferença entre os dois foi aumentando na mesma proporção em que Adrian Newey ia aprimorando um carro pensado no estilo pouco intuitivo do alemão, chegando ao abismo de performance do GP de Cingapura de 2013, quando Vettel era simplesmente 1s mais rápido por volta.

O ano seguinte, quando o alemão já dividia a Red Bull com Daniel Ricciardo, mostrou o outro lado da moeda. Com o novo regulamento, Vettel não conseguia usar os mesmos “truques”, especialmente pelo banimento do escapamento soprado, e acabou sendo dominado pelo então pouco experiente companheiro.

A partir de 2015, na Ferrari, Vettel encontrou um carro menos nervoso e voltou a andar bem, algo que foi acentuado pelas dificuldades encontradas por Kimi Raikkonen e sua falta de confiança na dianteira não tão presa assim, algo que talvez tenha sido herança da era Alonso.

Pois, bem. Em 2018, desde os testes, Raikkonen aparenta estar muito mais confortável com seu carro e a Ferrari efetivamente chama a atenção pela dianteira presa e pela tração. O finlandês, então, pode usar à vontade seu estilo de priorizar a saída de curva pois o carro entra equilibrado e aceita que se reacelere rapidamente.

Mas, aparentemente, não dá para agradar os dois pilotos ferraristas ao mesmo tempo, e Vettel tem reclamado de não conseguir “jogar” o carro nas curvas, como costuma fazer, pois não sente confiança na traseira, que anda mais solta do que ele gostaria.

Na Austrália, vimos o resultado prático disso, com Raikkonen sendo mais consistente e Vettel, mais propenso a erros: um repeteco de 2014. É claro que é de todo interesse da Ferrari agradar sua estrela e isso certamente será um dos alvos do desenvolvimento e do acerto para as próximas provas. Mais sensível ao comportamento do carro que os pilotos considerados os melhores do grid, o tetracampeão sabe que muito de suas chances de penta passam por aí.

17 comentários sobre “Vettel incomodado e o fantasma de 2014

  1. Ju, já ouvi muito sobre a disputa Vettel x Ricciardo, com muitos “torcedores” dizendo que o australiano é muito melhor que o Vettel. O problema de 2014 entre os dois, na minha opinião, não estava na pista, no carro ou na habilidade dos dois. Se não fosse a tal “cláusula de desempenho”, não existiria outra possibilidade do alemão ir para a Ferrari.

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  2. Ju, imagino que seria um problema para a Ferrari se Kimi, finalmente em um carro a seu estilo, começasse a despontar no campeonato a frente de Vettel. As principais atualizações aparecerão apenas na volta para as etapas da Europa?

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  3. Em 2014 Vettel não se acertou nem com o carro e nem com os pneus e nenhuma tentativa de amenizar isso deu certo, eu vejo mais como 2012 quando a mudança de regulamento ajudou Webber e prejudicou Vettel mas não tão drasticamente quanto 2014 e deu margem para Vettel trabalhar com os engenheiros para trazer o carro ao seu gosto, em 2014 se viu um Vettel totalmente perdido, este ano não está neste nível.

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  4. Daniel Ricciardo e Fernando Alonso são mesmo pilotos sem igual no grid, não importa como o carro está, eles sempre extraem o melhor do equipamento e por esse motivo que acredito que Alonso esteja um passo acima de Hamilton e Vettel, pois ambos precisam de um carro bom nas mãos. Pena que o caráter, e o talento para tomar decisões erradas na carreira, colocaram Alonso em equipes não tão competitivas assim, como a Renault de 2008 a 2009, a Ferrari de 2010 a 2014 e a agora a McLaren de 2014 até hoje.
    Para colocar Ricciardo nesse patamar acima, falta ele conseguir um carro competitivo e bater Hamilton e Vettel na pista, vejamos se ele se colocará em uma boa equipe em 2019 para conseguir isso.
    Julianne, somente o Kimi gosta do carro com a frente presa ou há outros pilotos dessa escola no grid? Se sim quais?
    Pelo visto, é melhor para a equipe ter dois pilotos com estilo parecido como foi com Alonso e Massa na Ferrari entre 2010 e 2013, pena que Massa estava com a confiança abalada pelo “Fernando is faster than you” e se recuperando do acidente.
    Grande abraço a todos do blog!

