Sessão nostalgia e o penta conquistado em julho

É interessante observar como vem crescendo o número de fãs que identificam o início dos anos 2000 como a melhor época da F-1. Talvez sempre será assim: cresci ouvindo que os grandes eram os gladiadores dos primórdios da categoria, depois vieram aqueles que falavam saudosamente dos anos 1980 e hoje, dos 2000. Há contra-argumentos em relação a todos eles para uma questão que não tem uma resposta definitiva mas, ao mesmo tempo que dá para entender por que a F-1 de cerca de 15 anos atrás desperta tanto interesse, houve momentos em que ela deixou bastante a desejar em termos de competitividade.

Os carros da primeira metade da primeira década dos anos 2000 foram os mais rápidos da categoria, pelo menos até a geração de 2017. Eles tinham visual agressivo e eram bem, bem mais barulhentos que os carros atuais – e os pilotos tinham mais respaldo da tecnologia para pilotar, com controle de tração e telemetria bilateral, ou seja, a possibilidade de configurações do carro serem alteradas pelos engenheiros com o carro na pista, o que explica por que o volante tinha menos botões. A proposta dos pneus também era outra, voltada à performance e alimentada pelo embate entre fabricantes.

É nesse caldeirão que surgiu um dos conjuntos mais dominantes da história da categoria. Com orçamento astronômico financiado em boa parte pelo dinheiro do tabaco (perda da qual a F-1 não se recuperou até hoje), testes ilimitados, pneus feitos sob medida e toda uma equipe trabalhando em uma de um piloto, Michael Schumacher conseguia o que muitos – principalmente aqueles que veneravam os gladiadores dos anos 50 – consideravam impossível: igualava os cinco títulos de Juan Manuel Fangio.

E, sim, estamos na metade da temporada de 2018 e, há 16 anos, Schumi estava já selando o penta. Foi na 11ª de 17 etapas, no GP da França, oitava vitória do alemão no campeonato. Ser campeão com seis corridas para o fim é, até hoje, um recorde, ainda que, dois anos depois, Schumi venceria mais vezes – 14 corridas contra 11 de 2002.

O penta foi conquistado justamente na França, palco do maior número de vitórias de Schumacher na carreira, oito. Mas não foi tão fácil quanto a narrativa do campeonato faria crer: a temporada de 2002 foi marcada por muitas poles de Juan Pablo Montoya, de uma Williams calçada com pneus Michelin que era muito melhor em classificação do que em corrida, e não foi diferente em Magny-Cours.

Em um circuito conhecido pela dificuldade de ultrapassagem e em uma época da F-1 que a média era perto de 15 manobras por corrida, a estratégia da Ferrari foi usar o pit stop para que Schumacher voltasse na frente. A tática, a princípio, funcionou, e Schumacher saiu logo à frente de Montoya após as paradas, porém um erro fez com que todos acreditassem que o título teria de esperar mais um pouco: o alemão tocou a linha branca na saída dos boxes e levou um drive through, voltando em terceiro lugar, atrás do colombiano e de Kimi Raikkonen, que perseguia sua primeira vitória na F-1.

Montoya, então, continuava em primeiro e segurando o pelotão, até uma segunda parada lenta o tirar da luta pela vitória, que ficaria entre Raikkonen e Schumacher. O finlandês aguentou bem a pressão do então tetracampeão na saída dos pits e parecia ter a vitória nas mãos até que escorregou no óleo deixado pelo Toyota de Allan McNish e permitiu a ultrapassagem da Ferrari.

Schumacher chegou a perguntar à equipe se teria de devolver a posição, mas a manobra foi limpa e o alemão cruzou a linha de chegada a 1s de Kimi, e mais de 30s de seu então companheiro de McLaren David Coulthard. Apenas os cinco primeiros estavam na volta do líder.

Há quem possa dizer que a era Schumacher foi muito positiva ou muito negativa para o esporte. Mas algo que particularmente sempre me atraiu na F-1 é o nível de profissionalismo. E, nestes vídeos da época, fica claro porque o conjunto Schumacher-Ferrari conquistou tanto. De Ross Brawn cobrando-se por estar falando com Michael quando o alemão estava retornando à pista, no lance que resultou o drive through, às palavras do próprio piloto reconhecendo a enorme pressão à qual ele mesmo se submeteu para ser campeão. Em pleno mês de julho.

6 comentários sobre “Sessão nostalgia e o penta conquistado em julho

  1. Como já comentou Rubim, vários títulos e vitórias na pura sacanagem. Vergonhoso para a categoria, em verdade.
    Não é por menos que o dito é conhecido pelo apelido de Dick Vigarista…..

