Sessão nostalgia e o trágico fim do “hooligan milagreiro”

“Nenhum ser humano consegue fazer milagres, mas Gilles fazia você imaginar que é possível”, disse certa vez Jacques Laffite. “O último grande piloto – o resto de nós é um bando de bons profissionais”, endossou Alain Prost. Ou um “hooligan que jamais teria sido campeão do mundo”, como o considera Eddie Jordan. Ou mesmo um pouco dos dois. O fato é que poucas vezes um piloto que venceu apenas seis provas em sua carreira na F-1 despertou tantas paixões quanto Gilles Villeneuve, que perdia a vida em um acidente dia 8 de maio 36 anos atrás.

A lista dos feitos do único piloto que o comendador Enzo Ferrari considerou comparável ao lendário Tazio Nuvolari é longa. Em um treino livre no GP dos EUA em 1979, o piloto que viria a ser campeão naquele ano, Jody Scheckter, terminou uma volta sob forte chuva acreditando de que tinha sido rápido. E descobriu que o companheiro Villeneuve fora 10s mais rápido.

Em Mônaco, também sob chuva, no ano seguinte, o canadense andou 5s mais rápido que os rivais mesmo com uma Ferrari que ficara devendo naquele ano e com pneus slick.

Em 1981, em Jarama, circuito travado, segurou carros mais rápidos por 50 voltas, no que Gordon Murray classificou na época como a melhor pilotagem que já tinha visto.

Isso, só para ficar em algumas narrativas daquele que foi um dos protagonistas do que é considerado o maior duelo roda a roda da história da F-1.

O que há de comum entre todas as narrativas sobre Villeneuve é a agressividade, algo que reaparecia toda a vez que ele pegava no volante. “O jeito mais fácil de encontrar o limite é ir cada vez mais rápido até você passar do ponto”, defendia. Nunca me esqueço de uma passagem do livro de Sid Watkins em que ele narra um passeio de carro com Gilles, em que sua esposa, Johanne, entrou na parte de trás e se deixou no assoalho, com toda a naturalidade do mundo. Era o jeito mais seguro de pegar carona com Gilles e Watkins logo entendeu por quê.

Curiosamente, toda essa agressividade desaparecia quando não era necessário acelerar. Villeneuve sempre foi conhecido entre seus pares por sua integridade – e até por isso sua morte teve traços ainda mais dramáticos. Contrariando a teoria de Jordan, o canadense teve chance de título, ainda que remota, em 1979. Porém, ao seguir as instruções da Ferrari e não ultrapassar Scheckter durante o GP da Itália, deu adeus a suas possibilidades com duas corridas para o fim.

Até por isso a atitude de seu então companheiro, Didier Pironi, no GP de San Marino de 1982, de desobedecer uma ordem semelhante e ultrapassá-lo, fez com que Villeneuve dissesse que jamais voltaria a falar com o amigo. O acidente em Zolder, duas semanas depois, quando Villeneuve tentava bater o tempo 0s1 mais rápido do próprio Pironi, acabou com qualquer chance de entendimento entre os dois.

Mas teriam os feitos de Villeneuve sido aumentados pela morte prematura e por seu estilo showman? Quem o viu na pista diz que o que sempre chamou a atenção foi como ele sempre parecia carregar muito mais velocidade que os rivais, o que explica por que, às vezes, tirava absolutamente o máximo do carro, e outras ia parar no muro. Mas sempre mergulhava em todas as oportunidades possíveis. Seu estilo também quebrou muitos motores e a diferença que o piloto pode fazer por meio da maneira como comanda o volante é bem menor hoje devido à eletrônica, e essa combinação nos leva a crer que nunca veremos um novo Gilles Villeneuve na F-1 novamente. Mas, se houvesse, como nos 70 e 80, seria um dos favoritos da torcida.

17 comentários sobre “Sessão nostalgia e o trágico fim do “hooligan milagreiro”

  1. sei lá, mas atenção que pilotos como o versrappen recebem hoje tem um pouco da nostalgia do villeneuve, na minha opinião

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  2. Pela idade que tenho acompanhei algumas corridas de Gilles pela TV. Diga-se que as transmissões eram horríveis.
    Na minha opinião, pouco importava o que acontecia ao seu redor. Ele só queria apertar o da direita. Também as histórias das loucuras com helicóptero, voando baixo pelas estradas com se estivesse num carro, assustando motoristas.
    Também penso que o cara era um suicida em potencial. Mas, deixou a impressão de que tudo é possível quando temos a “loucura” como companheira.

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  3. Oi Juliana. Como foi o acidente, ele batei atrás de outro carro no treino ou na corrida? Parece que calculou mal a ultrapassagem… o corpo voou e a cabeça com capacete ficou no carro? Abs

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    1. Se não me engano, numa volta rápida na qualificação ele pegou um carro mais lento pela frente num trecho complicado da pista, bateu por trás e foi catapultado. Lembre-se que, em 1982, os carros tinham as laterais em formato de asa invertida, o que somado às mini saias (fixas, naquele ano) geravam um downforce muito grande em curvas, permitindo que eles curvassem de pé em baixo. O chassi Ferrari não era nenhum primor de resistência mecânica naquele ano (pela primeira vez a Ferrari usava um chassi monocoque, basicamente em estrutura de alumínio e com pouco uso de fibra de carbono) e simplesmente se partiu ao meio. Gilles foi arremessado para fora preso ao banco pelo cinto de segurança e não suportou a intensidade do acidente.