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    1. Concordo sobre Daniel e Fernando. Sobre Vettel, ele tera que ganhar campeonato disputando com Hamilton numa condicao de ter carro nao do jeito dele para entrar no rol dos monstros.

      Apesar dos numeros espetaculares e de 4 campeonatos, sempre paira sobre o otimo Sebastian a sombra do ”ganhou porque tinha melhor carro”.

      Alonso ganhou duas vezes com o melhor carro, mas ainda assim tem a fama merecida de ser um cara que sempre vai alem do que o carro oferece. Vettel para mim ainda nao conseguiu essa facanha.

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  5. Além do carro em 2014 foi o Ricciardo o piloto que melhor se adaptou aos novos pneus enquanto o Vettel esteve no oposto, enquanto os pneus do Ricciardo duravam mais de trinta voltas permitindo que ele adiasse ou economizasse paradas sem perder desempenho os pneus do Vettel acabavam em dez voltas, vendo o histórico de toda a carreira de Vettel foi o único ano que ele teve problemas com a durabilidade dos pneus.

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  6. Por mais que Räikkönen sinta à vontade no carro, ele está muito burrucratico, a forma que ele perdeu terreno depois da troca de pneus, mesmo na classificação onde superou o Vettel e Verstappen por milésimos mesmo com os dois não fazendo uma volta perfeita, o piloto que aproveitou a brexa para vencer e que abraçou cada integrante da equipe sem esquecer nenhum vai ter muito mais influência para modificar o carro ao seu gosto do que o apático Räikkönen, fui fã do Räikkönen na McLaren quando ele preferia perder pontos importantes à achegar em segundo, na Ferrari mesmo com o título nunca foi o mesmo.

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  7. Julianne, sou um grande fã seu, do programa na radio, bem como do blog, porém a cada ano, fico um pouquinho mais decepcionado com os rumos da F1, estão matando um esporte fascinante.
    As soluções encontradas para que haja competitividade, vem se mostrando inócuas, desde o final dos anos 80, tentam reduzir gastos, não funciona, inventam um monte de paradas, composto de pneus e sempre a mesma equipe na frente. As vezes alguém vence na base da estratégia, o que não tem graça, a disputa ficou nos boxes, não na pista.
    GP da Europa 1985, o titulo seria decidido nesta prova, entre Prost Maclaren motor Porshe e Alboreto Ferrari, a pole, nosso Sena, Lotus Renaut, a seu lado Piquet, Brabham Bmw, corrida vencida por Mansel Willians Honda. Porque nessa época era possível termos cinco equipes brigando em condições semelhantes, com diferentes motores e dez pilotos podendo almejar a vitória, fora que ainda a Ligier com Laffite, andou durante a prova brigando ali entre os primeiros.
    A F1 era um laboratória para a industria automobilistica, na década de 60, surgiram para os carros de rua pneus garantidos e aptos a suportar velocidades acima de 180 por hora, fruto da experiência nas pistas, hoje seria engraçado com essa palhaçada de pneus na F1, estarmos numa estrada com nosso carro e após rodarmos uns 100 kms, o automóvel perder totalmente a estabilidade, ou falando de aerodinamica, num fim de semana com rodovias lotadas, onde muitas vezes é impossível manter distância do veículo a frente, sentirmos a sensação de perder a aderência do carro.
    As pistas se encheram de gincanas, excluiram curvas de alta em muitos circuitos, os motores que nos anos 80 atingiam mil cavalos, hoje não passam dos 800, velocidade final na maioria dos circuitos é 340, a mesma final dos carros em 1972, a média do GP de Monza 1971, foi salvo engano 211 km, muito superior a maioria dos GPs de 2017.