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  2. Sem dúvida, uma lenda. Polêmicas a parte, Schumacher trouxe um profissionalismo jamais visto à F1. Algo que Senna iniciou, mas Schumacher foi ainda além. Uma pena não termos esse monstro do esporte hoje caminhando pelo paddock.

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  3. Acompanho F1 há 35 anos.

    Vi temporadas excelentes e outras muito fracas, é do esporte, a cada ano o regulamento muda , novas tecnologias aparecem e a relação de forças entre as equipes mudam, gerando novas supremacias no esporte, assim foi com a McLaren, Williams, Ferrari, Red Bull, Mercedes.
    O que se observa é , que quanto mais se mantém o regulamento , mais equilibrado fica o campeonato, pois com o tempo as equipes menores vão chegando.

    As temporadas que mais gostei foram as de 85, 86, 87 onde apesar de existirem favoritos , varias equipes podiam vencer, porém temporadas como de 88,89 apesar de para os brasileiros serem idolatradas , eram muito chatas , com Senna e Prost chegando 1 volta à frente do terceiro colocado.
    O fator quebra muito presente nos campeonatos da década de 80 foram diminuindo, e tirando o imponderável do caminho, as pistas foram mudando tirando as caixas de brita e permitindo ao piloto errar mais, sem uma punição (abandono).
    Mas tivemos temporadas legais como 96/98/99/06/07/08/09/10/12.

    Não vejo a F1 no momento ruim, vejo uma geração fantástica de pilotos, para mim a melhor da história, mas temos os problemas de ultrapassagem, que poderiam ser resolvidos (se não existisse tanta politicagem) com uma restrição maior na aerodinâmica ( asas simples e assoalhos simples) e um aumento da zona de frenagem com algumas modificações nos freios, isso tornaria a F1 mais lenta do que é hoje , porém mais interessante, e acredito mais equilibrada , já que a parte de aerodinâmica é muito cara para ser desenvolvida.
    Não acho que a F1 vive um momento ruim, precisa de pequenos ajustes para entregar novamente disputas na parte da frente, o problema lá como cá é a política e no caso da F1 as equipes poderosas que não querem perder espaço.

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  4. O domínio de Schumacher nessa época se deu em grande parte pelo orçamento praticamente ilimitado da Ferrari q testava muito mais que as outras equipes. Lembro que era normal para a Schumacher treinar em Maranello na sexta feira do fim de semana da corrida de Mônaco. Usavam dados coletados na quinta para melhorar o carro para o sábado e domingo testando soluções. Certamente em um contexto de testes probidos, as conquistas não seriam tantas.

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  5. Estava oensando exatamente sobre isso esses dias, como a geração seguinte considera a F1de “antigamente” a melhor época. Creio que seja pq é a F1 que eles cresceram vendo e alguns humanos tem dificuldade de se adaptar às mudanças.
    Corrijam-me se eu estiver errado, mas osndois títulos mundias de Fernando Alonso é em cima desse controle de tração, lembro-me que aquela Renault estava longe de se classificar bem, mas nas largadas parecia ter uma mola que fazia o carro “pular” e ganhar várias posições. Não lembro muito bem se aquele carro era ruim de classificação, mas me lembro desse pulo nas largadas.
    Essa questão do tabaco dá um post interessante hein Julianne? (#ficaadica kkk).
    E por último, mas não menos importante, essa era de domínio da Ferrari foi realmente incrível, toda a estrutura montada pelo Montezemolo foi fantástica, e é curioso observar que o Schummy quase adiou o título por algo que ele raramente fazia:
    Errar.
    E impressiona também a capacidade dele de gerenciar a corrida e perguntar à equipe se teria que devolver a posição ao Raikkonen. Algo que poucos pilotos fazem bem, ainda mais em tempos em que os pilotos são avisados por GPS que tem um carro atrás, nem no espelho retorvisor querem olhar.
    Grande abraço a todos do Blog!

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  6. Meu criterio p/ definir o tanto que uma ”era” he mais gostosa que a outra, qualquer que seja o intervalo de tempo:

    1. Dificuldade na direcao dos carros.
    2. Imprevisibilidade nos resultados
    3. Quantidade de pilotos carismaticos
    4. Design dos carros
    5. Liberdade na design dos carros
    6. Nivel de politicagem da FIA ou Fom ou Anacozeca.
    7. Indice de mimimi dos pilotos e equipes.

    Adoro meados de 1970 ate 1987. 98, 99, meados de 2000. E Ze Fini.

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