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    2. O que aconteceu foi que o Mass vinha lento e Villeneuve estava acelarando. o toque das rodas fez o carro decolar e o assento se desprendeu do cockpit. Ele foi projetado para fora do carro, ainda amarrado ao banco. A Rai fez um belo documentário sobre Gilles, o Ventisette Rosso.

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    3. Luciano, ele se aproximou em muito alta velocidade de uma curva de média para baixa quando havia, no ponto de freada, um carro de outro piloto (Jochen Mass) , bastante lento em relaçao à Ferrari (nao sei se o piloto alemao já ia se recolher aos pits ou se ainda iria se lançar em volta rápida adiante – creio mais provável estivesse recolhendo o carro). Mass estava na linha de tangência da entrada curva, viu a Ferrari chegando ‘a milhao’, parece ter calculado mal as velocidades relativas e cruzou a pista para o externo do que seria a linha ideal da curva. A Ferrari chocou a frente contra a roda traseira direita do carro lento, saltou muito alto e caiu com extrema energia com sua frente na grama do lado interno da pista. Foi com tanta força que o cockpit se desintegrou lançando o assento com o piloto afivelado nele num ‘voo’ sobre a pista, o corpo terminando contido numa cerca de proteção (tipo grade de alambrado), ainda à frente dos guardrails. No relato que li se conta que houve fratura do pescoço – e presumo tenha sido no choque contra o chão, o que desintegrou o cockpit (e que nao está registrado por camera).

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  4. Um baita prazer ter acompanhado o Gilles na TV. Todos adoravamos o cara, e a F-1 naquelas epocas produzia esse tipo de heroi, gente que literalmente desafiava a morte. Sabiamos que aquilo tudo era mais que so velocidade.

    Gilles era lotado de carisma, sem querer ser produto de marketing ou caras e bocas como comecaria um pouco tempo depois com a era dos pilotos corporativos e cheios de PR por tras.

    Me lembro como fosse hoje daquele gp em Montreal na chuva assim como tambem onde estava quando vi na TV o acidente.

    Recomendo o pequeno e humilde museu dele em Quebec. Para mim uma das meccas do verdadeiro fan de F-1. La tem um snowmobile de competicao que pegava uns 160km/h na neve/gelo. Adivinha de onde veio toda aquela habilidade dele alguns anos mais tarde?

    Muito bom…cara merece todas as homenagens.

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    1. Meu primeiro ídolo na F1, o cara que me fez amar a Ferrari. Era adolescente, mas lembro muito bem da espetacular corrida em Jarama, segurando o pelotão no braço!

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  5. Infelizmente aprendi a gostar de velocidade uns dois anos após a morte do Gilles Villeneuve.
    Mas a imagem que eu faço dele por meio das leituras ou relatos de quem viu… é essa mesma.
    Do herói no sentido mais clássico da palavra.
    SALUT GILLES!

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  6. Sempre ouvi e li sobre a lenda Gilles Villeneuve, mas nunca havia visto o acidente que o vitimou, é impressionante como ele voa do carro como se fosse um boneco de pano e mais ainda pela morte instantanea no muro. Outro aspecto que faz a cena ser forte é que não há nenhum traço de sangue na pista ou no muro.
    É triste que as grndes lendas, e que sempre serão lembradas, tenham morrido na pista e paradoxalmente sempre serão lembradas mais que outros pilotos justamente por isso.
    Grande abraço a todos.

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  7. Lembro vagamente, meus primeiros passos assistindo F-1 beiram 1985. A primeira imagem que me vem a cabeça é a linda Benetton cheia de propagandas e super colorida… lindo carro! Villeneuve foi gênio, pena que a segurança das pistas e carros não ajudavam. https://www.google.com.br/search?q=foto+de+gilles+villeneuve+no+cockpit+da+ferrari&tbm=isch&source=iu&ictx=1&fir=BniHbZySzs3SSM%253A%252CSMSqJ0bpxCphIM%252C_&usg=__jO49WoGIENdZwQDMA2q7wVHMIpE%3D&sa=X&ved=0ahUKEwj6rpLvzffaAhVCjZAKHRCwA8gQ9QEIKzAB#imgdii=k2N1rHlsxKxaDM:&imgrc=BniHbZySzs3SSM: Isso era um cockpit Ferrari.

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  8. O aspecto ‘desconcertante’ da pilotagem de Villeneuve – além da condução ‘flamejante’, digamos – tinha a ver, principalmente (me parece) com sua fantástica, incrível habilidade para obter velocidade mesmo com pouquíssimo nível de aderência nos pneus – parte da improvável ‘mágica’ a que se refere Jacques Laffite. O desgaste progressivo e natural das borrachas ao longo de uma corrida parecia não afeter o carro do canadense – como se o piloto adaptasse, instantaneamente seu ‘tato’ ao nível de aderência dado no momento – mesmo que este fosse quase nulo, quase zero, como quando sob forte chuva (Watkins Glen’79 e Montreal’81) ou como em Jarama’81 .

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