Sessão nostalgia e o professor de Fittipaldi

“Minha idade? 76.000 quilômetros”, disse certa vez Chico Landi, considerado o grande pioneiro do automobilismo brasileiro e cuja morte completa 29 anos nesta semana. Contemporâneo de nomes como Nuvolari e Fangio, é ele quem é citado por Emerson Fittipaldi quando o bicampeão é questionado sobre seu pioneirismo. “Eu só segui o Seu Chico.”

O primeiro contato do filho de italiano com ítalo-brasileira foi nas ruas do bairro de Santana, em São Paulo, assistindo a corridas de carroceiros. Com a morte do pai, ainda adolescente, começou a trabalhar como mecânico, e sua habilidade em consertar carros acabou lhe dando fama nos rachas que eram disputados na cidade paulistana no final dos anos 1920.

Em 1928, Chico Landi comprou um Chevrolet 28, conhecido como “Cabeça de Cavalo”, carro com o qual diz ter aprendido a pilotar. Mas sua primeira corrida oficial foi no chamado “trampolim do diabo”, na Gávea, em 1934. Landi liderava quando abandonou e só venceria a primeira corrida no ano seguinte.

Foi para a Europa somente em 1947, inicialmente, a princípio para assistir ao primeiro GP de Bari, mas acabou correndo em impressionando ao bater os italianos Luigi Villoresi e Achille Varzi, que competiam com carros Maserati, iguais ao seu, e eram dois dos melhores pilotos da época, ao lado de Fangio, Ascari e Farina.

Seu grande momento no automobilismo europeu, contudo, seria no ano seguinte, GP de Bari 1948, quando venceu de forma tão inesperada que os organizadores improvisaram “O Guarani” ao invés do hino brasileiro. Na volta ao Brasil, mais problemas: os italianos não queriam deixá-lo passar com o troféu na alfândega e Landi precisou de intervenção do consulado brasileiro.

Foram oito anos de Europa e há quem diga que a única diferença de Landi e Fangio foi o grande incentivo financeiro dado ao piloto pelo governo argentino, embora o brasileiro fosse mais velho e tenha tido seu auge justamente durante os anos de Segunda Guerra e reestruturação da Europa. A Landi, cabia carregar ele mesmo a bandeira brasileira em sua mala para garantir que ela fosse hasteada nas corridas.

Já perto dos 50 anos quando a história da F-1 começou, Landi acabou disputando apenas seis provas na categoria entre 1951 e 1953, além do GP da Argentina de 1956, quando conquistou seu único ponto pelo quarto lugar – na verdade, 1,5 no carro dividido com Gerino Gerini.

Curiosamente, um dos carros com que Landi correu na F-1 era verde-amarelo, mas não se tratava de uma equipe essencialmente brasileira: eram três Maserati correndo sob o nome de Escuderia Bandeirantes, e as cores foram definidas pelos organizadores, que identificavam os carros de acordo com a nacionalidade dos inscritos. O time inscreveu-se apenas em quatro GPs, e teve como melhor resultado o 8º lugar no GP da Itália de 1953.

Porém, mais do que marcas em si, o que fica de Landi é sua paixão pelas corridas, que o levou até a construir, nos anos 1960, carros de corrida totalmente brasileiros com configuração de F-1, ainda que o projeto não o tenha levado à categoria. O primeiro deles, Landi-Bianco F1, teve vida curta, de um ano, após a morte de Celso Lara Barberis quando o pilotava nos 500km de Interlagos de 1963.

Em uma época na qual o Brasil era importador de petróleo e sofria com a falta do produto por conta da guerra, Landi chegou a vencer provas pilotando carros movidos a etanol, de fabricação nacional, e ficou conhecido como o rei do gasogênio, uma vez que sua empresa fabricou o que seria a fonte de combustível muito usada neste período como substituto da gasolina. E também venceu corridas com carros movidos a carvão vegetal.

Não por acaso, deixou de correr apenas aos 66 anos, em 1974. Nos últimos anos de vida, assumiu a direção do Autódromo de Interlagos com a missão de levar a corrida de F-1 a São Paulo, mas morreu em 7 de junho de 1989, menos de um ano antes do retorno da prova à capital paulista. De certa forma, porém, ele estava por lá: após a morte por infarto, suas cinzas foram espalhadas pelo autódromo.

3 comentários sobre “Sessão nostalgia e o professor de Fittipaldi

  1. Esse negocio de que Seu Chico, construiu um F1 brasileiro, não era bem assim, na época, se comprava na Europa, carros de anos anteriores, que não estavam mais sendo usados nas corridas, Maserati, Vanwal, Lancia, Ferrari e outros.
    As máquinas chegavam por aqui, na maioria das vezes, cheias de defeitos, encostadas ha anos, sem manutenção, os mecanicos se viravam para deixar os bólidos em condições de ir para pista e naturalmente nao rendiam o tanto quanto deveriam render.
    Chico Landi, pegava os carros e fazia um monte de gambiarra, substituia o motor original, por mecanica Corvette, adapitava suspensão, freios etc…., obtendo sucesso.
    Os 500 km de Interlagos, era disputado, dia 7 de setembro, no circuito externo do antigo traçado, não se usava o miolo e no acidente que vitimou o Celso Lara, a roda soltou, atingindo violentamente uma espectadora, e salvo engano, também morreu.

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  2. Chico tornou-se muito famoso nos anos 50/60, principalmente em São Paulo, havia virado sinonimo de velocidade, se alguém pelas ruas estava correndo em demasia, um transeunte bradava: Quem ele pensa que é, o Chico Landi!!!
    Esses caras eram bons demais, sem um pingo de segurança, pneus estreitos, um cokpit totalmente aberto, gorrinho de couro na cabeça, óculos parecidos com de nadador, cambio seco, freios a lona, nenhum cinto e alcançavam 230 km por hora, fora tudo isso, derrapavam muito de traseira. Haja braço.
    Outro piloto famoso aqui no Brasil, foi Ciro Caires, que ao lado do Chico e do Celso Lara dominavam a categoria. Ciro posteriormente foi piloto da equipe Sinca, oficial de fábrica, nas provas de turismo.

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  3. “Foram oito anos de Europa e há quem diga que a única diferença de Landi e Fangio foi o grande incentivo financeiro dado ao piloto pelo governo argentino”
    Impressionante como R$ sempre influenciou na F1, mas somente recentemente com o Maldonado na Williams que se passou a falar sobre isso.
    Grande abraço a todos do blog!

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