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  8. Oi Plow!
    Sempre um prazer dialogar contigo via internet, concordo que o Vettel tinha o melhor carro, mas vamos lá:
    Mansell tinha o melhor em (se não me engano) 1987, porém o campeão mundial foi Nelson Piquet com aquela Wlliams.
    Em 1989 (se não me engano) Alain Prost tinha o melhor carro (e status de campeão mundial), mas o campeão (com seu primeiro campeonato) foi Ayrton Senna (acho que errei na grafia).
    Em 1997 Villeneuve tinha o melhor carro (e pilotava menos que Schumacher), mas foi campeão mundial.
    Em 2007 Raikonnen não tinha o melhor carro (mas era tão bom quanto Hamilton e Alonso naquela época), mas se beneficiou da briga interna dos dois pilotos da McLaren e foi campeão mundial.
    Em 2009, único ano em minha opinião em que um piloto mais fraco venceu uma disputa interna de um piloto mais forte (sim! Para mim Rubens é muito mais piloto que Button, e não é nacionalismo), Button saiu campeão mundial.
    Aonde quero chegar, para um piloto mais fraco ser campeão em cima do piloto mais forte da equipe, ele tem que ter muita sorte, como foi o caso do Button que já pegou um Rubens massacrado mentalmente pelos anos de ferrari e sabemos como o mental influencia em todos os esportes, mas em especial na F1. O cara tem que ter muita sorte para isso, sejamos sinceros, melhor piloto+melhor carro=campeão mundial.
    Nem mesmo Michael Schumacher conseguiu vencer o Jaques Villeneuve com carro inferior e convenhamos, Shummy é MUITO mais piloto, só que aquela Ferrari era consideravelmente inferior à Williams.
    O Mark Webber nunca teve braço, nem força política, para bater de frente com o Vettel, duas coisas, que apesar do menor talento, Nico Rosberg (pensou que eu ia me esquecer do campeonato de 2016, aposto) tinha. E não apenas isso, o cara era bom, vamos nos lembrar que ele venceu do Michael na Mercedes, um Michael em fim de carreira é verdade, mas ainda assim era Michael Shumacher.
    Enfim, essa sombra sempre vai pairar sobre o Vettel, mas em minha opinião apenas para os leigos do esporte, pq se não fosse os erros seguidos da Ferrari (nunca vou perdoar a equipe por não ter trocado o motor em Monza, por mais que eles tivessem esperado a atualização) e o Strike de Kimi, que tirou ele mesmo, Verstappen e o Vettel da corrida de Cingapura, corrida essa que era vitória certa pro Alemão, salvo uma tragédia como ocorreu, o campeonato no mínimo teria sido mais difícil para a dupla Mercedes-Hamilton.
    E agora pensando bem, observo como as lendas são criadas, sobre sempre irá pairar a sombra do melhor carro.
    Sobre Hamilton sempre irá pairar a sombra da ajuda dos boxes.
    Sobre Alonso as decisões erradas e como faltou carro para mais títulos.
    E por enquanto, a sombra de faltar carro a Daniel.
    Grande abraço a todos!

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  9. Eu não diria 2014, mas sim 2012. Aquele ano também foi extremamente difícil para o Vettel, muito embora alguns achem que Adrian Newey só lhe entregou foguetes nos quatro anos em que foram campeões.

    O mais importante nesse começo é que Vettel some a máxima pontuação possível dentro dessas limitações, de forma a tornar o carro mais a seu gosto com o passar das provas.

    Não duvido também que a Ferrari tenha acertado o carro mais ao gosto de Kimi de forma a trazê-lo mais para perto de Vettel no duelo com as Mercedes. Em 2017, o ano foi praticamente inteiro uma luta de Vettel contra as duas Mercedes. Já vimos na Austrália (embora tenha sido uma vitória circunstancial) que como é importante para a Ferrari tentar trazer Kimi para essa briga.

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